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bicho do mato

Aqui fala-se de natureza, aves, bichos em geral e do que mais me passar pela cabeça

bicho do mato

Aqui fala-se de natureza, aves, bichos em geral e do que mais me passar pela cabeça

04
Set20

Falsa liberdade

Há uns tempos, fui desafiado pela autora do blogue Liberdade aos 42 para escrever umas linhas sobre a liberdade. Isto foi o que "saiu"...

Águia-cobreira (Circaetus gallicus)

 

Não creio, no sentido filosófico do termo, na liberdade do homem. Todos agem não apenas sob um constrangimento exterior mas também de acordo com uma necessidade interior.

Einstein

 

A expressão popular “livre como um pássaro” dá a entender que as aves são animais verdadeiramente livres, pois podem voar e estão libertas de convenções sociais limitadoras, como limites administrativos ou políticos. No entanto a sua liberdade não é absoluta… tal como quaisquer outros seres vivos, as aves estão sujeitas a imperativos biológicos e evolutivos. As suas vidas decorrem guiadas por condicionalismos como a necessidade de procriar, de migrar ou de proteger um território.

Já a humanidade tem tentado “evoluir” de forma a superar as suas necessidades primárias enquanto seres biológicos. Conseguimo-lo parcialmente, abandonando os nossos instintos, substituindo-os por preceitos sociais e morais, criando leis, regras e tabus. Libertámo-nos da nossa necessidade de migrar, aprendendo a moldar o ambiente aos nossos desígnios e criámos figuras de “autoridade”, como a polícia e os tribunais, para que cada um de nós não sinta a necessidade de defender o seu próprio território. A tudo isto ainda somámos uma nova dimensão: os anseios da “alma”… uma amarra muito pessoal, que condiciona de forma dramática o sentido de felicidade de cada um de nós.

 A nossa evolução enquanto espécie pode ter-nos granjeado um lugar semi-divino na ordem das coisas, mas levou-nos a trocar uns poucos grilhões biológicos por uma imensidão de prisões morais, legais, emocionais e filosóficas. Teremos realmente ganho algo com isso? 

 

Liberdade? Não… tal como o Albert, não acredito na liberdade do homem.

10
Ago20

Fazer ciência a brincar

Fazer observação de natureza implica passar muito tempo no campo. A sós ou acompanhados, aqueles que são apaixonados por esta actividade acabam por ter o privilégio de presenciar cenas de vida selvagem que a maioria das pessoas "comuns" apenas vê nos documentários na televisão.

Entre estes privilegiados, uns têm uma perspectiva artística sobre aquilo que observam na natureza, alguns enveredam por um caminho filosófico ou espiritual, enquanto outros seguem uma visão mais científica, alguns têm até uma aproximação brincalhona e há também aqueles que misturam um pouco de tudo isto... o que importa na realidade é que cada um retire as ilacções, os conhecimentos e a satisfação que mais se adequa à sua forma de ver a natureza.

Concretizando a sua paixão na tentativa de conseguir a foto mais perfeita, os "fotógrafos de natureza" dividem a sua atenção entre a compreensão da arte fotográfica (a luz, os enquadramentos, a exposição) e o conhecimento sobre os seus "motivos". Com o advento da fotografia digital, esta actividade sofreu um autêntico boom e hoje proliferam pela Internet bonitos retratos de bichos...  mas aquele momento especial ou aquele comportamento inaudito registados com excelente qualidade de imagem e real dimensão artística são ainda prémios ao alcance de muito poucos. Estes parcos verdadeiros fotógrafos de natureza são de facto uma classe à parte. Seja como for, dificilmente veremos qualquer uma destas pessoas no campo sem uma câmara na mão... a imagem é a sua vida.

Mais preocupados com o conhecimento científico sobre o mundo natural, os chamados "observadores" concentram as suas energias em compreender aquilo que observam. Que espécies de aves há em determinado local? Quantos indivíduos existem? Quando e porque estão ali presentes? Como se comportam e qual a razão ou significado dos seus comportamentos? Como interagem com o meio? O seu equipamento essencial é materializado num par de binóculos e num bloco de notas (hoje muitas vezes substituído pelo smartphone), mas é muito comum vê-los carregando às costas um telescópio e também... uma câmara fotográfica. Embora até estas pessoas dêem importância à recolha de imagens, o seu foco não é esse e é comum que os resultados sejam sofríveis, apenas meros registos da presença da espécie fotografada.

Confesso que pertenço a este último grupo. Geralmente sozinho, algumas vezes acompanhado por um restrito grupo de "correligionários", ando pelos matos a identificar, contar e registar aves e outros seres vivos. Gosto de obter conhecimento sobre os bichos que observo, seja ele empírico, através da observação directa ou mais académico, utilizando livros e guias.

