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bicho do mato

Aqui fala-se de natureza, aves, bichos em geral e do que mais me passar pela cabeça

bicho do mato

Aqui fala-se de natureza, aves, bichos em geral e do que mais me passar pela cabeça

01
Jan21

2020 aos olhos de um naturalista

Há cerca de um ano atrás era reportado o primeiro caso de uma doença que viria a mudar as vidas de todos nós. Os meses seguintes foram um corrupio de estudos científicos, noticiários sensacionalistas, pânico social, açambarcamento de papel higiénico, teimosias negacionistas e jogos políticos. Veio o distanciamento social, foram introduzidas as máscaras e o álcool-gel, chegou o confinamento... a nossa sanidade mental e a nossa resistência à depressão foram testadas ao limite. Quando finalmente pudemos sair de casa, fomos trabalhar e visitar a família, fomos à praia e aos restaurantes, mas sempre limitados por restrições antes impensáveis. Nada de abraços e beijinhos, pois o distanciamento é para manter, higienizar as mãos N vezes ao dia e usar papeis para tocar nos objectos, pois o "bicho" anda aí e é invisível... e assim o "novo normal" instalou-se nas nossas vidas e nas nossas mentes. Hoje, as omnipresentes máscaras têm a dupla função de nos proteger e de disfarçar a profunda frustração que apenas os nossos olhos teimam em denunciar.

Poucos haveria entre nós que não estivessem ansiosos que o anno horribilis terminasse... afinal, todos sentimos que foram 12 meses perdidos em que nada ou quase nada pudemos fazer. Ou não será bem assim?

Bem, os profissionais de saúde e os cientistas tiveram, infelizmente, um ano cheio. A eles devemos sincera gratidão pelo que trabalharam e pelo que sacrificaram pelo bem de outrem. O comum "Zé", no entanto, ficou por casa... trabalhou quando possível, viu séries, fez pão caseiro, leu livros e falou com família e amigos pela net. Pouco mais lhe foi permitido fazer. Os famosos "passeios higiénicos" foram permitindo o arejamento das cabeças e foi durante o confinamento que se começou a notar uma curiosa tendência: o medo dos espaços fechados trouxe muito mais gente para a natureza.

Mas... e aqueles que já antes passavam os seus tempos livres na natureza? Bem, não posso falar pelos outros, mas eu aproveitei o máximo que pude.

https://www.inaturalist.org/

https://www.inaturalist.org/stats/2020/draposo79#sharing

Durante os meses de confinamento, acabei por passar muito tempo "em casa" com pouco para fazer, uma vez que as minhas funções profissionais não se adequam ao teletrabalho. Como as deslocações estavam proibidas, comecei a aproveitar os passeios higiénicos para explorar todo e qualquer espaço natural em redor de casa. Apesar da maior perturbação devido à presença de mais pessoas, acabei por descobrir uns recantos interessantíssimos, tal como descrevi aqui. Com o desconfinamento, voltei a poder fazer as minhas saídas mais longas e a explorar um pouco outras zonas do país.

Ainda que tenha sido obrigado a cancelar alguns projectos, como uma exploração ao Planalto do Barroso na primavera, 2020 acabou por ser um dos meus melhores anos a nível ornitológico... logrei observar 259 espécies de aves. Quanto à minha faceta naturalista mais genérica, tal como o gráfico acima indica, no total efectuei registos fotográficos de 865 espécies, entre animais, plantas e fungos. Esta forma de passar os tempos livres (chamem-lhe hobbie, passatempo, pancada, nerdice, ou o que quiserem) acabou, em grande medida, por me ajudar a suportar um ano terrivelmente difícil de digerir a tantos outros níveis.

Como corolário para tudo isto, tive o privilégio de passar penúltimo dia do ano numa incursão assaz proveitosa por terras alentejanas, recheada de fantásticas observações. Uma excelente maneira de terminar o ano...

Bufo-pequeno (Asio otus) Castro Verde (30-12-2020)Corvo (Corvus corax) Castro Verde (30-12-2020)
Cisne-mudo (Cygnus olor) Castro Verde (30-12-2020)Grifo (Gyps fulvus) Castro Verde (30-12-2020)
Bufo-pequeno (Asio otus) Castro Verde (30-12-2020)Águia-real (Aquila chrysaetos) Castro Verde (30-12-2020)
Milhafre-real (Milvus milvus) Castro Verde (30-12-2020)Abetarda (Otis tarda) Castro Verde (30-12-2020)
Bufo-pequeno (Asio otus) Castro Verde (30-12-2020)Sisão (Tetrax tetrax) Castro Verde (30-12-2020)
Águia-imperial-ibérica (Aquila adalberti) Castro Verde (30-12-2020)Cortiçol-de-barriga-preta (Pterocles orientalis) Castro Verde (30-12-2020)

 

Neste ano que agora entra, aventurem-se, explorem a natureza, usufruam dela, mas acima de tudo respeitem-na e protejam-na. 2020 deu-nos a prova de que, quando as coisas correm mal no nosso mundinho de cimento e vidro, é ela que nos acolhe...

Castro Verde (30-12-2020)

Bom 2021!

 

 

27
Fev18

Amigos da "vida alada"

Embora sempre tenha tido um interesse especial pelas aves e já colabore em censos da Spea desde 2012, apenas há pouco mais de dois anos resolvi fazer da observação o meu passatempo de eleição. 

