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bicho do mato

Aqui fala-se de natureza, aves, bichos em geral e do que mais me passar pela cabeça

bicho do mato

Aqui fala-se de natureza, aves, bichos em geral e do que mais me passar pela cabeça

09
Mai22

Jardins de ervas daninhas

A maior parte das pessoas, quando imagina um jardim agradável, visualiza um relvado espaçoso e bem aparado, com sombras frescas, onde as crianças possam brincar e os adultos descansar. E, na verdade, a maior parte dos nossos jardins e parques urbanos estão assim idealizados, afinal esses espaços existem exclusivamente para nosso usufruto, não é?

Abelha-melífera (Apis mellifera iberiensis)Abelha-melífera-ibérica (Apis mellifera iberiensis) Santa Marta do Pinhal (13-03-2022)

Bem, essa é a forma como tendemos a ver a coisa, mas na realidade há muito mais "interessados" nesses nossos espaços de lazer. Uma miríade de pequenos insectos (entre eles as tão úteis e cada vez mais ameaçadas abelhas-melíferas) frequenta os nossos parques e jardins e depende muitas vezes deles para sobreviver nos meios extremamente humanizados das nossas cidades.

Escaravelho (Stenopterus mauritanicus)Escaravelho (Stenopterus mauritanicus) Santa Marta do Pinhal (24-04-2020)

No entanto, esta nossa filosofia de espaços verdes está longe de ser a mais sustentável, a vários níveis. Para além da absurda quantidade de água necessária para manter um relvado e da poluição causada pelos cortadores de relva, o corte constante impede as plantas de se desenvolverem e de florirem, roubando assim a estes pequenos seres a sua alimentação e os seus suportes de procriação.

Mosca-imita-vespa (Volucella zonaria) Cercal do Alentejo (10-08-2021)Lagarta de borboleta-cauda-de-andorinha (Papilio machaon) Jamor (02-10-2021)Percevejo‑do‑solo (Spilostethus pandurus) Cercal do Alentejo (10-08-2021)Jaquetão-das-flores-mediterrânico (Oxythyrea funesta) Santa Marta do Pinhal (08-04-2022)

Nos tempos que correm, há um crescente entendimento acerca das nossas interacções com a natureza e, felizmente, vamos tendo uma mais correcta noção da importância dos outros seres vivos no nosso dia-a-dia e até nas nossas actividades económicas. Sabemos hoje que os polinizadores são extremamente importantes para as nossas produções de frutos e produtos hortícolas e compreendemos cada vez melhor a necessidade de os proteger.

Almirante-vermelho (Vanessa atalanta)Almirante-vermelho (Vanessa atalanta) Santa Marta do Pinhal (22-03-2020)

Portanto, a exagerada humanização das nossas áreas verdes urbanas não é uma questão de somenos. É um assunto premente que, nos países em que existe uma maior consciencialização ambiental, já está a ser tido em consideração há bastante tempo, como podemos verificar em projectos como o No Mow May, no Reino Unido.

Este tipo de coisas costuma demorar a chegar cá ao nosso burgo, mas, afortunadamente, lá acaba por chegar. Alguns municípios, como são exemplo Oeiras, Ílhavo e Alenquer, já estão sensibilizados para esta questão e já permitem que, em algumas áreas e durante alguns períodos do ano, as "ervas daninhas" cresçam e completem o seu ciclo de vida. Em Lisboa, a FCUL foi mesmo mais longe e está a apostar na criação de mini-florestas em substituição de relvados.