O meu equipamento fotográfico é fraco, o meu conhecimento de fotografia é limitado e a minha sensibilidade artística é quase nula. Como tal, as minhas fotos são sofríveis e os meus vídeos são demasiado amadores. Ainda assim, vou tentando usá-l@s para transmitir um pouco de conhecimento e, porque não, causar uns sorrisos. 

Ciência cidadã, é o péssimo nome que dão aos dados que vão sendo recolhidos por pessoas como eu. Ainda assim é ciência e, como tal, deve ser levada a sério, não é? Beeeeem... sim, a nossa actividade contribui um pouquinho para a ciência, mas isso não implica que não estejamos ali para nos divertirmos.  

Como em tantas outras actividades, é importante não nos levarmos demasiado a sério. Um olhar crítico e bem humorado é essencial para que um hobbie não passe a ter o peso de um trabalho. Afinal, a vida deve ser levada com leveza e, para nerds como eu, nada é mais divertido do que fazer ciência... a brincar. 

(PS: vejam os vídeos com som e em 1080p HD, ficam menos maus assim)

 

07
Ago20

Artigo: Todo o equipamento que necessita para observar aves na cidade

Imagem retirada do filme "The Big Year"

 

Hoje, deparei-me com este artigo. Sob o título "Todo o equipamento que necessita para observar aves na cidade", o autor fala de como esta crise sanitária trouxe uma - em certos casos radical - mudança de hábitos e de como, após uma saída de campo com um grupo organizado, se apercebeu de que a observação de aves é uma alternativa às nossas antigas rotinas. E, importante para não "assustar" os mais urbanos, esta actividade de crescente popularidade pode ser até ser levada a cabo na cidade. Como este é um hobbie que beneficia com algum equipamento específico, eles dão umas dicas sobre esse assunto. Achei ambos os artigos interessantes e recomendo a sua leitura.

Já anteriormente me referi à possibilidade de observar aves na cidade, aqui e aqui... mas, embora até  tenha também falado um pouco sobre guias de campo, nunca fiz grandes referências ao restante material necessário.

 

Seria interessante que escrevesse umas linhas sobre equipamento recomendado, eventualmente com dicas específicas sobre marcas, modelos e preços, ou o artigo da Hypebeast é suficiente?

08
Jun20

Até os bichinhos gostam

Enquanto os humanos estavam fechados em casa, a sentir os efeitos da pandemia, a natureza lá fora seguia os seus timmings... a primavera chegou em força, os bichos saíram dos seus confinamentos invernantes e as feromonas libertaram-se no ar.

Besouro-tigre (Lophyra flexuosa ssp. flexuosa)

Besouro-tigre (Lophyra flexuosa ssp. flexuosa) Seixal (25-04-2020)

 

Primavera. É nesta altura do ano que grande parte dos animais se dedica a cumprir o seu maior propósito de vida: a propagação da espécie. Quaisquer locais, sejam eles matos, árvores, flores, ervas, caminhos, pedras ou até o próprio ar, podem ser palco de "tórridas" cenas de acasalamento que fariam corar a maioria dos humanos. 

Besouro-capuchinho (Heliotaurus ruficollis) Seixal (26-04-2020)Escaravelho (Stenopterus mauritanicus) Seixal (24-04-2020)
Borboleta-pequena‑da‑couve (Pieris rapae) Seixal (18-04-2020) Percevejo (Enoplops scapha) Seixal (11-04-2020)Mosca-das-flores (Sphaerophoria scripta) Seixal (11-04-2020)Jaquetão-mediterrânico (Oxythyrea funesta) Seixal (11-04-2020)Percevejo-das-malvas (Oxycarenus lavaterae) Seixal (03-04-2020)Gorgulho (Lixus pulverulentus) Seixal (15-03-2020)Gafanhoto-egípcio (Anacridium aegyptium) Fadagosa (08-06-2019)Lagartixa-verde (Podarcis virescens) Seixal (25-04-2018)

 

Todo este espectáculo natural pode ser apreciado por qualquer pessoa que vá dar um passeio no campo ou até num qualquer parque ou jardim urbano, pois o pudor e a vergonha são construções sociais exclusivas da Humanidade que, ao longo do tempo, têm moldado a nossa percepção de um tema central na vida da maioria dos animais: o sexo. Tema este que tem sido alvo de livros, poemas, filmes, perseguições, tabus e até atrocidades. No entanto, é algo tão natural e essencial como respirar ou comer. Afinal... até os bichinhos gostam. 

05
Mai20

Bichos do mato: Aranhas - pesadelos de oito patas

Os invertebrados são dos animais menos conhecidos do público em geral. Embora estejamos constantemente rodeados deles, o seu tamanho e os seus hábitos fazem com que tantas vezes nem reparemos na sua presença.

