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bicho do mato

Aqui fala-se de natureza, aves, bichos em geral e do que mais me passar pela cabeça

bicho do mato

Aqui fala-se de natureza, aves, bichos em geral e do que mais me passar pela cabeça

09
Jan21

Almas emplumadas

Noite. Tempo de frio e breu, palco de malfeitorias e mistérios... reino de assombrações e horror. Como a humanidade sempre temeu aquilo que se esconde no escuro, não descansámos enquanto não encontrámos forma de o conquistar... criámos lâmpadas e candeeiros, munimo-nos de faróis e lanternas. Dentro de casa e até nas ruas, iluminámos a escuridão nocturna. Perdemos o medo, esquecemos os terrores...

Bem, quase todos... ainda hoje as criaturas que fazem a sua vida a coberto das trevas são mal vistas, mal compreendidas e injustificadamente temidas. Já aqui tive oportunidade de mostrar um pouco do mundo das borboletas nocturnas e de fazer referência aos morcegos (tema a que voltarei em breve), mas hoje falamos de aves.

Bufo-pequeno (Asio otus)Bufo-pequeno (Asio otus) Castro Verde (24-05-2020) / Vocalização: https://www.xeno-canto.org/552302

 

Tantas vezes associadas a bruxarias, ao azar ou a maus augúrios, as corujas devem ser dos animais sobre os quais mais mitos recaem. Por exempo, alguns povos africanos acreditam que estas aves trazem doenças às suas crianças, enquanto que no médio-oriente há quem acredite que estes bichos representam as almas dos que morreram e não foram vingados... diz-se mesmo que o seu avistamento prediz a morte de alguém. E até na Europa, principalmente até ao princípio do séc. 19, é possível encontrar esta associação aos espíritos, às bruxas e à morte. 

Coruja-do-nabal (Asio flammeus)Coruja-do-nabal (Asio flammeus) Vila Franca de Xira (28-12-2020) / Vocalização: https://www.xeno-canto.org/557487

 

Ainda assim, nem todos os mitos que rodeiam esta aves são macabros... na Grécia antiga, os mochos era vistos como um símbolo de justiça e sabedoria, sendo associados à deusa Athena e tendo a sua imagem sido adoptada por exércitos e até cunhada em moeda. Na Índia, no Japão e no Brasil, por exemplo, existem culturas que vêem estes animais como augúrios de boa sorte e fortuna. 

Mocho-galego (Athene noctua)Mocho-galego (Athene noctua) Ferreira do Alentejo (08-07-2020) / Vocalização: https://www.xeno-canto.org/584232

 

Também no nosso Portugal existe bastante folclore ligado a estes animais. Até na obra de um dos maiores nomes da nossa cultura podemos encontrar referências a uma destas belas aves:

“Pia, pia, pia
O mocho,
Que pertencia
A um coxo.
Zangou-se o coxo
Um dia,
E meteu o mocho
Na pia, pia, pia.”

Esta quadra do grande Fernando Pessoa, juntamente com outras estórias, pode ser encontrada num trabalho realizado pela associação ALDEIA, intitulado "As Rapinas Nocturnas na Cultura Popular Portuguesa - pequenas histórias".

Bufo-real (Bubo bubo)Bufo-real (Bubo bubo) Sintra (11-07-2020) / Vocalização: https://www.xeno-canto.org/603079

 

Mas o que têm estes animais de especial, para que sejam tema de tantas superstições? O que os torna um alvo tão apetecível para a capacidade inventiva da ignorância humana? Bem, o facto de serem aves essencialmente nocturnas será certamente um dos principais motivos... os seus olhos grandes, adaptados a ver no escuro, assombram-nos e o seu voo silencioso parece-nos fantasmagórico. Além disso, o facto de algumas espécies de mochos e corujas colonizarem edifícios abandonados, celeiros ou torres de igrejas excita a nossa imaginação supersticiosa. E o que dizer das suas vocalizações lúgubres, transportadas pelo frio escuro da noite? Quem não se arrepiaria ao escutá-las?

Mocho-pequeno-de-orelhas (Otus scops)Mocho-pequeno-de-orelhas (Otus scops) Penamacor (18-06-2017) / Vocalização: https://www.xeno-canto.org/548633

 

Mas então, afastando-nos um pouco das mitologias, porque é que estas aves apresentam estas características e comportamentos tão específicos?

Algumas espécies, como os mochos e as corujas-das-torres desenvolveram a capacidade de caçar em meios mais urbanizados. As actividades humanas atraem ratos e os ratos atraem estas aves. Portanto, celeiros e outras infraestruturas agrícolas são excelentes zonas de caça e, uma vez que se adaptaram à vida nestas zonas, onde arranjariam melhor protecção para descansar e até procriar do que em edificações abandonadas ou pouco visitadas? Dificilmente esta situação derivaria de ligação a espíritos ou bruxarias, mas antes de uma simples adaptação evolutiva... estes bichos aprenderam a usar-nos.

Quanto aos sons que emitem, as rapinas nocturnas não são (de longe) as únicas aves com vocalizações estranhas aos nossos ouvidos. Mas será que seriam assim tão assustadoras se escutadas durante o dia? O "miado" do mocho, ou o "uhh uhh" do bufo em pleno dia não têm o mesmo efeito em nós do que os mesmos sons ouvidos de noite... na verdade, é a nossa predisposição para o medo do escuro que nos causa os arrepios. As corujas vocalizam pelas mesmas razões que as outras aves. Não são almas a gritar no vazio... são avisos, chamamentos, marcação de território. Comunicação.