Escaravelho (Hymenoplia sp.) Santa Marta do Pinhal (24-04-2020)Longicórnio (Calamobius filum) Santa Marta do Pinhal (23-04-2020)Carochinha (Chrysolina bankii) Corroios (13-03-2020)Percevejo (Eurydema ornata) Corroios (21-07-2019)Percevejo-do-funcho (Graphosoma italicum) Trafaria (15-06-2019)Escaravelho-florícola (Anthoplia floricola) Castelo de Vide (08-06-2019)

Estas acções, por importantes que sejam, não dispensam a necessidade de um crescente investimento na educação ambiental. É preciso que os comum cidadão entenda o porquê destes jardins serem aparentemente deixados ao abandono, é preciso envolver a população através de projectos como BioBlitzs ou construções de estruturas como hotéis para insectos, que podem ser levados a cabo por autarquias, escolas ou associações.

Mosca-abelhão (Bombylius cruciatus)Mosca-abelhão (Bombylius cruciatus) Seixal (08-05-2020)

Por muito que um relvado aparado e cuidado nos possa parecer atractivo, se deixarmos crescer as plantas, se permitirmos que os ciclos naturais se completem e se prestarmos atenção, olhando com olhos de ver, não é difícil observar toda a vida e toda a incrível beleza que existe nos "jardins de ervas daninhas".

10
Jan22

Eu vi um sapo

Alvos de mitos e crendices desde tempos imemoriais, os sapos são ainda hoje vistos como criaturas repugnantes e maléficas, ligadas a bruxarias e maldições. No entanto, nada poderia estar mais longe da verdade.

Os anuros, ordem da classe Amphibia à qual pertencem os sapos (tal como as rãs e as relas), são animais delicados, belos e extremamente úteis. Para além de ajudarem a controlar as populações de insectos e outros invertebrados, estes bichos são excelentes bio-indicadores que permitem aferir a qualidade dos ecossistemas.

Sapo-corredor (Epidalea calamita)Sapo-corredor (Epidalea calamita) Seixal (27-02-2021)

 

Longe de ser a minha especialidade, confesso que os anfíbios são um grupo de animais que exerce algum fascínio sobre mim, pelo que vou lendo algumas coisas e tentando aprender o que consigo sobre eles. Entre sapos, rãs e relas, a ordem Anura compreende doze espécies autóctones no território continental português. Infelizmente, ainda só consegui observar no campo oito delas....

Sapo-de-unha-negra (Pelobates cultripes)Sapo-de-unha-negra (Pelobates cultripes) Seixal (27-02-2021)

 

Terá sido, possivelmente, o aspecto "verrugoso" da pele de algumas espécies que deu origem às crenças de que os sapos causam verrugas a quem lhes tocar. Obviamente, não há qualquer fundamento nestes receios. No entanto, as afirmações de que estes animais são "peçonhentos" não são totalmente infundadas. Os sapos possuem junto à cabeça um par de glândulas chamadas parótidas, que segregam uma substância tóxica leitosa. Ainda assim, essa estratégia de defesa contra predadores é perfeitamente inócua para ao ser humano (a não ser que alguém tenha brilhante a ideia de tentar morder um sapo). Estas glândulas são especialmente desenvolvidas nas duas espécies da família Bufonidae presentes no nosso território: o sapo-comum e o sapo-corredor.

Sapo-comum (Bufo spinosus)Sapo-comum (Bufo spinosus) Sagres (25-10-2019)

 

Dependentes da humidade até para conseguirem respirar pela pele, os sapos não vivem na água, mas nunca andam muito longe de zonas alagadas, pelo que as alturas mais fáceis para os conseguir observar é aquando das primeiras chuvas do outono e primavera, quando eles se dirigem às poças temporarias para procriar e depositar os seus ovos. Quando os girinos nascem, podemos vê-los às centenas nestas poças. 

Sapo-corredor (Epidalea calamita)Amplexo de sapo-corredor (Epidalea calamita) Seixal (27-12-2021)

Sapo-corredor (Epidalea calamita) Seixal (27-02-2021)Sapo-comum (Bufo spinosus) Seixal (13-02-2021)

Sapo-comum (Bufo spinosus)Girinos de sapo-comum (Bufo spinosus) Seixal (13-02-2021)

 

Os sapos adultos podem variar muito de tamanho, dependendo da espécie. Num dos extremos, temos a fêmea de sapo-comum, que pode atingir os 21 cm de comprimento, ao passo que no outro extremo, temos os indivíduos das duas espécies de sapinho-de-verrugas-verdes, que não ultrapassam os 4,5 cm.

