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bicho do mato

Aqui fala-se de natureza, aves, bichos em geral e do que mais me passar pela cabeça

bicho do mato

Aqui fala-se de natureza, aves, bichos em geral e do que mais me passar pela cabeça

24
Fev19

A vida nas pedras

Pedras, rochas e Calhaus. A mera menção destas palavras transporta-nos mentalmente para ambientes áridos e estéreis onde a sobrevivência é improvável... Nada mais falso. Os diversos habitats rochosos que podem ser encontrados no nosso país estão repletos de vida e cor.

 

Nos esporões pedregosos das praias da frente atlântica de Almada, podemos encontrar várias espécies de aves, entre elas a rola-do-mar. Estas belas aves percorrem as pedras deixadas a descoberto pela baixa-mar em busca de invertebrados e pequenos caranguejos.  

 

Rola-do-mar (Arenaria interpres)

- Rola-do-mar (Arenaria interpres)

- Cova do Vapor - Almada (25-11-2016)

 

Aves, mamíferos, répteis, insectos, plantas... alguns utilizam as pedras como casa, outros como território de caça, zona de repouso ou meio de protecção. Seja como for, a vida adapta-se a todos os ambientes e encontra forma de prosperar. Até um calhau nu e molhado pode ser um precioso aliado para algum réptil em processo de termorregulação (os répteis são ectotérmicos, ou seja, necessitam de uma fonte externa de calor para regularem a sua temperatura corporal).

 

Embora os seus números aparentem estar a diminuir em favor da proliferação das exóticas tartarugas-da-florida, ainda vamos podendo encontrar, pelos nosso cursos de água, alguns cágados-mediterrânicos a tomar plácidos banhos de sol em cima de alguma pedra que se projecte um pouco fora do elemento líquido.

 

Cágado-mediterrânico (Mauremys leprosa)

- Cágado-mediterrânico (Mauremys leprosa)

- ZPE Castro Verde (11-06-2016)

 

Alguns animais especializam-se nestes habitats, onde passam toda a sua vida, chegando a um ponto em que isso os define e lhes confere identidade.

 

Este pequeníssimo passeriforme ocorre em escarpas e grandes paredes rochosas, tornando bastante difícil a sua localização. É nestas fragas que se alimenta, repousa e procria, o que lhe granjeou o nome de trepadeira-dos-muros ou trepa-fragas.

 

Trepadeira-dos-muros (Tichodroma muraria) Cabo Sardão (31-03-2018) (42b).JPG

- Trepa-fragas ou Trepadeira-dos-muros (Tichodroma muraria)

- Cabo Sardão - Odemira (31-03-2018)

 

E, se alguns bichos dominam por completo estes ambientes, calcorreando cada centímetro de pedra, investigando cada irregularidade, explorando cada anfractuosidade, outros há que apenas os conhecem superficialmente, utilizando estas estruturas como mero auxiliar para os seus afazeres do dia-a-dia.

 

Em cima de uma rocha saliente num dos muitos ribeiros de águas frias e límpidas que ainda hidratam o norte do país, encontramos vigilante um ser delicado, de cor iridescente. No centro do seu território, o macho de donzelinha aguarda a passagem de uma fêmea enquanto defende ameaçadoramente as suas fronteiras dos seus potenciais rivais. Em cima daquelas pedras desenrola-se o terrível - ainda que belo - jogo da vida.

 

Donzelinha (Calopteryx virgo)

- Donzelinha (Calopteryx virgo)

- Rio Caima - Vale de Cambra (08-09-2018)

 

Alguns animais há que, sem serem fiéis a estes biótopos, usufruem deles quando as circunstâncias assim o ditam.

 

Os pilritos-das-praias são mais conhecidos por serem observados a correr freneticamente pela areia, junto à linha de espuma do mar. O seu vai e vem quase pendular reflecte a cadência das ondas e marca o ritmo segundo o qual estas pequenas aves procuram na areia molhada os minúsculos invertebrados dos quais se alimentam. No entanto, na maré cheia podemos vê-los a repousar em grupo nos rochedos fora do alcance das águas. Da mesma forma, não é incomum vê-los a procurar alimento entre mesmas rochas na maré vazante. Na vida há que saber aproveitar as oportunidades e estes pequenos não deixam os seus créditos por mãos alheias... 