Mas e o voo silencioso? Nenhuma outra ave faz aquilo... só podem ser espíritos maléficos! Bem... não, nem por isso. A realidade é bastante mais interessante e complexa. A evolução levou a que estas aves desenvolvessem uma série de características e até estruturas específicas que ajudam a eliminar o som da turbulência do ar criada pelo bater das asas. Estes membros superiores são maiores em proporção com o peso do corpo, relativamente à maioria das outras aves. Isto permite-lhes um voo mais lento e menor número de batimentos de asa. Além do mais, as penas de voo (rémiges) possuem umas estruturas serrilhadas nos bordos que ajudam a quebrar a massa de ar que gera a turbulência. As diversas e menores correntes de ar assim criadas são depois amortecidas pelas penas que são mais aveludadas do que nos outros grupos de aves. Apesar de ainda haver muito para ser compreendido, existem já alguns estudos publicados com informação muito interessante sobre este assunto.

Quanto à razão que levou estes animais a desenvolverem este tipo de voo ao longo das eras, existem duas hipóteses principais em equação. A teoria da "caça furtiva" indicia que esta característica se deve à necessidade de aproximação sem que as presas se apercebam da sua presença. Já a teoria da "detecção de presas" indica que o voo silencioso serve essencialmente para ajudar as corujas a detectarem as suas presas através da audição. Estes animais têm uma audição extremamente apurada, que é auxiliada pelo seu característico disco facial, actuando quase como uma antena parabólica.

A investigadora da Universidade da Califórnia, Krista Le Piane, tem vindo a estudar estas duas hipóteses, na tentativa de compreender qual delas, se é que alguma, explica a evolução desta característica específica. Ao que parece, as espécies que caçam insectos ou peixes têm menos estruturas insonorizantes, por comparação com as que caçam mamíferos. O mesmo acontece em relação às espécies que caçam exclusivamente de noite, por comparação com as que também caçam de dia. A sua equipa de investigação tem percebido que estas evidências corroboram ambas as hipóteses, dependendo de cada espécie.

Tudo isto é bastante mais interessante do que as explicações esotéricas, diria eu...

Coruja-das-torres (Tyto alba)Coruja-das-torres (Tyto alba) VFX (28-12-2020) / Vocalização: https://www.xeno-canto.org/611761

 

Já os seus olhos, grandes em relação ao tamanho da ave, são outra fantástica adaptação. Embora o seu funcionamento geral seja semelhante aos nossos próprios olhos, existem algumas diferenças que ajudam a tornar possível a visão nocturna. Estes orgãos não são globos oculares, como os nossos, mas sim estruturas tubulares... daí que as corujas não consigam mover os olhos. Tal como nós, as corujas possuem dois tipos de receptores, que captam a luz que passa pelas pupilas. Os receptores cónicos permitem ver a cores, mas apenas funcionam bem quando há muita luz. Já os cilíndricos só permitem uma visão monocromática, mas são muito eficientes mesmo em baixas condições de luminosidade.

Ao contrário de nós, as corujas possuem uma muito maior quantidade de cilindros do que de cones, o que implica que não têm uma grande capacidade de distinguir cores, mas conseguem aproveitar bastante melhor as menores quantidades de luz. É essencialmente isto que, associado ao facto do seus enormes olhos captarem melhor a luz, lhes permite ver no "escuro". Estas aves possuem ainda uma outra estrutura, uma espécie de "espelho", chamada de tapetum lucidum. Quando a luz passa pelos receptores, incide neste espelho e é reflectida de volta para eles. Isto dá-lhes a uma segunda hipótese de aproveitarem cada pedacinho de luz disponível. 

Coruja-do-mato (Strix aluco)Coruja-do-mato (Strix aluco) Setúbal (26-12-2020) / Vocalização: https://www.xeno-canto.org/599710

 

Mas as corujas não são as únicas aves que podemos encontrar pela noite fora...

Os misteriosos Noitibós (ocorrem duas espécies no nosso país) são outro grupo de aves que, devido aos seus hábitos, tende a escapar ao conhecimento comum e, portanto, a dar origem a mitos. A aura de mistério é tão forte em volta destes bichos que foi até homenageada pelos cientistas quando atribuiram um nome à ordem à qual pertencem: Caprimulgiformes.

Caprimulgus, em latim, pode ser traduzido por ordenha-cabras. Isto é algo que nos parece estranho, mas não mais do que isso. Já na América um dos nomes pelos quais estas aves são conhecidas é "goatsuckers" ou, traduzindo... chupa-cabras. Terá ligação com o outro famoso mito? Não consegui averiguar.

A lenda por trás deste nome terá, ao que parece, origens anteriores aos tempos de Aristóteles. Estas aves seriam possivelmente atraídas pelos insectos que frequentavam os terreiros onde as cabras dormiam. Devido ao seu hábito de poisar em terreno limpo (provavelmente junto ao gado) e ao seu perfil baixo e longilíneo, de cabeça meio levantada, seria fácil ao homem antigo assumir que lhes estavam a sugar o leite. Mais, tendo abatido algum e constatado que possuem um bico minúsculo e uma enorme boca, que outra conclusão se poderia tirar que não a de que aquela boca seria própria para mamar nas tetas das cabras? Possivelmente nunca se pensou que serviria para ingerir insectos... isso seria parvo.

Deixo-vos um interessante artigo sobre o folclore acerca destes bichos.

Noitibó-de-nuca-vermelha (Caprimulgus ruficollis)Noitibó-de-nuca-vermelha (Caprimulgus ruficollis) Vila nova de Milfontes (18-08-2019) / Vocalização: https://www.xeno-canto.org/567036

 

Então e nos dias de hoje, em que poucos de nós possuem cabras, o que há a temer em relação a estas curiosas aves? Na realidade nada, mas... a escuridão silenciosa da noite não cessa de nos pregar partidas.

Raramente são vistas de dia, altura na qual estão a descansar, muito por culpa da sua plumagem críptica. E durante a noite? Bem... são mais vezes escutados do que vistos. As vocalizações destas aves são, aos nossos ouvidos, completamente alienígenas. Aquele som não pode vir de uma ave... é impossível! E aquele bater palmas a ecoar na noite, poderá vir de algo que não de uma qualquer alma penada? Poderá vir do voo de exibição de um noitibó, do hábito de bater com as asas uma na outra, fazendo o som de "bater palmas"? Nah, isso não faria sentido...