Sapinho-de-verrugas-verdes-português (Pelodytes atlanticus)Sapinho-de-verrugas-verdes-português (Pelodytes atlanticus) Seixal (27-12-2021)

 

Ao nível da coloração, dependendo das espécies, predominam os tons acastanhados e esverdeados. Aqui destaca-se o sapo-corredor, que apresenta alguma variação de tons e padrões, podendo ir de um padrão amarelo-acastanhado, muito semelhante ao do sapo-comum, passando por um amarelado manchado de verde, até aos padrões mais bonitos (na minha opinião) de base esbranquiçada, com manchas escuras e rosadas.

Sapo-corredor (Epidalea calamita)Sapo-corredor (Epidalea calamita) Seixal (27-02-2021)

 

Mas, na verdade, o que são sapos? Como se distinguem das rãs? Bem, pelo que pude apurar, não há uma distinção científica que os separe assim tão linearmente. Ainda assim, existem alguns traços que os definem e nos permitem classificá-los nesses termos. Por exemplo, as rãs possuem dentes e os sapos não. Além disso, as rãs vivem em meio aquático, ao passo que os sapos são terrestres e apenas andam dentro de água quando se pretendem reproduzir.

Há uma tendência popular de chamar sapos aos anuros de pele rugosa e rãs aos de pele lisa, mas esta separação não é tão rigorosa quanto isso. Por exemplo, a chamada rã-de-focinho-pontiagudo tem a pele lisa mas é, na realidade, um sapo. É um animal terrestre que depende de massas de água apenas para se reproduzir.

Rã-de-focinho-pontiagudo (Discoglossus galganoi)Rã-de-focinho-pontiagudo juvenil (Discoglossus galganoi) Seixal (31-05-2020)

 

Já as verdadeiras rãs vivem na água toda a sua vida. Menos mal-vistas que os seus "primos" sapos, elas fazem as delícias das crianças nos lagos de parques e jardins... talvez pelo facto de possuírem uma pele lisa e brilhante, sem as pseudo-verrugas que tão facilmente nos causam repulsa.

Rã-verde (Pelophylax perezi)Rã-verde (Pelophylax perezi) Almada (19-06-2019)

 

Em Portugal ocorrem duas espécies de verdadeiras rãs, sendo que a rã-verde apenas ocorre na península ibérica e no sul de França e a rã-ibérica é mesmo endémica da nossa península (em Portugal, só ocorre na metade norte do território).

Rã-ibérica (Rana iberica)Rã-ibérica (Rana iberica) Vale de Cambra (08-09-2018)

 

As relas também são, por vezes, chamadas de rãs. Mas a sua ecologia difere bastante destas últimas, pois são animais arborícolas que que se refugiam na vegetação emergente nas orlas de charcos, ribeiros ou zonas alagadas. Os seus dedos terminam numa ventosa que lhes permite agarrarem-se eficientemente ao trepar pelos os arbustos. A sua cor verde brilhante pode fazer pensar que serão fáceis de encontrar, mas longe disso... é bastante difícil dar com uma, mesmo que a estejamos a ouvir cantar ali ao lado.

Rela-comum (Hyla molleri)Rela-comum (Hyla molleri) Estarreja (23-02-2020)

 

Apesar de não terem o "glamour" das suas primas rãs e relas, os sapos são criaturas belas e cheias de personalidade, assim consigamos esquecer a nossa tão mal direccionada repulsa e observá-las à luz da curiosidade científica. Quando encontrarmos um destes bichos por aí, vale a pena parar uns minutos para tentar compreender as suas interacções com o meio e até mesmo connosco. Depois sim, ao transmitirmos a alguém aquilo que aprendemos com essa experiência, vamos poder afirmar: "Eu vi um sapo..."