Tecedeira-de-cruz-cosmopolita (Araneus diadematus)

Tecedeira-de-cruz-cosmopolita (Araneus diadematus) Oliveira de Azeméis (14-09-2019)

 

Quando os descobrimos por perto, a nossa reacção automática é de matá-los, ignorando os grandes serviços que nos prestam, seja como polinizadores (e.g. abelhas e moscas) ou como controladores de pragas (e.g. aranhas e joaninhas). Como infelizmente tememos aquilo que não conhecemos bem, os insectos e aranhas tendem a gerar em nós reacções de medo e repulsa. 

Aranha-lince (Oxyopes lineatus) Serra de S. Mamede (08-06-2019).JPGAranha-lince (Oxyopes lineatus) Serra de S. Mamede (08-06-2019)

 

Mas... as aranhas não são insectos? 

Não. Os insetos (classe Insecta) têm o corpo dividido em três partes: cabeça, tórax e abdómen. Possuem três pares de patas, apresentam um par de antenas e têm um desenvolvimento indireto. Já os aracnídeos (classe Arachnida) apresentam o corpo dividido em duas partes: abdómen e cefalotórax. Possuem quatro pares de patas, quelíceras, não apresentam antenas e podem ter um desenvolvimento direto ou indireto.

Aranha-de-funil (Eratigena sp.) Oliveira de Azeméis (13-09-2019)Aranha-lobo-radiada (Hogna radiata) Cercal do Alentejo (12-08-2019)

 

Como é que estas exímias predadoras caçam? Bem, existem variadas técnicas nas quais cada espécie se especializa. Algumas tecem teias extremamente resistentes e impregnadas de uma substância adesiva em locais estratégicos, aguardando que algum insecto lá caia. Assim que tal acontece, atacam de forma fulminante, injectando-lhe veneno e embrulhando-o em seda para ser depois consumido. Outras espécies perseguem activamente as suas presas, muitas vezes saltando para as capturar. Há também aquelas que fazem emboscadas escondidas em fendas, buracos ou até mesmo camufladas nas flores das quais os insectos se alimentam.

Aranha-vespa (Argiope bruennichi) Serra da Freita (14-09-2019) Aranha-tigre-lobada (Argiope lobata) Espaço Interpretativo da Lagoa Pequena (21-08-2019)

 

Após capturarem as suas presas, as aranhas expelem um fluido digestivo para cima das mesmas começando assim o processo de digestão ainda fora do seu organismo. Após triturarem os pequenos animais com as quelíceras, reabsorvem os fluidos libertados, juntamente com a "carne". Deste processo sobra apenas uma pequena bola de resíduos, contendo as partes da quitina que a aranha é incapaz de digerir. Algumas espécies, como as aranhas caranguejo, injectam os fluidos digestivos no interior corpo das suas presas que são dissolvidas por dentro e sugadas de forma a que apenas resta uma carapaça vazia, ainda com a forma original do insecto.

Aranha-caranguejo-de-Napoleão (Synema globosum) Seixal (18-04-2020)Aranha-florícola-de-tubérculos (Thomisus onustus) Seixal (10-04-2020)Aranha-caranguejo-de-Napoleão (Synema globosum) Seixal (18-03-2020) Aranha-florícola-de-tubérculos (Thomisus onustus) Cercal do Alentejo (11-08-2019) 

As suas oito patas, o seu abdómen proeminente, os seus olhos (a maioria das aranhas tem quatro pares de olhos), os seus hábitos e até a forma como se movem constroem um aspecto geral repulsivo aos nossos olhos. Ainda assim, se conseguirmos observá-las de perto, podemos constatar que têm uma beleza muito própria, com formatos exóticos, cores garridas e padrões muito diversos consoante as espécies (e até por vezes com bastante variação individual).

Aranha (Mangora acalypha) Seixal (24-04-2020) Aranha (Anelosimus sp.) Seixal (15-03-2020)Aranha-caranguejo-de-Napoleão (Synema globosum) Santiago do Cacém (09-08-2019) Solífugo (Gluvia dorsalis) Segura, Idanha-a-nova (17-06-2017)

 

Enquanto espécie, temos evoluído no sentido de tentarmos viver em ambientes cada vez mais estéreis, sem a presença de outros seres ao nosso redor. Esta tentativa pseudo-divina de nos distanciarmos fisicamente dos restantes animais resulta bastas vezes em autênticas barbaridades... por medo irracional destruímos criaturas que nos são inofensivas e úteis. Acarinhem as vossas aranhas, bem como as osgas, cobras e outros bichos que vos assustam, pois muitas vezes são eles quem nos protege de ameaças bem mais reais...