Quando são efectivamente vistos, encontramo-los poisados numa qualquer estrada de terra batida, ou vemos a sua forma rápida, esguia e escura a passar em voo, com os seus grandes olhos a brilhar perante os faróis do automóvel e uns pontos iluminados na cauda e nas asas. E se, ao mesmo tempo, os ouvirmos a vocalizar e até a bater palmas... Cruzes canhoto! Almas penadas! Emissários do Mafarrico! Vade retro!

Noitibó-cinzento (Caprimulgus europaeus)Noitibó-cinzento (Caprimulgus europaeus) Almada (16-07-2020) / Vocalização: https://www.xeno-canto.org/611749

 

A melhor forma de abandonarmos os nossos medos, por primitivos e irracionais que sejam, é através do conhecimento. Observando e estudando um pouco sobre o mundo que nos rodeia podemos compreender aquilo que nos assusta, que nos causa apreensão ou repulsa. Todas estas aves nocturnas têm pouco de obscurantismo. São na verdade animais fantásticos, possuidores de magníficas adaptações evolutivas e é, na verdade, um verdadeiro privilégio conseguir observá-los.

 

Nada na vida deve ser temido, somente compreendido. Agora é hora de compreender mais para temer menos.

Marie Curie

01
Jan21

2020 aos olhos de um naturalista

Há cerca de um ano atrás era reportado o primeiro caso de uma doença que viria a mudar as vidas de todos nós. Os meses seguintes foram um corrupio de estudos científicos, noticiários sensacionalistas, pânico social, açambarcamento de papel higiénico, teimosias negacionistas e jogos políticos. Veio o distanciamento social, foram introduzidas as máscaras e o álcool-gel, chegou o confinamento... a nossa sanidade mental e a nossa resistência à depressão foram testadas ao limite. Quando finalmente pudemos sair de casa, fomos trabalhar e visitar a família, fomos à praia e aos restaurantes, mas sempre limitados por restrições antes impensáveis. Nada de abraços e beijinhos, pois o distanciamento é para manter, higienizar as mãos N vezes ao dia e usar papeis para tocar nos objectos, pois o "bicho" anda aí e é invisível... e assim o "novo normal" instalou-se nas nossas vidas e nas nossas mentes. Hoje, as omnipresentes máscaras têm a dupla função de nos proteger e de disfarçar a profunda frustração que apenas os nossos olhos teimam em denunciar.

Poucos haveria entre nós que não estivessem ansiosos que o anno horribilis terminasse... afinal, todos sentimos que foram 12 meses perdidos em que nada ou quase nada pudemos fazer. Ou não será bem assim?

Bem, os profissionais de saúde e os cientistas tiveram, infelizmente, um ano cheio. A eles devemos sincera gratidão pelo que trabalharam e pelo que sacrificaram pelo bem de outrem. O comum "Zé", no entanto, ficou por casa... trabalhou quando possível, viu séries, fez pão caseiro, leu livros e falou com família e amigos pela net. Pouco mais lhe foi permitido fazer. Os famosos "passeios higiénicos" foram permitindo o arejamento das cabeças e foi durante o confinamento que se começou a notar uma curiosa tendência: o medo dos espaços fechados trouxe muito mais gente para a natureza.

Mas... e aqueles que já antes passavam os seus tempos livres na natureza? Bem, não posso falar pelos outros, mas eu aproveitei o máximo que pude.

https://www.inaturalist.org/

https://www.inaturalist.org/stats/2020/draposo79#sharing

Durante os meses de confinamento, acabei por passar muito tempo "em casa" com pouco para fazer, uma vez que as minhas funções profissionais não se adequam ao teletrabalho. Como as deslocações estavam proibidas, comecei a aproveitar os passeios higiénicos para explorar todo e qualquer espaço natural em redor de casa. Apesar da maior perturbação devido à presença de mais pessoas, acabei por descobrir uns recantos interessantíssimos, tal como descrevi aqui. Com o desconfinamento, voltei a poder fazer as minhas saídas mais longas e a explorar um pouco outras zonas do país.

Ainda que tenha sido obrigado a cancelar alguns projectos, como uma exploração ao Planalto do Barroso na primavera, 2020 acabou por ser um dos meus melhores anos a nível ornitológico... logrei observar 259 espécies de aves. Quanto à minha faceta naturalista mais genérica, tal como o gráfico acima indica, no total efectuei registos fotográficos de 865 espécies, entre animais, plantas e fungos. Esta forma de passar os tempos livres (chamem-lhe hobbie, passatempo, pancada, nerdice, ou o que quiserem) acabou, em grande medida, por me ajudar a suportar um ano terrivelmente difícil de digerir a tantos outros níveis.

Como corolário para tudo isto, tive o privilégio de passar penúltimo dia do ano numa incursão assaz proveitosa por terras alentejanas, recheada de fantásticas observações. Uma excelente maneira de terminar o ano...

Bufo-pequeno (Asio otus) Castro Verde (30-12-2020)Corvo (Corvus corax) Castro Verde (30-12-2020)
Cisne-mudo (Cygnus olor) Castro Verde (30-12-2020)Grifo (Gyps fulvus) Castro Verde (30-12-2020)
Bufo-pequeno (Asio otus) Castro Verde (30-12-2020)Águia-real (Aquila chrysaetos) Castro Verde (30-12-2020)
Milhafre-real (Milvus milvus) Castro Verde (30-12-2020)Abetarda (Otis tarda) Castro Verde (30-12-2020)
Bufo-pequeno (Asio otus) Castro Verde (30-12-2020)Sisão (Tetrax tetrax) Castro Verde (30-12-2020)
Águia-imperial-ibérica (Aquila adalberti) Castro Verde (30-12-2020)Cortiçol-de-barriga-preta (Pterocles orientalis) Castro Verde (30-12-2020)

 

Neste ano que agora entra, aventurem-se, explorem a natureza, usufruam dela, mas acima de tudo respeitem-na e protejam-na. 2020 deu-nos a prova de que, quando as coisas correm mal no nosso mundinho de cimento e vidro, é ela que nos acolhe...