09
Dez21

Born free

Cinco anos atrás, dava eu os meus primeiros passos a sério nesta actividade. Apesar de ter crescido no campo, nunca tinha observado a natureza de forma tão exuberante, tão... selvagem, como nas primeiras vezes em que visitei a lezíria. 
 
Palavra alguma poderá descrever a sensação de pequenez e deslumbre... nem tampouco meras imagens farão jamais justiça a tal espectáculo da natureza, mas fica uma vã tentativa de captar um inenarrável momento.
 
Talvez este vídeo consiga explicar, em parte, o porquê desta minha paixão.
 

 

Íbis-preta (Plegadis falcinellus) Lezíria Grande de Vila Franca de Xira (10-12-2016)

 

Sim, estas coisas ocorrem . E a uns breves minutos de distância da capital... 

23
Nov21

2º Censo Ibérico de Águia-pesqueira Invernante

Em janeiro de 2022 irá ser realizado pela segunda vez um censo ibérico da população invernante de águias-pesqueiras. Iniciativa original do portal avesdeportugal.info, este será o quinto censo desta espécie a ser levado a cabo no nosso país.

2º Censo Ibérico de Águia-pesqueira invernante

Os locais a visitar compreendem as zonas húmidas costeiras (estuários, rias e lagoas), bem como as grandes albufeiras do interior. 

Pandion haliaetusÁguia-pesqueira (Pandion haliaetus) Lezíria Grande de Vila Franca de Xira (23-12-2017)

Para participar autonomamente é necessário apenas possuir um par de binóculos e saber identificar uma águia-pesqueira. Pessoas que não possuam um (ou ambos) destes requisitos e ainda assim desejem participar nesta acção de ciência-cidadã, serão (dentro da medida do possível) colocadas com um observador mais experiente que possa assegurar a contagem.

censo_pandion_2022.JPGRede provisória de pontos de observação no estuário do Tejo - jusante

Pela terceira vez vou estar a coordenar as contagens na área do estuário do Tejo jusante (entre Pancas e o Seixal) e, se desejarem participar nesta área, podem entrar em contacto comigo através da caixa de comentários ou do email disponível no meu perfil. Caso o pretendam fazer noutra zona do país, podem à mesma contactar-me (eu encaminho-vos para o respectivo coordenador regional), ou enviar um email directamente à coordenação nacional através do endereço geral@avesdeportugal.info.

Venham passar uma manhã no campo e contribuir um bocadinho para o conhecimento sobre esta incrível ave de rapina. 

14
Nov21

Tempus fugit

À data que comecei a escrever esta publicação, tendo recentemente completado 42 anos e estando no início daquela que vai certamente ser a maior aventura da minha vida, foi com naturalidade que senti instalar-se alguma nostalgia, quando decidi organizar alguns registos das minhas saídas de campo.

Hoje, quase exactamente seis anos depois de me iniciar nesta "má vida" de observador de aves/naturalista (extremamente) amador, olho para trás e vejo mais de três centenas de espécies de aves e mais de mil espécies de outros bichos e plantas observados, vejo os livros que li na tentativa de aprender mais sobre eles, vejo as pessoas que chateei com pedidos de ajuda, vejo o quanto aprendi e cresci nesta actividade. Vejo também o muito (mas muito) mais que me falta aprender... que sensação!

A2021 (31).jpg

Sempre acreditei que a experiência não depende directamente dos kms que percorremos, mas sim daquilo que fazemos ao longo do percurso, da aprendizagem que dali conseguimos retirar.

Portanto, sinto-me privilegiado por ter logrado visitar grande parte do nosso país e por ter visto locais fantásticos, dignos de figurar num qualquer documentário da BBC ou da National Geographic. Deslumbrei-me com os vales mais profundos das terras nortenhas, naveguei ao largo da mesma costa de onde partiram os grandes navegadores de outrora, explorei as douradas planícies alentejanas, caminhei no leito do Tejo, visitei o ponto mais alto do continente e conheci os estuários dos nossos maiores rios.