 

Pilrito-das-praias (Calidris alba)

- Pilrito-das-praias (Calidris alba)

- Cova do Vapor - Almada (28-01-2016)

 

[EN]

Life on the rocks

 

Stones, rocks and pebbles. The mere mention of these words mentally transports us to arid and barren environments where survival is unlikely... Well, thats not true at all. The various rocky habitats that can be found in Portugal are full of life and color.

 

In the stony spurs of the beaches of the Atlantic front of Almada, we can find several species of birds, among them the Ruddy Turnstone. These beautiful birds scour the rocks uncovered by the low tide in search of invertebrates and small crabs.

Picture 1

- Ruddy Turnstone (Arenaria interpres)

- Almada - Portugal (25-11-2016)

 

Birds, mammals, reptiles, insects, plants... some use rocks as housing, others as hunting territory, resting area or for protection. In any case, life adapts to all environments and finds a way to prosper. Even a bare and wet stone can be a precious ally to some reptile in thermoregulation process (reptiles are ectothermic as they require an external source of heat to regulate their body temperature).

 

Although their numbers seem to be diminishing in favor of the proliferation of exotic florida turtles, we can still find, through portuguese waterways, some mediterranean turtles placidly sunbathing on some stone.

Picture 2

- Mediterranean Turtle (Mauremys leprosa)

- Castro Verde - Portugal (11-06-2016)

 

Some animals specialize in these habitats, where they spend their entire lives, reaching the point where it defines them and provides them identity.

 

This small passeriform occurs on cliffs and large rocky walls, quite difficulting finding it. It is in these cliffs that it feeds, rests and breed, what earned him the name of Wallcreeper.

Picture 3

- Wallcreeper (Tichodroma muraria)

- Odemira - Portugal (31-03-2018)

 

And if some animals completely master these environments, knowing every inch of stone, investigating each irregularity, exploring each anfractuosity, others there are that just use these structures as mere auxiliaries to their day-to-day tasks.

 

On top of a protruding rock in one of the many cold and clear water brooks that still moisten the north of the country, we find a delicate being of iridescent color. In the center of its territory, the male demoiselle waits for a female to pass while threateningly defends its borders against its potential rivals. On top of these stones the terrible - though beautiful - game of life unfolded.

Picture 4

- Beautiful Demoiselle  (Calopteryx virgo)

- Vale de Cambra - Portugal (08-09-2018)


Some animals there are that, without being faithful to these biotopes, enjoy them when circumstances so dictates.

 

Sandpipers are best known for being seen running at the sand, along the sea foam line. Its almost pendular back and forth reflects the cadence of the waves and marks the rhythm by which these little birds seek out the tiny invertebrates from which they feed on the wet sand. However, at full tide we can see them resting in groups on the rocks, above the shore line. Likewise, it is not uncommon to see them searching for food among the same rocks in the ebb tide. In life you have to know how to take advantage of the opportunities and these little ones do not fall short...

Picture 5

- Sanderling (Calidris alba)

- Almada - Portugal (28-01-2016)

20
Jun18

Cigarras - Uma vida a cantar

"A Cigarra e a Formiga" é umas das mais conhecidas fábulas de La Fontaine - embora na verdade a sua autoria seja atribuída ao escritor grego Esopo (620 a.C. - 564 a.C.) - e fala-nos da importância de, em época de abundância, continuarmos a trabalhar e a poupar os nossos recursos para termos como subsistir em tempos de dificuldades.

 

No conto, a cigarra passa o verão a cantar e a comer folhas verdes enquanto a formiga apenas trabalha e armazena comida... chegado o inverno, a cigarra passa mal e vê-se obrigada a recorrer à formiga para sobreviver.

 

Cigarra/Cicada (Cicadidae)

- Cigarra (família Cicadidae

- Parque Tejo - Lisboa (23-08-2016)

 

Nas nossas matas ou nos parques e jardins das nossas cidades, naquelas tardes tórridas de verão em que nenhuma brisa se sente e nenhum outro som se ouve, o estridente "canto" dos machos destes insectos eleva-se no ar - pode rondar os 100 decibéis e é gerado pela vibração de uma membrana no seu primeiro segmento abdominal - na tentativa de atrair uma fêmea para acasalar.