Castro Verde (30-12-2020)

Bom 2021!

 

 

29
Nov20

Livros de bichos - Aves em papel

Da última vez que escrevi aqui sobre livros, foquei-me nos guias de campo, tendo apresentado aqueles que mais utilizo. Hoje quero mostrar algo diferente... ao invés de guias que ajudem a identificar os animais que vemos no campo, trago alguns livros onde podemos encontrar conhecimento acerca desses bichos. Mais uma vez, como o meu principal foco são as aves, é neste grupo que tenho feito um maior investimento em literatura.

 

All the birds of the world

All the Birds of the World, Josep del Hoyo (Editor) - Lynx 2020

Tal como o seu nome indica, este grande livro (expressão de duplo sentido) apresenta-nos pela primeira vez todas as aves do mundo num único tomo. As espécies aceites por qualquer uma das quatro maiores autoridades taxonómicas estão representadas por bonitas ilustrações, onde são mostradas as variações derivadas do dimorfismo sexual, bem como as várias formas e subespécies. São também mostrados os nomes comuns (em inglês) e científicos das aves, bem como os mapas de distribuição actualizados à data presente.

All the birds of the world

Cada espécie é acompanhada de um QR code através do qual podemos aceder à respectiva página na plataforma eBird, onde podemos encontrar mapas de registos, fotografias, vídeos, sonogramas e diversas outras informações relevantes.

eBird

eBird

Este livro pode ser adquirido na página da editora Lynx e está em promoção, custando de momento 65€.

 

Aves de Portugal - Ornitologia do território continental, Catry, P., Costa, H., Elias, G. & Matias, R. - Assírio & Alvim (2010)

Nas 941 páginas deste excelente livro, os quatro autores lograram compilar grande parte do conhecimento documental acerca da avifauna portuguesa, complementado pela sua extensiva experiência de campo.

Após uma breve caracterização geral de Portugal ao nível do relevo, hidrografia, clima e população, é-nos apresentada uma descrição e enquadramento histórico dos diversos biótopos que podemos encontrar pelo país. Nas páginas seguintes, naquele que - para mim - é talvez o capítulo mais valioso deste compêndio, podemos deliciar-nos com uma fantástica resenha histórica da ornitologia do território continental, ainda que apresentada pelos autores como "um modesto ensaio sobre tão fascinante tema", com o "propósito de homenagear todos os que contribuíram para o estado do conhecimento actual sobre as nossas aves". Depois, são-nos indicadas as aves cuja presença já foi registada no país, com uma completa descrição da sua distribuição, habitat e abundância, biologia da reprodução, movimentos e fenologia, alimentação e taxonomia, bem como algumas outras informações consideradas relevantes.

Única no que diz respeito a bibliografia portuguesa, esta é uma obra que eu recomendo vivamente a qualquer pessoa que tenha interesse por aves selvagens, mas está infelizmente esgotada há vários anos, não existindo previsão para uma reedição. Devido a uma intensa procura nos últimos anos, mesmo na internet não tem sido possível encontrar exemplares à venda. Quem sabe ainda exista um ou outro perdido na banca de algum alfarrabista.

 

New Generation Guide: Birds of Britain and Europe

New Generation Guide: Birds of Britain and Europe, Christopher Perrins - Collins (1987)

Adoro este livro. Embora o seu título pareça apresentá-lo como apenas mais um guia de campo, no meio de tantos outros que existem por aí, este pequeno volume almeja a muito mais.

New Generation Guide: Birds of Britain and Europe

Tal como Sir David Attenborough tão eloquentemente explana no seu prólogo, este "guia" pretende não apenas ajudar a identificar as aves que podemos encontrar no campo, como também (e talvez principalmente) responder às questões que possam surgir... Como é que espécies tão fisicamente diferenciadas são agrupadas numa certa família? Porque é que algumas aves apresentam dimorfismo sexual e outras não? Porque é que umas ocorrem aqui e outras ali? Estes, entre tantos outros comos, quandos e porquês, são respondidos nesta obra, prestando uma preciosa ajuda para que o observador consiga atingir uma compreensão mais profunda acerca daquilo que observa no campo.

Como guia de campo é fraco, relativamente a outros que já aqui apresentei, pois as suas ilustrações não serão as mais rigorosas nem as suas indicações as mais precisas, no que toca a evidenciar pormenores de identificação das espécies mais complicadas. Mas como fonte de informação é sublime, revelando de forma completa (ainda que resumidamente) muito daquilo que é a ecologia das aves que ocorrem na Europa. Já referi que adoro este livro?

Como é antigo, não consta das prateleiras das livrarias. Ainda assim, é possível encontrá-lo na Amazon ou no Ebay em muito bom estado e a preços muito acessíveis, a rondar os 10€. Pelo que sei, nunca teve uma edição em português.

 

A Birdwatcher's Guide to Portugal, the Azores & Madeira Archipelagos, Moore C., Elias G. & Costa H. - Birdwatchers' Guides, Prion (2014)

Pensado para o observador estrangeiro de visita a Portugal, por isso editado em língua inglesa, este livro revela os melhores locais para observar aves no país. 

Para cada zona de interesse é indicada a sua localização, uma breve descrição do seu enquadramento e topografia, algumas recomendações ao nível da estadia na região e um resumo das principais aves que ali ocorrem, bem como a estratégia recomendada para maximizar as hipóteses de as observar. Aqui são indicados os principais pontos de interesse, bem como a melhor forma de os abordar, incluindo alguns mapas auxiliares. É um livro bastante útil a qualquer um que se esteja a iniciar neste mundo das aves e/ou que pretenda conhecer um pouco mais do "país ornitológico".