Faltam-me as ilhas. Quem sabe, um dia...

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Por esse país fora, observei abutres imponentes e águias majestosas, vi estepárias na aridez da planície e aves marinhas a sobrevoar o oceano. Sondei a noite em busca das misteriosas aves nocturnas e investiguei as copas de árvores e arbustos em busca dos mais pequenos passarinhos. Vi lontras, javalis, raposas e veados e comovi-me com os golfinhos brincalhões. Procurei insectos e aranhas, fotografei plantas, fungos e até bactérias.

Talvez pareça ser algo estranho para se fazer nos tempos livres, levantar de madrugada para ir para o mato observar a natureza... mas há "pancadas" piores, suponho.

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No entanto, nem só de auto-recreação é feito este hobbie... as parcas competências que fui desenvolvendo permitiram-me, por exemplo, contribuir um pouco para o estudo das aves, através da colaboração voluntária em diversos censos e contagens. Pude também fazer algum trabalho "a sério", tendo a oportunidade de trabalhar com profissionais de excelência e utilizar tecnologia de ponta. Cheguei até a ministrar um workshop, experiência "aterrorizante", mas extremamente recompensadora... 

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Ao longo deste percurso, apesar de ser um bicho-do-mato, fui conhecendo bastantes pessoas e tenho orgulho em dizer que fiz uma mão-cheia de amigos, com os quais tem sido um prazer partilhar as minhas aventuras em busca da bicharada. 

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Desde partilhar o deslumbre com uma fabulosa paisagem ou a alegria de observar pela primeira vez uma espécie, às conversas mais sérias sobre natureza, ciência, sociedade, política, até filosofar sobre o sentido da vida ou a profundidade do universo... ou então, apenas gastar tempo a dizer as maiores patetices e a fazer as mais ridículas macacadas. Tudo é possível na companhia de pessoas que sofrem da mesma "doença mental".

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Parece que foi ontem que me sentei num cadeira no sapal, ao nascer do sol, e fiquei cerca de 3 horas a ver uma águia-pesqueira a cuidar da plumagem... eram os meus primeiros passos neste mundo e estava tão longe de imaginar tudo o que iria ver e viver nos próximos anos. Aqueles documentários sobre natureza que antes eu apenas via na TV, passei a vivê-los. A uma escala diferente, é certo, sem leões, girafas e rinocerontes, mas ainda assim não menos impressionantes.

Estes seis anos de aventuras na natureza, percorrendo alguns dos locais mais incríveis que Portugal continental tem para oferecer, na companhia de amigos que "falam a mesma língua", passaram num ápice. Venham os próximos, que serão indubitavelmente muito diferentes... e ainda melhores, acredito.

A2021 (11).jpg

Se há conselho que hoje me sinto capacitado para dar a alguém é: vivam os vossos sonhos e partilhem as vossas loucuras com quem vos compreenda. Aproveitem a vida, pois... o tempo voa.

18
Set21

As aparências iludem

O aspecto dos animais gera sentimentos em nós.
 
Tal como uma aranha, uma cobra ou uma osga tendem a causar-nos repulsa, uma ave de cores chamativas e formas delicadas parece sempre, aos nossos olhos, fofinha e inofensiva... mas a natureza não se compadece com sentimentalismos e, nela, a forma é sempre adequada à função (ou funções).
Perdiz-do-mar (Glareola pratincola) Lezíria Grande - VFX (10-04-2016) (19).JPGPerdiz-do-mar (Glareola pratincolaVila Franca de Xira (10-04-2016)
 

Por exemplo, esta bela ave, de aspecto aerodinâmico e gracioso (até angelical), é na verdade quase uma mini rapina, autêntico anjo da morte para aranhas, moluscos e grandes insectos como gafanhotos, ralos ou besouros.