12
Abr20

Bichos do mato: o Coelho-bravo

Este é o animal geralmente associado à presente época festiva. Segundo a mitologia alemã, a deusa da fertilidade Ostera devolveu à sua forma original um pássaro que havia transformado em coelho, para diversão de algumas crianças. Ao ver-se novamente na sua forma emplumada, a ave pôs alguns ovos coloridos à laia de agradecimento, dando origem à tradição do coelho e dos ovos da Páscoa. É uma das teorias...

 

Coelho-Bravo (Oryctolagus cuniculus)

Coelho-Bravo (Oryctolagus cuniculus) Corroios (22-03-2020)

 

Entretanto, por cá e sem qualquer ligação a deusas ou a ovos enfeitados, evoluía uma espécie que viria a ganhar importância-chave nos ecossistemas mediterrânicos: o coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus). Este pequeno e ágil herbívoro é presa preferencial de diversos predadores, entre eles o icónico lince-ibérico (Lynx pardinus), a "manhosa" raposa-vermelha (Vulpes vulpes) e a ameaçada águia-imperial-ibérica (Aquila adalberti).

 

Hoje em dia, apesar da preferência por habitats de orla, em terrenos arenosos com interligação entre culturas, prados e zonas de mato denso, não é incomum que os vejamos num qualquer parque urbano, a fugir ziguezagueando como se estivessem indecisos acerca de qual o melhor caminho a tomar.

As suas tocas de habitação são profundas com várias entradas e galerias entrecruzadas, ao passo que as suas tocas de reprodução - também elas profundas - se limitam a uma galeria simples que é abandonada quando as crias atingem as 3 semanas de idade.

Coelho-Bravo (Oryctolagus cuniculus)

Coelho-Bravo (Oryctolagus cuniculus) Herdade de Pancas (21-01-2018)

 

Devido aos seus hábitos mais crepusculares, a uma excelente visão, a uma audição apurada e a uma grande capacidade de reprodução, o coelho-bravo prosperou na Europa (principalmente P.I. e França) - chegando mesmo a ser extremamente abundante na Península Ibérica - até início dos anos 50, altura em que um médico francês resolveu introduzir ilegalmente um vírus importado da América do Sul, para eliminar os coelhos que danificavam as suas culturas. A mixomatose, doença causada por este vírus, espalhou-se rapidamente e foi arrasadora, chegando a causar a perda de populações inteiras. Em meados dos anos 80 e através de coelhos domésticos importados da Ásia, chegou à Europa a doença hemorrágica viral, que viria a dar mais uma forte machadada na sustentabilidade da espécie. Nos últimos anos o número de efectivos diminuiu cerca de 70%...

Neste momento decorrem estudos e delineiam-se estratégias para tentar garantir a sobrevivência desta importante peça para os nossos ecossistemas e para algumas economias locais.

Coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus)

Coelho-Bravo (Oryctolagus cuniculus) Corroios (22-03-2020)

 

Hoje existem por cá também coelhos domésticos, criados para alimentação humana e coelhos exóticos, mantidos como animais de estimação. Uns são maiores, outros mais pequeninos, alguns têm olhos vermelhos, outros são mais felpudos, mais mansos, mais "fofinhos", mais bonitos... 

Pode parecer simples e não ter a beleza ou a exuberância de outros, mas só o Coelho-bravo é livre e indómito... só ele carrega o carisma de um verdadeiro bicho do mato.

26
Mar20

Distanciamento social ou a vida selvagem

Vivemos tempos negros. Recolhimento e distanciamento social são as palavras de ordem, numa desesperada tentativa de ganhar vantagem nesta batalha contra um vilão invisível. Uma arma biológica dos americanos, dizem uns, uma estratégia económica dos chineses, alvitram outros. Há quem opine que é uma tentativa desesperada dos ambientalistas de nos ensinar uma lição, tal como há quem acredite que este não passa de mais um sistema de auto-defesa da natureza, apenas mais eficiente do que os últimos. Teorias sobre a origem desde momento geracionalmente marcante que vivemos, há para todos os gostos... podemos dar-lhes crédito ou não. Mas as consequências, essas são inolvidáveis: medo, desconfiança, incerteza, doença, morte. 

Entretanto, indiferente aos dramas humanos, a natureza seguiu o seu curso e... prosperou. Sem a agitação do movimento constante de embarcações, as águas de Veneza estão tão límpidas que permitem ver os peixes no fundo (as tão propaladas imagens de golfinhos nos canais provaram-se falsas). Com o recolhimento da população, com o abrandamento da industria e do tráfego aéreo, a mancha de poluição sobre a China diminuiu drasticamente, brutalmente mesmo...

 

Por cá, paulatinamente e quase sem que déssemos por tal, a primavera chegou e envolveu-nos em sons, cheiros e cores.