Este exemplar foi-me oferecido por um dos autores, pelo que não sei se existe em livrarias ou alfarrabistas portugueses. No entanto pode ser encontrado na Amazon por preços a rondar os 30€.

 

Nomes Portugueses das Aves do Paleártico Ocidental

Nomes Portugueses das Aves do Paleártico Ocidental, Hélder Costa et al. - Assírio & Alvim (2000)

"Em Portugal, a primeira tentativa de estabelecer uma lista padrão de nomes vernáculos de aves data de 1962 (Sacarrão 1962-63). Pretendia-se com essa lista acabar com a confusão existente da nossa avifauna que, na altura, segundo vários autores estrangeiros, seria a mais caótica e obscura da Europa. Em 1979 essa lista viria a ser actualizada (Sacarrão & Soares 1979) mantendo-se até hoje como referência fundamental."

Este parágrafo consta do preâmbulo deste livro e enquadra a necessidade sentida pelos autores de, passados 20 anos sobre a publicação da lista de Sacarrão & Soares, rever a nomenclatura portuguesa das aves que ocorrem na nossa parte do mundo.

Nomes Portugueses das Aves do Paleártico Ocidental

Pouco consensual, a publicação desta lista e a sua adopção por parte da SPEA como "semi-oficial" veio mesmo causar alguns atritos e gerar alguma polarização no seio da comunidade ornitológica portuguesa. Pessoalmente, parece-me interessante, relevante e justa a tentativa dos autores de "privilegiar a utilização dos nomes vulgares existentes no espaço cultural lusófono", mantendo dessa forma uma ligação às regiões e às gentes do país real, algo que é muitas vezes olvidado por alguns autores de obras académicas.

Resultado de "uma vasta consulta de documentos e peritos e da oscultação de numerosas opiniões", neste livro são ressalvados os regionalismos e o conhecimento empírico que as populações possuem sobre as aves e a natureza. Embora eu não utilize alguns dos nomes que aqui são propostos, acho que este é uma obra com muito valor e que fazia falta na bibliografia ornitológica portuguesa.

Esgotado na maior parte dos locais, este livro pode ainda ser adquirido na Wook, por cerca de 10€.

13
Nov20

As aves e os seus habitats - Zonas intermarés: o lodo

Um habitat pode ser composto por um conjunto de diferentes biótopos, que não são mais do que áreas geográficas onde as condições ambientais são constantes ou cíclicas. Na verdade, grande parte dos habitats que existem no nosso país estão sujeitos a fenómenos periódicos que, de alguma forma, alteram as suas características.

Entre eles, as zonas intermarés serão, possivelmente, aqueles que apresentam a mais radical alteração de condições, num menor ciclo temporal. Margens ribeirinhas, praias, lagoas costeiras, sapais... consoante a geografia e geologia do terreno, as áreas deixadas a descoberto pela baixa-mar podem apresentar características muito diferentes. No entanto, há algo em comum em todos estes locais: o vai-e-vem regular das marés e o ritmo de vida que elas impõem às aves que ali se alimentam. Hoje vamos falar de um biótopo muito específico: as zonas de lodo.

Pisco-de-peito-azul (Luscinia svecica) Sado - Gâmbia (25-01-2020) (3).JPG

Pisco-de-peito-azul (Luscinia svecica) Herdade da Gâmbia, Setúbal (25-01-2020)

 

Quando a maré retrocede, revelando paulatinamente os lodos repletos de pedaços de conchas e algas, as aves começam a mostrar-se, abandonando os locais onde repousam durante a preia-mar. 

Fuselo (Limosa lapponica) Seixal (11-10-2020)

Milherango (Limosa limosa) Lisboa (29-01-2016)

 

Surgem vindas das salinas circundantes, dos pequenos mouchões dos sapais ou da vegetação marginal dos rios e começam a distribuir-se pelas margens crescentes onde se vão alimentar, acompanhando o refluxo das águas.

Perna-verde-comum (Tringa nebularia) Seixal (10-03-2019)Borrelho-grande-de-coleira (Charadrius hiaticula) Barreiro (05-01-2019)
Maçarico-galego (Numenius phaeopus) VN Milfontes (20-10-2018)Pilrito-pequeno (Calidris minuta) Parque Tejo, Lisboa (04-02-2018)

 

Várias espécies de límicolas percorrem os lodos húmidos em busca dos pequenos invertebrados dos quais se alimentam, chegando até a dar origem a bandos mistos com centenas ou mesmo milhares de indivíduos. Garças prospectam as águas rasas em busca de peixes incautos, flamingos filtram o lodo dentro de água, capturando os pequenos crustáceos que lhes dão a sua famosa cor, colhereiros "varrem" em busca de invertebrados e pequenos peixes. Podemos até encontrar passeriformes, como o pisco-de-peito-azul, nas zonas mais próximas da vegetação.

Colhereiro (Platalea leucorodia) Parque Tejo, Lisboa (04-02-2018)Flamingo-rosado (Phoenicopterus roseus) Seixal (03-04-2017)
Garça-branca-pequena (Egretta garzetta) Montijo (18-03-2017)Garça-real (Ardea cinerea) Parque Tejo, Lisboa (12-12-2015)

 

A questão da competição pelo alimento entre estas aves foi resolvida ao longo das eras, pela selecção natural. A diversidade de características físicas e comportamentais permite que coexistam num mesmo espaço.