Perdiz-do-mar (Glareola pratincola) Lezíria Grande - VFX (10-04-2016) (30).JPGPerdiz-do-mar (Glareola pratincolaVila Franca de Xira (10-04-2016)
 
A nossa percepção, tantas vezes enviesada pelos padrões estéticos humanos, cria-nos ilusões e leva-nos a esquecer essa velha máxima da vida... as aparências, de facto, iludem.
04
Ago21

Impactos e Interacções - Bigfoot

O impacto que as nossas actividades têm sobre a natureza aumenta a cada ano que passa. O consumo desenfreado leva a um excesso de resíduos e quem paga a factura são as aves, os peixes, as plantas... Urge tomar consciência e fazer os possíveis para reduzir a nossa pegada ecológica que, neste momento, é titânica.

 

Rola-do-mar (Arenaria interpres) Costa de Caparica (02-05-2016) (1).JPGRola-do-mar (Arenaria interpresCosta da Caparica - Almada (02-05-2016)

11
Jul21

Os Fenótipos e a Etologia - Patas & Garras

As patas são umas das partes anatómicas das aves que mais variam a nível de tamanho e formato. Se os pequenos passarinhos têm pernas relativamente curtas e finas, bem como dedos também eles finos e delicados, apropriados para se agarrarem aos pastos e ramos, as perdizes e codornizes têm patas mais fortes, adequadas a caminhar no solo, por exemplo. Há uma grande variedade de tipos de patas, pois estas tendem a reflectir com bastante fiabilidade o tipo de interacção que cada ave tem com o seu meio.

A verdade é que, se encontrássemos um destes membros perdido por aí, conseguiríamos provavelmente, com algum grau de certeza, saber a que grupo de aves teria pertencido.

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Uma águia a "surfar" um enorme peixe é uma das visões mais espectaculares que podemos ter nos nossos rios, estuários ou barragens. As patas destas rapinas especializadas na captura de peixes vivos possuem algumas das adaptações mais interessantes entre as aves, apresentando garras especialmente fortes e recurvadas, rugosidades com barbelas na pele e um dedo externo reversível, que lhe permite segurar os peixes com dois dedos para a frente e dois para trás. 

Águia-pesqueira (Pandion haliaetus)Águia-pesqueira (Pandion haliaetus) Setúbal (26-12-2020)

 

As aves que se deslocam em meio aquático, quer apenas caminhem dentro de água, quer sejam nadadoras de superfície ou até mergulhadoras, desenvolveram também elas incríveis adaptações nos seus membros posteriores.

A maioria das aves nadadoras têm as patas colocadas bem atrás, em relação ao seu centro de gravidade, e possuem membranas interdigitais ou bolbos carnudos nos dedos, que lhes proporcionam uma melhor impulsão no meio aquático. Em terra seca, estes bichos são por norma desajeitados e relativamente lentos.

Mergulhão-pequeno (Tachybaptus ruficollis)Mergulhão-pequeno (Tachybaptus ruficollis) Sesimbra (20-01-2018)

Já as garças e limícolas, que procuram alimento em lodos ou águas rasas, tendem a ter patas compridas, para que possam manter o corpo a seco, e dedos longos, que lhes conferem um maior equilíbrio.

Garça-verde (Butorides virescens)Garça-verde (Butorides virescens) Almada (09-11-2018)

O camão é um caso talvez ainda mais radical de adaptação. Para além das pernas altas, que usa para caminhar dentro de água, os seus dedos são extremamente compridos e permitem-lhe segurar as grandes raízes de caniço das quais se alimentam. Há quem diga que o seu nome deriva mesmo deste facto, sendo uma corruptela da expressão "c'a mão".