 

Aquele som vibrante e constante - até eventualmente irritante - leva-nos a pensar: "afinal a fábula tem uma razão de ser". Mas onde estão os bichos? O som que ouvimos parece não ter uma origem definida: olhamos, procuramos e... nada. Pois, estes insectos são extremamente crípticos, sendo bastante difícil localizá-los. E quando finalmente conseguimos ver um deles, supresa das surpresas! "Mas não deviam ser parecidos a gafanhotos?"

 

De facto não o são, o aspecto das cigarras mais facilmente faz lembrar uma enorme mosca, com os seus grandes olhos redondos e as suas asas transparentes. Sim, os ilustradores das histórias andaram a "enganar-nos" durante todo este tempo... 

 

Cigarra (Cicadidae)

- Cigarra (família Cicadidae

- Parque da Paz - Almada (10-07-2016)

 

Pelo menos os contos acertaram numa coisa: as cigarras passam o verão a cantar. E no resto do ano? Serão hóspedes das formigas tal como La Fontaine sugeriu? De todo.

 

A cigarra fêmea é atraida pela cantoria de uma macho, é fecundada, põe os seus ovos e morre. Depois da eclosão, as ninfas saídas desses ovos - estes artrópodes sofrem uma metamorfose incompleta (não passam pela fase de pupa) - caem ao chão onde se enterram e onde sobrevivem de 1 a 17 anos - consoante a espécie - alimentando-se da seiva retirada das raizes das plantas.

 

Chegado o pico do verão, emergem do subsolo e passam por uma transformação para o estágio adulto (ecdise). Durante umas semanas alimentam-se da seiva obtida pelos caules e folhas e os machos cantam sob o sol tórrido até que o ciclo se complete uma vez mais.

 

Elas de facto passam toda a sua vida adulta a cantar.

 

[EN]

Cicadas - A life singing

 

In our woods or in the parks and gardens of our cities, on those scorching summer afternoons when no breeze is felt and no other sound is heard, the loud "singing" of these male insects rises in the air - the sound can be around 100 decibels and is generated by the vibration of a membrane in its first abdominal segment - in an attempt to attract a female to mate.

 

That screechy, constant sound drives us crazy . " But where are the bugs?" The sound does not seem to have a definite origin: we look, we search and... nothing. These insects are extremely cryptic, making quite difficult to locate them. And when we finally got to see one of them, surprise surprise! "Should not they look like locusts?" (In the original french, La Fontaines "The grasshopper and the Ant" is "The cicada and the ant". So thanks to the ilustrators, basically everyone thinks a cicada looks like a grasshopper)

 

In fact they do not. The aspect of the cicadas most easily resembles a huge fly, with their large round eyes and their transparent wings. Yes, storytellers have been "cheating" us all this time... At least the tales hit one thing: cicadas spend the summer singing. And the rest of the year? Will they be guests of the ants as La Fontaine suggested? Not at all. 

 

The female cicada is attracted by the singing of a male, is fertilized, lays its eggs and dies. After hatching, the nymphs coming out of these eggs - these arthropods undergo an incomplete metamorphosis (they do not pass through the pupa stage) - fall to the ground where they are buried and where they survive from 1 to 17 years - depending on the species - feeding on sap from the roots of plants.

 

When the peak of summer arrives, they emerge from underground and go through a transformation to the adult stage (ecdysis). For a few weeks they feed on the sap taken from the stalks and leaves and the males sing in the blazing sun until the cycle is once more completed.

 

They actually spend their entire adult life singing

 

Pictures:

- Cicada (family Cicadidae)

- Lisbon - Portugal (08-23-2016)

 

 - Cicada (family Cicadidae)

- Almada - Portugal (07-10-2016)

23
Out17

A frágil força da natureza

Florestas, estepes, montanhas, rios, desertos, lagos, dunas, oceanos... diversos habitats, cada qual com as suas especificidades e a sua rede de interacções. Ditam as leis do senso comum que nas regiões mais áridas sobrevivam apenas as espécies resistentes e fortes, mas será realmente assim?
 