Pilrito-de-bico-comprido (Calidris ferruginea) Seixal (01-11-2020)Íbis-preta (Plegadis falcinellus) Seixal (28-09-2020)
Frango-d'água (Rallus aquaticus) Sesimbra (13-06-2018)Maçarico-das-rochas (Actitis hypoleucos) Seixal (07-01-2018)
Tarambola-cinzenta (Pluvialis squatarola) Amora (22-10-2017)Perna-vermelha-bastardo (Tringa erythropus) Vila Franca de Xira (27-08-2017)
Pilrito-comum (Calidris alpina) Península da Carrasqueira (01-05-2017)Perna-vermelha-comum (Tringa totanus) Seixal (05-02-2017)

 

Algumas possuem bicos longos, para procurar alimento que esteja enterrado mais fundo, outras têm bicos curtos para capturar pequenos animais que existem mais à superfície. Há as que têm patas mais longas e bicos como lanças afiadas, para poderem trespassar os peixes nas águas rasas e há os que desenvolveram bicos poderosos o suficiente para quebrar as cascas dos bivalves. Cada espécie está perfeitamente adaptada à forma como vive e se alimenta.

Guincho-comum (Chroicocephalus ridibundus) Seixal (10-03-2019)Narceja-comum (Gallinago gallinago) Sesimbra (01-11-2016)
Maçarico-real (Numenius arquata) Amora (15-08-2016)Pernilongo (Himantopus himantopus) Seixal (20-03-2016)
Maçarico-bique-bique (Tringa ochropus) Vila Franca de Xira (28-02-2016)Rola-do-mar (Arenaria interpres) Amora (28-01-2016)

 

Embora as espécies límicolas estejam geralmente em larga maioria, podemos também ali encontrar algumas gaivotas, rapinas, garças, patos e gansos. 

Ganso-bravo (Anser anser) Vila Franca de Xira (05-11-2017)Marrequinha (Anas crecca) Vila Franca de Xira (10-04-2016)

 

E de vez em quando, muito de vez em quando, surge uma daquelas aves especiais que todos os observadores gostam de encontrar. Uma raridade vinda de paragens longínquas que encontrou abrigo num qualquer lodaçal deste recanto à beira-mar plantado. Como aquela garça americana que descobriu guarida numa vala algures num sapal algarvio, ou o pequeno maçarico que escolheu o rio Sado para passar o inverno, por exemplo. 

Goraz-coroado (Nyctanassa violacea) Faro (04-06-2020)Maçarico-sovela (Xenus cinereus) Setúbal (09-11-2019)

 

Uma multiplicidade de formas, cores, sons e comportamentos... nestas zonas de aspecto escuro e monótono, mas ricas em alimento, a diversidade biológica é rainha. No entanto, passadas cerca de 6 horas, a maré virou e iniciou o seu avanço inexorável em direcção às margens, empurrando à sua frente esta miríade de aves que novamente ganharão os céus e se dirigirão aos seus locais de repouso. Mais um ciclo que se completa, numa dança interminável, ao ritmo das marés.

25
Out20

Mariposas - os coloridos mistérios nocturnos

A noite sempre foi palco preferencial para lendas e histórias assustadoras. As criaturas que nela vagueiam ainda hoje permanecem, aos nossos olhos, envoltas numa névoa de temor e mistério. Tememos irracionalmente o piar do mocho ou o silvar da coruja-das-torres, sobressaltamo-nos instintivamente com o repentino e silencioso bater de asas do morcego, enojamo-nos com a rastejante salamandra...

Até as borboletas, cujas versões diurnas nos deliciam com as suas cores e delicadeza, ganham uma conotação negativa quando vivem a coberto das trevas. "Traças", chamam-lhes alguns, com um esgar de desprezo.

Mariposa (Lythria sanguinaria) Lagoa de Albufeira - Cabeço da Flauta (19-05-2020) (5).JPG

Mariposa (Lythria sanguinaria) Lagoa de Albufeira, Sesimbra (19-05-2020)

 

Na verdade, o nome mais correcto a atribuir a estas borboletas noctívagas é o de "mariposas". A designação de "traças" deriva das espécies cujas larvas se alimentam do tecido das nossas roupas... mas, em Portugal, são pouquíssimas as espécies em que isto acontece (talvez meia dúzia), ao passo que as restantes borboletas nocturnas compreendem cerca de 2600 espécies. Ainda assim, provavelmente a sua má reputação deriva do facto de serem bichos pouco coloridos e de aspecto mais soturno, não é?

Mariposa (Acontia lucida) Seixal (03-06-2020)Mariposa (Cleta ramosaria) Cabo Espichel, Sesimbra (19-05-2020)
Sangrenta-da-tasna (Tyria jacobaeae) Cercal do Alentejo (17-05-2020)Mariposa (Opisthograptis luteolata) Oliveira de Azeméis (13-09-2019)
Mariposa-estriada (Spiris striata) Espaço Interpretativo da Lagoa Pequena, Sesimbra (21-08-2019)Mariposa-pluma (Crombrugghia laetus) Mata dos Medos, Almada (13-07-2019)

 

Não, nem por isso. As mariposas são tão ou mais coloridas do que as borboletas diurnas e são muito mais diversas no seu formato. De facto, entre cores pastel e outras mais garridas, estes animais surpreendem para fantástica variedade de fenótipos que apresentam.

Mariposa (Watsonalla uncinula) Pancas, Benavente (28-07-2020)Mariposa (Pterostoma palpina) Pancas, Benavente (28-07-2020)
Mariposa (Zygaena fausta) Serra da Arrábida (28-06-2020)Mariposa (Chrysocrambus dentuellus) Cabo Espichel (19-05-2020)
Mariposa (Hypena obsitalis) Cercal do Alentejo (17-05-2020)Mariposa (Camptogramma bilineata) Fernão Ferro, Seixal (15-05-2020)
Mariposa (Udea ferrugalis) Seixal (15-05-2020)Mariposa (Dyspessa ulula) Cabo Espichel (12-05-2020)

 

Talvez como meio de camuflagem, talvez com outro propósito evolucionário que escapa aos meus conhecimentos, a verdade é que esta multiplicidade de formas deu origem a animais lindíssimos que merecem ser observados com atenção.