Caimão (Porphyrio porphyrio)Caimão (Porphyrio porphyrio) Espaço Interpretativo da Lagoa Pequena (27-02-2016)

 

Mas a água não é o único meio que requer uma anatomia adaptada. As aves trepadoras, como os pica-paus e as trepadeiras têm dedos curtos e unhas finas e afiadas que lhes permitem agarrar-se aos troncos das árvores (ou às rochas, no caso da trepadeira-dos-muros). Estas, em conjunto com algumas outras características anatómicas, permitem-lhes subir (ou descer, como é hábito dos passarinhos abaixo) troncos e postes em busca de alimento.

Trepadeira-azul (Sitta europaea)Trepadeira-azul (Sitta europaea) Cercal do Alentejo (14-04-2017)

 

"Armadas" com garras não menos afiadas e dedos mais poderosos, as patas das aves de rapina são sentença de morte para qualquer incauta presa que se deixe apanhar por elas. Com um forte aperto e as garras espetadas profundamente no seu corpo, o fim chega rápido e misericordioso (se é que tal termo pode ser aplicado à natureza).

Açor (Accipiter gentilis)Açor (Accipiter gentilis) Seixal (20-06-2021)

 

Como qualquer eng. mecânico poderia confirmar, ter a forma adequada à função é uma das melhores maneiras de garantir a eficiência dos recursos, minimizando ao máximo o desperdício de energia. Não há realmente engenharia melhor do que a da velha mãe natureza.

25
Jun21

Os Fenótipos e a etologia - A importância do bico

A morfologia do bico das aves tende a reflectir o seu tipo de alimentação. Aves com bicos curtos e grossos alimentam-se essencialmente de sementes... se este for forte, afiado e curvado na ponta, pertencerá certamente a um predador que o utiliza para arrancar pedaços de carne das suas presas. Bicos mais finos e afunilados servem geralmente para comer insectos e/ou fruta. Algumas aves que se alimentam nos rios e lagos, como as garças, têm bicos longos e fortes, com os quais trespassam os incautos peixes que tiverem o azar de passar por perto.

Fuselo (Limosa lapponica) Praia do Torrão (08-09-2016) (40).JPGFuselo (Limosa lapponica) Almada (08-09-2016)

 

Estas belas aves apresentam uns enormes apêndices, ligeiramente recurvados para cima, adequados para capturar e ingerir invertebrados em zonas estuarinas. Chegam a parecer desajeitados mas, tal como pude observar "in loco", este bico não lhes causa qualquer atrapalhação, cumprindo a sua função a preceito.

Apesar de não me ter sido possível confirmar, o seu comportamento levou-me a crer que se estariam a alimentar de pulga-do-mar (Talitrus saltator).

Fuselo (Limosa lapponica) Praia do Torrão (08-09-2016) (35).JPGFuselo (Limosa lapponica) Almada (08-09-2016)

 

Grande ou pequeno, recto ou curvo, grosso ou fino, qualquer que seja o seu tamanho e formato... é inegável, na vida das aves, a importância do bico e de o saber utilizar da forma mais adequada.

08
Jun21

Eu ouvi um passarinho

Mais tradicional do Baixo Alentejo, o Cante Alentejano é uma das imagens de marca do nosso país e a 3ª nomeação portuguesa a ser reconhecida como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Fica um pequeno excerto de uma conhecida música:

 

"Eu ouvi um passarinho,
Às quatro da madrugada,
Cantando lindas cantigas,
À porta da sua amada.
 
Por ouvir cantar tão belo,
A sua amada chorou...
Às quatro da madrugada,
O passarinho cantou..."
 
 
Na foto está o passarinho em questão.

Rouxinol-comum (Luscinia megarhynchos) Cercal do Alentejo (22-01-2016) (7).JPGRouxinol-comum (Luscinia megarhynchosCercal do Alentejo (22-01-2016)

 

Ouvir o seu canto a ecoar no silêncio da madrugada, é qualquer coisa de mágico e arrepiante. A gravação abaixo foi conseguida não às 4 da madrugada, mas às 00:35... foi quase.

 

Eu

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