Rubi (Callophrys rubi)

Rubi (Callophrys rubi) Seixal (23-03-2020)

 

Enquanto na natureza mais um ciclo se completa e outro se inicia, uma nova e estranha realidade apanhou-nos a todos mais ou menos desprevenidos e cada um de nós vai lidando com ela o melhor que pode e sabe. Pessoalmente, a decretada e óbvia necessidade de distanciamento social na verdade não trouxe grandes alterações às minhas rotinas. Apesar de gostar da companhia de um ou outro bicho-do-mato, estou habituado a andar pelos campos sozinho e até posso dizer que é algo que realmente aprecio.

Coelho-Bravo (Oryctolagus cuniculus)

Coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus) Seixal (22-03-2020)

 

"Têm de ficar em casa." Se o distanciamento social não é grandemente problemático para mim, o dever de recolhimento mexe bastante com os meus processos. Com muito tempo livre e sem uma justificação válida para fazer as minhas mais extensas saídas de campo, tive que me readaptar. Com algumas excepções, é-nos permitido algum tempo no exterior para "passeios higiénicos", chamou-lhes o PM. Podemos ir caminhar, correr ou andar um pouco de bicicleta, sempre dentro daquilo a que a responsabilidade social nos obriga: devemos fazê-lo sozinhos, evitando contactos com outras pessoas.

Bufa-de-velha (Pisolithus arhizus)

Bufa-de-velha (Pisolithus arhizus) Seixal (24-03-2020)

 

Dada a conjuntura, porque não transformar uma limitação numa oportunidade? Sem poder sair para sítios mais atractivos ao nível de observação da natureza, desafiei-me a mim próprio a fazer um reconhecimento mais aprofundado da biodiversidade nas redondezas da minha "toca". 

Longicórnio (Cartallum ebulinum)

Longicórnio (Cartallum ebulinum) Seixal (18-03-2020)

 

Passeios higiénicos ao meu estilo... a ver bichos. Estas breves saídas de um par de horas, num raio de uns 300 metros de casa, têm-me vindo a trazer encontros expectáveis e até a proporcionar algumas agradáveis surpresas. 

Almirante-vermelho (Vanessa atalanta)

Almirante-vermelho (Vanessa atalanta) Seixal (22-03-2020)

 

Pequenos prados de flores coloridas albergam miríades de insectos, aranhas e outros invertebrados. Basta andar com atenção e podem observar-se criaturas de todos os tamanhos e feitios.

Y-de-prata (Autographa gamma)

Y-de-prata (Autographa gamma) Seixal (22-03-2020)

 

Nas copas dos sobranceiros pinheiros de ar inóspito podem ouvir-se várias espécies de aves, empenhadas nos seus cantos primaveris de sedução... shhhh, não façam barulho, vamos tentar ver alguma. 

Milheirinha (Serinus serinus)

Milheirinha (Serinus serinus) Seixal (24-03-2020)

 

E mesmo um aparentemente vazio caminho de terra batida pode proporcionar encontros com bichos de apecto curioso.

Mosca-dos-narcisos (Merodon equestris)

Mosca-dos-narcisos (Merodon equestris) Seixal (24-03-2020)

 

Para termos o privilégio de assistir aos miraculosos espectáculos da natureza que se desenrolam ao nosso redor, só precisamos de andar com atenção, centrarmo-nos menos em nós próprios e não deixar que a nuvem negra que actualmente paira sobre as nossas cabeças nos impeça de apreciar o mundo que nos rodeia.

Borboleta-cauda-de-andorinha (Papilio machaon)

Borboleta-cauda-de-andorinha (Papilio machaon) Seixal (24-03-2020)

 

A atenção aos pequenos detalhes, aos sons mais ténues ou aos movimentos mais dissimulados pode recompensar-nos com visões incomuns que, transportando-nos para as fábulas da nossa infância, nos fazem imaginar mundos repletos de criaturas fantásticas.

Mariposa-fada (Micropterix ibericella)

Mariposa-fada (Micropterix ibericella) Seixal (17-03-2020)

 

Se até num frio e estéril bloco de cimento podemos encontrar vida e beleza, porque não haveremos de acreditar que as coisas vão melhorar, que vamos aprender com esta lição e que vamos sair disto mais fortes, mais aptos e com mais respeito por este planeta que nos acolhe?

Escaravelho (Chrysolina bankii)

Escaravelho (Chrysolina bankii) Seixal (24-03-2020)

 

Olhamos lá para fora e vemos que, apesar das dificuldades (muitas delas criadas por nós), os animais adaptam-se, sobrevivem, prosperam, procriam. Sigamos o exemplo, temos muito a aprender com eles...  