Mariposa (Euchromius sp.) Pancas, Benavente (28-07-2020)Mariposa (Alucita grammodactyla) Lagoa de Albufeira (19-05-2020)
Mariposa (Rhodometra sacraria) Seixal (24-04-2020)Mariposa (Coscinia chrysocephala) Seixal (23-04-2020)
Mariposa (Eupithecia centaureata) Seixal (11-04-2020)Mariposa (Menophra abruptaria) Oliveira de Azeméis (14-09-2019)
Mariposa (Gymnoscelis rufifasciata) Oliveira de Azeméis (14-09-2019)Mariposa (Scopula imitaria) Oliveira de Azeméis (13-09-2019)
Mariposa (Cyclophora linearia) Oliveira de Azeméis (13-09-2019)Mariposa (Dysgonia algira) Oliveira de Azeméis (13-09-2019)
Processionária-do-pinheiro (Thaumetopoea pityocampa) Seixal (01-09-2019)Mariposa (Itame vincularia) Quinta do Texugo, Almada (25-08-2019)
Mariposa (Mormo maura) Cercal do Alentejo (11-08-2019)Mariposa (Timandra comae) Cercal do Alentejo (11-08-2019)
Mariposa-Cigana (Lymantria dispar) Mata da Machada, Barreiro (13-07-2019)Mariposa (Zygaena trifolii) Zambujeira do Mar, Odemira (01-06-2019)
Mariposa (Zygaena lavandulae) V.N. Milfontes (19-04-2019)Mariposa (Macrothylacia digramma) Espaço Interpretativo da Lagoa Pequena, Sesimbra (13-04-2019)

 

Embora algumas sejam tóxicas e perigosas para homem e animais, até as suas lagartas são geralmente vistosas e extravagantes.

Mariposa-dos-sargaços (Psilogaster loti) Peninha, Sintra (29-09-2020)Mariposa (Ethmia bipunctella) Serra do Louro, Palmela (30-06-2020)
Processionária-do-pinheiro (Thaumetopoea pityocampa) Quinta do Texugo (16-02-2020)Processionária-do-pinheiro (Thaumetopoea pityocampa) Herdade da Aroeira, Almada (02-02-2020)
 

Pela sua ajuda no controlo de algumas plantas, pela sua contribuição para as cadeias tróficas, pelo seu importante lugar nos ecossistemas, pela sua beleza, estes pequenos bichos nocturnos merecem ser protegidos, acarinhados e apreciados. Afinal de contas, a noite não esconde apenas mistérios sombrios...

11
Out20

Vamos contar periquitos?

CENSO NACIONAL DE PERIQUITO-DE-COLAR (Psittacula krameri)

 

"O periquito-de-colar ou periquito-rabijunco (Psittacula krameri) é uma espécie originária dos continentes asiático e africano, mas que ocorre atualmente em inúmeras cidades do continente europeu. Estas populações, com origem provável em fugas de cativeiro, encontraram alimento, refúgio e locais adequados para nidificar nas áreas verdes dos grandes centros urbanos. Esta espécie exótica possui algumas das características típicas das espécies invasoras (boa capacidade de adaptação, reprodução rápida, agressividade) e nalguns locais onde já está estabelecida pode mesmo afetar as espécies nativas, ao competir por alimento ou locais de nidificação. É uma espécie gregária e muito social, que nidifica em buracos de árvores e que usa de forma regular dormitórios comunais, que podem reunir desde algumas aves até muitas centenas de indivíduos. De forma relativamente previsível, as aves tendem a retornar ao seu dormitório ao final do dia. Assim, a contagem nos dormitórios é o método habitual de censo da espécie."

Periquito-de-colar (Psittacula krameri) Quinta das Conchas (01-05-2018) (8).JPG

Periquito-de-colar (Psittacula krameri) Quinta das Conchas - Lisboa (01-05-2018)

 

Como o conhecimento é o primeiro passo para a conservação, a SPEA vai realizar um censo destas aves, para que possamos ter a real noção do estado das suas populações e do risco a que estas possam estar a submeter as nossas espécies autóctones. 

Numa 1ª fase vamos tentar identificar os dormitórios destas aves (Out/Nov/Dez 2020) e na 2ª fase vamos proceder à contagem do número de indivíduos (Nov 2021). Todos aqueles que tenham interesse em colaborar são bem-vindos, bastando para isso que saibam identificar a espécie.

Periquito-de-colar (Psittacula krameri) Parque Bensaúde (27-01-2019) (2).JPG

Periquito-de-colar (Psittacula krameri) Parque Bensaúde - Lisboa (27-01-2019)

 

Vou ser coordenador regional voluntário para os concelhos de Almada e Seixal, portanto, caso queiram participar (em qualquer ponto do país) e tenham dúvidas de como o fazer, estejam à vontade para me questionar através da caixa de comentários ou por e-mail. Terei todo o gosto em esclarecer ou encaminhar as vossas questões.

Vamos contar periquitos?

04
Set20

Falsa liberdade

Há uns tempos, fui desafiado pela autora do blogue Liberdade aos 42 para escrever umas linhas sobre a liberdade. Isto foi o que "saiu"...

Águia-cobreira (Circaetus gallicus) IBA São Cristovão e Cabrela (25-04-2016) (8).JPG

Não creio, no sentido filosófico do termo, na liberdade do homem. Todos agem não apenas sob um constrangimento exterior mas também de acordo com uma necessidade interior.

Einstein

 

A expressão popular “livre como um pássaro” dá a entender que as aves são animais verdadeiramente livres, pois podem voar e estão libertas de convenções sociais limitadoras, como limites administrativos ou políticos. No entanto a sua liberdade não é absoluta… tal como quaisquer outros seres vivos, as aves estão sujeitas a imperativos biológicos e evolutivos. As suas vidas decorrem guiadas por condicionalismos como a necessidade de procriar, de migrar ou de proteger um território.