Nas brutais pressões das fossas abissais sobrevivem peixes de formas tão delicadas que o seu corpo é transparente, nas escaldantes areias dos desertos podemos encontrar pequenos e frágeis lagartos, nas inóspitas montanhas chinesas ainda resiste uma cada vez menor população de Pikas - um pequeno e "fofinho" mamífero aparentado com os coelhos. Estes, entre tantos outros exemplos, são a demonstração cabal de que na natureza a robustez física não é determinante para a sobrevivência, por muito agreste que seja o habitat. A rudeza e a delicadeza coexistem e muitas vezes complementam-se.
 
Dito isto, devo confessar que a última coisa que eu esperava encontrar no topo de uma serra rochosa e agreste, era uma frágil borboleta...
 
- Borboleta-de-pintinhas (Glaucopsyche melanops)
- Serra da Gardunha (15-06-2017)
 

Borboleta-de-pintinhas (Glaucopsyche melanops)

 

[EN]

The fragile strenght of Nature

 

Forests, steppes, mountains, rivers, deserts, lakes, dunes, oceans... diverse habitats, each with its specific characteristics and its interactions network. The laws of common sense dictate that only the strong and resilient species survive in the more arid regions, but will this really be so?

 

In the brutal pressures of the ocean trenches survive fish of such delicate forms that their bodies are transparent, in the scorching sands of the deserts we can find small and fragile lizards, in the inhospitable Chinese mountains still resists a declining population of Pikas - a small and "cute" rabbit related mammal. These, among many other examples, are the demonstration that in nature physical robustness is not determinant for survival, however rugged the habitat may be. Rudeness and delicacy coexist and often complement each other.

 

That being said, I must confess that the last thing I expected to find on top of a rocky and rugged mountain range was a fragile butterfly...

 

- Black-eyed Blue (Glaucopsyche melanops)
- Serra da Gardunha - Portugal (15-06-2017)
27
Set17

Testemunho de uma vida ephemera

A natureza oferece-nos constantes lições de adaptação, perseverança e superação... mas também nos presenteia com exemplos de delicadeza e fragilidade.

 

Este pequeno animal pertencente à ordem Ephemeroptera e é o único insecto que, passando por uma metamorfose incompleta, apresenta um estágio intermédio (subimago) de duração raramente superior a 24h, em que - apesar de ainda imaturo sexualmente - possui asas perfeitamente funcionais.

 

Ao contrário da sua fase larvar (ninfa) que pode durar vários anos, os adultos (imago) vivem vidas extremamente curtas, variando entre 5 minutos e um par de dias (conforme a espécie a que pertençam) e nunca se alimentarão, pois apenas dispõem de bocas vestigiais. O seu único objectivo é a reprodução.

 

Esta frágil criatura "decidiu" passar uma boa parte da sua vida adulta na porta do meu carro, permitindo-me um vislumbre da sua delicada beleza e, despertando em mim a natureza filosófica do ser humano, proporcionou-me a contemplação da sua (e da minha própria) efemeridade.

 

- Efémera (Ephemera glaucops)

- Barragem de Morgavel - Sines (23-09-2017)

 

Efémera (Ephemera glaucops)

 

[EN]

Testimony of an ephemeral life

 

Nature offers us constant lessons of adaptation, perseverance and overcoming. But it also presents us with examples of delicacy and fragility.

 

This small animal belongs to the order Ephemeroptera and is the only insect that undergoes an incomplete metamorphosis, thus presenting an intermediate stage (subimago) rarely lasting more than 24 hours, in which - although still sexually immature - it has perfectly functional wings.

 

Unlike their larval phase (nymph) that can last for several years, adults (imago) live extremely short lives ranging from 5 minutes to a couple of days (depending on the species) and will never feed, as they have only vestigial (unusable) mouthparts. Its sole purpose is reproduction.

 

This fragile creature "decided" to spend a good part of his adult life on the door of my car, allowing me a glimpse of its delicate beauty and, awakening in me the philosophical nature of the human being, provided me with the contemplation of his (and my own) ephemerality.

 

- Mayfly (Ephemera glaucops)

- Sines - Portugal (23-09-2017)

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