Gorgulho (Lixus pulverulentus)

Gorgulho (Lixus pulverulentus) Seixal (15-03-2020)

 

Enquanto pudermos vamos fazendo as actividades que nos permitem manter a sanidade mental, mas vamos ser cívicos, vamos evitar o contacto uns com os outros, vamos adoptar as recomendações que nos são transmitidas e vamos ganhar esta guerra. 

Se há lição que a primavera nos traz é que, independentemente do rigor dos invernos, o sol volta sempre a brilhar e  toda a vida se renova.

Rabirruivo-preto (Phoenicurus ochruros)

Rabirruivo-preto (Phoenicurus ochruros) Seixal (23-03-2020)

02
Mar20

Uma andorinha não faz a primavera

A origem do ditado que dá nome a este 'poste' - em latim "una hirundo non facit ver" - remonta a Aristóteles (348 a.C. - 322 a.C.) e tem como base uma simples, mas importante lição de vida: nunca devemos tomar o todo por uma das suas partes.

No que diz respeito às andorinhas, é óbvio que a observação de uma destas pequenas aves em janeiro ou fevereiro não significa que chegou a estação das flores. Mas... e se observarmos várias? Não é suposto chegarem apenas na primavera? "São as alterações climáticas", é a resposta mais provável nos dia que correm. A verdade é que, independentemente da ocorrência destas alterações, é normal que as andorinhas comecem a chegar em janeiro. Algumas espécies até passam todo o inverno por cá, em certas regiões do país. 

Mas, afinal as andorinhas não são todas iguais? Que espécies ocorrem em Portugal?

Andorinha-dáurica (Cecropis daurica)

Andorinha-dáurica (Cecropis daurica) Cercal do Alentejo, Santiago do Cacém (25-03-2016)

 

Em expansão desde há uns anos, a bonita andorinha-daurica tem-se tornado cada vez mais comum no nosso país, sendo geralmente observada por cá entre março e outubro. Nidifica principalmente debaixo de pontes e viadutos, construindo o ninho em forma de taça fechada, com um longo túnel de acesso. As partes inferiores e o uropígio de cor arruivada permitem distingui-la com alguma facilidade das restantes andorinhas.

Andorinha-das-barreiras (Riparia riparia)

Andorinha-das-barreiras (Riparia riparia) Corroios, Seixal (03-04-2017)

 

Tal como o seu nome indicia, as andorinhas-das-barreiras constroem as suas colónias de nidificação em barreiras arenosas, onde escavam os pequenos buracos que lhes vão servir de ninho. Castanha nas partes superiores, apresenta o ventre e garganta de um branco sujo, com uma banda castanha a atravessar o peito. Podem ser observadas geralmente desde meados de fevereiro até setembro, altura em que migram para regiões mais austrais. 

Andorinha-das-chaminés (Hirundo rustica)

Andorinha-das-Chaminés (Hirundo rustica) Corroios, Seixal (01-04-2017)

 

Esta é uma das espécies de andorinhas mais comuns em Portugal e provavelmente a mais emblemática. Sendo uma ave bastante urbana, é natural que seja também uma das mais facilmente reconhecíveis, com a sua barriga clara, a mancha avermelhada na garganta e a sua típica "cauda de andorinha" com as longas rectrizes externas. Os seus ninhos em forma de taça aberta, podem ser avistados isolados ou em pequenas colónias nas fachadas dos nossos prédios e casas, permitindo-nos muitas vezes observar os rituais diários da criação dos pequenos juvenis. A andorinha-das-chaminés é das primeiras aves estivais a regressar ao nosso país - sendo geralmente possível observar os primeiros indivíduos logo no início de janeiro - regressando a África nos finais de outubro. 

Andorinha-das-rochas (Ptyonoprogne rupestris)

Andorinha-das-rochas (Ptyonoprogne rupestris) Alegrete, Portalegre (08-06-2019)

 

Sem ser abundante a nível nacional, a andorinha-das-rochas é bastante mais comum no interior do país, na época de nidificação. Chegado o inverno, é também possível encontrar dormitórios de várias dezenas de indivíduos nalgumas falésias costeiras e até em edifícios, na metade sul do território. É totalmente castanha, com um tom mais claro na zona inferior do corpo. Apresenta uma cauda quadrada que, quando aberta, revela algumas pintas brancas conspícuas.

Os seus ninhos encontram-se geralmente isolados ou em colónias de pequenas dimensões e apresentam um formato de taça aberta, semelhante aos das andorinhas-das-chaminés, mas são construídos em anfractuosidades rochosas. Em certas regiões, é possível observá-las a nidificar também em zonas urbanas, sob as varandas das edificações.