Já a humanidade tem tentado “evoluir” de forma a superar as suas necessidades primárias enquanto seres biológicos. Conseguimo-lo parcialmente, abandonando os nossos instintos, substituindo-os por preceitos sociais e morais, criando leis, regras e tabus. Libertámo-nos da nossa necessidade de migrar, aprendendo a moldar o ambiente aos nossos desígnios e criámos figuras de “autoridade”, como a polícia e os tribunais, para que cada um de nós não sinta a necessidade de defender o seu próprio território. A tudo isto ainda somámos uma nova dimensão: os anseios da “alma”… uma amarra muito pessoal, que condiciona de forma dramática o sentido de felicidade de cada um de nós.

 A nossa evolução enquanto espécie pode ter-nos granjeado um lugar semi-divino na ordem das coisas, mas levou-nos a trocar uns poucos grilhões biológicos por uma imensidão de prisões morais, legais, emocionais e filosóficas. Teremos realmente ganho algo com isso? 

 

Liberdade? Não… tal como o Albert, não acredito na liberdade do homem.

10
Ago20

Fazer ciência a brincar

Fazer observação de natureza implica passar muito tempo no campo. A sós ou acompanhados, aqueles que são apaixonados por esta actividade acabam por ter o privilégio de presenciar cenas de vida selvagem que a maioria das pessoas "comuns" apenas vê nos documentários na televisão.

Entre estes privilegiados, uns têm uma perspectiva artística sobre aquilo que observam na natureza, alguns enveredam por um caminho filosófico ou espiritual, enquanto outros seguem uma visão mais científica, alguns têm até uma aproximação brincalhona e há também aqueles que misturam um pouco de tudo isto... o que importa na realidade é que cada um retire as ilacções, os conhecimentos e a satisfação que mais se adequa à sua forma de ver a natureza.

Concretizando a sua paixão na tentativa de conseguir a foto mais perfeita, os "fotógrafos de natureza" dividem a sua atenção entre a compreensão da arte fotográfica (a luz, os enquadramentos, a exposição) e o conhecimento sobre os seus "motivos". Com o advento da fotografia digital, esta actividade sofreu um autêntico boom e hoje proliferam pela Internet bonitos retratos de bichos...  mas aquele momento especial ou aquele comportamento inaudito registados com excelente qualidade de imagem e real dimensão artística são ainda prémios ao alcance de muito poucos. Estes parcos verdadeiros fotógrafos de natureza são de facto uma classe à parte. Seja como for, dificilmente veremos qualquer uma destas pessoas no campo sem uma câmara na mão... a imagem é a sua vida.

Mais preocupados com o conhecimento científico sobre o mundo natural, os chamados "observadores" concentram as suas energias em compreender aquilo que observam. Que espécies de aves há em determinado local? Quantos indivíduos existem? Quando e porque estão ali presentes? Como se comportam e qual a razão ou significado dos seus comportamentos? Como interagem com o meio? O seu equipamento essencial é materializado num par de binóculos e num bloco de notas (hoje muitas vezes substituído pelo smartphone), mas é muito comum vê-los carregando às costas um telescópio e também... uma câmara fotográfica. Embora até estas pessoas dêem importância à recolha de imagens, o seu foco não é esse e é comum que os resultados sejam sofríveis, apenas meros registos da presença da espécie fotografada.

Confesso que pertenço a este último grupo. Geralmente sozinho, algumas vezes acompanhado por um restrito grupo de "correligionários", ando pelos matos a identificar, contar e registar aves e outros seres vivos. Gosto de obter conhecimento sobre os bichos que observo, seja ele empírico, através da observação directa ou mais académico, utilizando livros e guias.

O meu equipamento fotográfico é fraco, o meu conhecimento de fotografia é limitado e a minha sensibilidade artística é quase nula. Como tal, as minhas fotos são sofríveis e os meus vídeos são demasiado amadores. Ainda assim, vou tentando usá-l@s para transmitir um pouco de conhecimento e, porque não, causar uns sorrisos. 

Ciência cidadã, é o péssimo nome que dão aos dados que vão sendo recolhidos por pessoas como eu. Ainda assim é ciência e, como tal, deve ser levada a sério, não é? Beeeeem... sim, a nossa actividade contribui um pouquinho para a ciência, mas isso não implica que não estejamos ali para nos divertirmos.  

Como em tantas outras actividades, é importante não nos levarmos demasiado a sério. Um olhar crítico e bem humorado é essencial para que um hobbie não passe a ter o peso de um trabalho. Afinal, a vida deve ser levada com leveza e, para nerds como eu, nada é mais divertido do que fazer ciência... a brincar. 

(PS: vejam os vídeos com som e em 1080p HD, ficam menos maus assim)

 

07
Ago20

Artigo: Todo o equipamento que necessita para observar aves na cidade

Imagem retirada do filme "The Big Year"

 

Hoje, deparei-me com este artigo. Sob o título "Todo o equipamento que necessita para observar aves na cidade", o autor fala de como esta crise sanitária trouxe uma - em certos casos radical - mudança de hábitos e de como, após uma saída de campo com um grupo organizado, se apercebeu de que a observação de aves é uma alternativa às nossas antigas rotinas. E, importante para não "assustar" os mais urbanos, esta actividade de crescente popularidade pode ser até ser levada a cabo na cidade. Como este é um hobbie que beneficia com algum equipamento específico, eles dão umas dicas sobre esse assunto. Achei ambos os artigos interessantes e recomendo a sua leitura.

Já anteriormente me referi à possibilidade de observar aves na cidade, aqui e aqui... mas, embora até  tenha também falado um pouco sobre guias de campo, nunca fiz grandes referências ao restante material necessário.

 

Seria interessante que escrevesse umas linhas sobre equipamento recomendado, eventualmente com dicas específicas sobre marcas, modelos e preços, ou o artigo da Hypebeast é suficiente?

Eu

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