Andorinha-dos-beirais (Delichon urbicum)

Andorinha-dos-beirais (Delichon urbicum) Parque Bem-saúde, Lisboa (13-05-2017)

 

É a mais urbana das nossas andorinhas. A distribuição da andorinha-dos-beirais abrange a maioria do território, com especial incidência nas zonas de maior ocupação humana. Tem a cauda ligeiramente bifurcada, o dorso e asas escuros e a zona inferior totalmente branca (o que, em algumas regiões, lhe granjeou o nome de papalvo). Geralmente forma colónias de nidificação que podem atingir dimensões bastante consideráveis, construindo estruturas que podem chegar a ter vários níveis de ninhos. Estes ninhos apresentam um formato de taça fechada, apenas com um pequeno buraco como entrada. O maior número de efectivos chega a partir de fevereiro e permanecem no nosso território até finais do verão, altura em que é possível observar bandos de grandes dimensões, quando se preparam para migrar. 

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A chamada 'sabedoria popular' é desenvolvida e propagada entre gerações numa base de conhecimento empírico, reconhecendo-se-lhe quase sempre um fundo de verdade subjacente. Ainda assim, é a visão científica que tantas vezes vem trazer luz sobre as situações descritas nos provérbios, explicando a sua  razão de ser. E, embora a ciência já tenha negado por completo alguns destes ditados, tal facto não invalida todo o restante conhecimento popular... afinal, "não é por morrer uma andorinha que acaba a primavera".

20
Jan20

O fantástico brilho de um azul incolor

As sensações que obtemos do mundo ao nosso redor dependem em grande medida da forma como cada um o percepciona, pois todos temos uma relação muito própria com os nossos sentidos. Apesar de se poder dizer que são os odores que deixam as impressões mais duradouras, para a maioria das pessoas a visão é o sentido que rege a sua interacção com o meio. Como tal, mais do que aromas ou sons, são as formas intrincadas e as cores vivas que com maior facilidade conseguem atrair e dirigir a nossa atenção.

Um caso paradigmático é aquele pequeno grito de surpresa que involuntariamente se liberta da garganta ao ver passar um cintilante guarda-rios, numa exclamação de assombro e deslumbre perante a perfeição desta pintura viva.

Guarda-rios (Alcedo atthis)

Guarda-rios (Alcedo atthisEspaço Interpretativo da Lagoa Pequena (08-10-2016)

 

Como é que esta ave de aspecto exótico consegue apresentar uma paleta de cores tão garrida? Bem, o laranja no peito é resultado da presença de pequenos grânulos de pigmento nas penas, mas e o azul? Aqui o caso muda de figura... o guarda-rios, tal como a maioria dos vertebrados, é incapaz de produzir pigmentação azul. Na verdade, as suas penas de tons azuis e ciano não contêm quaisquer pigmentos, são compostas por um material incolor. 

Guarda-rios (Alcedo atthis)

Guarda-rios (Alcedo atthisEspaço Interpretativo da Lagoa Pequena (23-10-2016)

 

Este material, estruturado de forma muito complexa, interage com a luz de forma a optimizar a reflexão do comprimento de onda do azul. Diferenças mínimas no arranjo estrutural produzem pequenas variações nos tons da cor (Wilts et al. 2011), causando um efeito de semi-iridescência, o "brilho" tão característico desta ave. 

Este fenómeno, designado por "cor estrutural" tem vindo a ser estudado por equipas multidisciplinares de cientistas, numa tentativa de replicar o processo por forma a podermos dispor de materiais coloridos sem recorrer à utilização de pigmentos tóxicos.

Guarda-rios (Alcedo atthis)

Guarda-rios (Alcedo atthisEspaço Interpretativo da Lagoa Pequena (27-02-2016)

 

Embora possa ser difícil imaginar como é que um material transparente consegue apresentar uma coloração tão forte aos nossos olhos, isto pode ser comparado ao efeito prismático que verificamos quando a luz branca, decomposta pelas gotas da chuva, dá origem a um arco-íris (Vignolini et al. 2012).

 

Entretanto, indiferentes a quaisquer considerações sobre a sua fisionomia, estes belos animais continuam a pescar nos nossos rios e lagos e a passar por nós a alta velocidade, deixando-nos enlevados, com um brilhozinho azul nos olhos...

22
Out19

O que se esconde nas flores

Alegres, coloridas, perfumadas... as flores tendem a gerar em nós sensações de paz e alegria. Vemo-las como uma manifestação de beleza e deliciamo-nos com as suas cores e cheiros.

É de facto um verdadeiro prazer contemplar um campo florido num dia de primavera ou um exuberante e bem cuidado jardim, mas será que sabemos realmente o que lá se passa? Será que conhecemos a fundo o intrincado jogo de vida e morte que ali decorre?

Aranha-florícola-de-tubérculos (Thomisus onustus)

Aranha-florícola-de-tubérculos (Thomisus onustus) Cercal do Alentejo (11-08-2019)

 

Num qualquer prado, entre ervas, pastos, caules, folhas e pétalas, pequenos seres pululam numa azáfama quase impercetível aos nossos olhos. Este é o reino dos invertebrados, onde presas e predadores rastejam, correm, saltam, voam, procriam, caçam, são caçados, devoram e são devorados.

Gafanhoto-egípcio (Anacridium aegyptium)

Gafanhoto-egípcio (Anacridium aegyptium) Fadagosa, Nisa (08-06-2019)

 

Alguns destes invertebrados são conspícuos e facilmente identificáveis, pelo menos ao nível das suas classificações mais abrangentes. Afinal, toda gente sabe o que é uma borboleta...

Azul-comum (Polyommatus icarus)

Azul-comum (Polyommatus icarus) Galegos, Marvão (08-06-2019)

 

Mas nem estas são todas iguais. Há várias espécies neste grupo, numa multiplicidade de padrões e cores capazes de rivalizar com as flores nas quais se alimentam.

Fritilária-variegada (Melitaea phoebe)

Fritilária-variegada (Melitaea phoebe) Galegos, Marvão (08-06-2019)

 

E quando nos deparamos com algo que não sabemos explicar, apesar do seu aspecto peculiar e chamativo? "Mas isto... existe?!"

Neuróptero‑das‑duas-penas (Nemoptera bipennis)

Neuróptero‑das‑duas-penas (Nemoptera bipennis) Mata dos Medos, Almada (07-07-2019)

 

Ah, a Natureza é engenhosa e supera tão facilmente a imaginação do animal humano. Talvez até tenham sido estes pequenos seres que inspiraram os criadores dos bizarros alienígenas que povoam as nossas telas de cinema...

Formiga-leão (Macronemurus appendiculatus)

Formiga-leão (Macronemurus appendiculatus)  Quinta do Texugo, Almada (24-08-2019)

 

É verdadeiramente incrível a variedade de formas animais que podemos encontrar nestes campos de ervas e flores, umas capazes de nos fascinar, outras de nos causar repulsa... ou até ambas simultaneamente.

Grilo-de-sela-aldrabão (Steropleurus pseudolus)

Grilo-de-sela-aldrabão (Steropleurus pseudolus) Cercal do Alentejo (11-08-2019)

 

Também ali podemos descobrir espécies que instintivamente nos provocam apreensão. Afinal, quase todos nós já fomos pelo menos uma vez na vida picados por uma abelha ou vespa.

Abelha (Bembix sp.)

Abelha (Bembix sp.) Quinta do Conde (31-08-2019)

 

Na verdade temos pouco a temer destas criaturas, desde que não nos aproximemos dos seus ninhos. Por muito que os seus zumbidos nos causem reacções automáticas de medo, estes insectos andam apenas em busca de alimento e não têm qualquer interesse em nós. 

Abelha-carpinteira (Xylocopa violacea)

Abelha-carpinteira (Xylocopa violacea) Praia do 2º Torrão, Almada (02-07-2019)

 

Extremamente importantes para o processo de polinização, estes bichos trazem também um factor extra de beleza aos nossos campos, assim tenhamos a "coragem" de os observar com atenção. Até porque alguns deles não são o que parecem...

Mosca-das-flores (Volucella elegans)

Mosca-das-flores (Volucella elegans) Santiago do Cacém (09-08-2019)

 

O seu zumbido, as suas cores e o seu voo aparentemente errático fazem com que tantas vezes sejam confundidas com abelhas ou vespas, mas as moscas das flores são na verdade animais inofensivos que se alimentam de néctar.

Mosca-das-flores (Sphaerophoria scripta)

Mosca-das-flores (Sphaerophoria scripta) Parque Urbano da Quinta da Marialva, Corroios (21-07-2019)

 

É verdade... existem várias espécies de moscas, de tamanho, coloração e formato variáveis. A nossa concepção da mosca doméstica fica muito aquém da realidade deste grupo de insectos.

Mosca (Exoprosopa jacchus)

Mosca (Exoprosopa jacchus) Mata dos Medos (13-07-2019)

 

Mesmo noutros grupos como os coleópteros (escaravelhos), a variedade é tremenda... há pequenos e grandes, redondos e oblongos, coloridos e farruscos.

Escaravelho-florícola (Anthoplia floricola)

Escaravelho-florícola (Anthoplia floricola) Barragem de Póvoa e Meadas, Castelo de Vide (08-06-2019)

 

Fica uma sugestão: da próxima vez que forem a um jardim ou passear no campo, sentem-se algum tempo a observar atentamente um conjunto de flores. Vão ter uma surpresa...

Escaravelho (Oedemera barbara)

Escaravelho (Oedemera simplex) Montijo (20-06-2019)

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