 

Como tenho o meu "quê" de anti-social e gosto de andar pelos matos sozinho, nunca foi minha ideia fazer disto um hobbie de grupo. Ainda assim, em qualquer actividade que pratiquemos torna-se inevitável conhecermos pessoas com os mesmos gostos... colegas ou "correligionários". Dessas pessoas, algumas (a maioria) passam sem deixar grandes marcas, enquanto outras acabam por se tornar algo mais. 

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Passeios de barco no mar alto; dormidas em casas que parecem fornos; aturar idiotas debaixo do sol algarvio; explorar serras, rios e matas; jogos de matraquilhos só com uma mão; sofrer ondas de calor seguidas de queda de granizo; jantaradas até às tantas (para de seguida ter de acordar ao nascer do sol); gozar com as parvoíces uns dos outros (cara-a-cara); fugir ao calor debaixo de aspersores da relva; adoptar um "photography" como mascote; apreciar balcões de café... 

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Muitas aves observadas (a maioria identificadas, algumas por identificar); o Tejo, o Sado e o Guadiana; as lezírias, a frente marítima de Almada, a baía do Seixal, o Parque da Paz, Sagres e as beiras; momentos National Geographic que nos deixaram com aquela musiquinha na cabeça - "tatatatara tatatatara tatatatarara" - e a sensação de estar a viver um daqueles documentários de domingo à tarde; censos, observações e contagens; listas, listinhas e listeirinhos; aves raras, comuns, fatelas e lixo; fotografias, telescópios e as discussões sobre ambos... estas e tantas outras aventuras vividas não na companhia de qualquer um, mas entre amigos.

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Dois grandes anos de maluqueiras, sempre com as aves como pano de fundo. Venham os próximos!

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18
Dez17

Em queda livre

Embora seja uma ave bastante comum nas nossas águas e muitas vezes avistada a partir da costa, não a encontraremos nas nossas praias ou falésias. 

Alcatraz (Morus bassanus)Alcatraz ou Ganso-patola (Morus bassanus) RN Berlengas (21-05-2017)

 

O alcatraz só poisa em terra firme quando está extremamente debilitado ou quando pretende nidificar. Mas, como esta espécie não nidifica no nosso país, as imagens que mais facilmente conseguiremos reter são o seu poderoso voo ou os seus espectaculares mergulhos quando caem a pique dos céus na tentativa de capturar um peixe mais descuidado.

Alcatraz (Morus bassanus)Alcatraz ou Ganso-patola (Morus bassanus) RN Berlengas (21-05-2017)

 

Nesta espécie relativamente fácil de reconhecer devido ao seu porte e formato do corpo, os juvenis apresentam um tom pardo malhado ou manchado, ao passo que os adultos são essencialmente brancos com a ponta das asas preta. O seu corpo fusiforme permite-lhe os espantosos mergulhos e, quando visto ao longe, dá-lhe a aparência de ter duas cabeças - "uma para cada lado".

Alcatraz (Morus bassanus)Alcatraz ou Ganso-patola (Morus bassanus) RN Berlengas (21-05-2017)

 

Numa visita da SPEA (Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves) à Reserva Natural das Berlengas, tivémos a oportunidade de os ver bem de perto a rondar a embarcação e detectámos mesmo  3 destas belas aves poisadas num rochedo dos Farilhões, coisa que deixou todos a bordo bastante entusiasmados com a possibilidade de que estivessem a tentar nidificar por ali. É algo a tentar verificar no futuro...

Alcatraz (Morus bassanus)Alcatraz ou Ganso-patola (Morus bassanus) RN Berlengas (21-05-2017)

29
Out17

Sobrevivente de "guerra"

Petisco muito apreciado, o tordo é possivelmente a ave que todos os anos é abatida em maiores números pelos caçadores.

Por altura desta foto, cerca de uma semana depois do final da época venatória, era ainda possível encontrar nas nossas matas alguns dos muitos sobreviventes que se alimentavam e preparavam para o regresso a terras mais setentrionais onde iriam procriar.

 

Em Portugal, a nidificação desta espécie costumava ocorrer apenas no extremo norte do território, havendo no entanto sinais de expansão para sul nos últimos anos. (Catry et al 2010)

 

Este solitário espécime vagueava num pequeno bosque de sobreiros e oliveiras, debicando o solo em busca de pequenos invertebrados na companhia de outros passeriformes. Para surpresa de alguns "passeadores de canídeos" que por ali deambulavam, vi-me obrigado a rastejar durnte algum tempo para conseguir aproximar-me a distância de "tiro".

 

Tordo-comum (Turdus philomelos)Tordo-comum (Turdus philomelos) Corroios (25-02-2017)

19
Set17

1º Workshop de Iniciação à Observação de Aves do Projecto VEM

O recém-criado Projecto VEM (Valorização dos Ecossistemas do Montijo) organizou no pretérito sábado dia 16/09/2017 o seu primeiro Workshop de Iniciação  à Observação de Aves e tiveram a amabilidade (e a falta de bom senso) de me convidar para ser o formador/guia. 

Foto de Grupo por Eduardo Martins

 

Sendo esta a minha primeira aventura como "formador", diligenciei de forma a não aborrecer em demasia as pobres almas que tiveram a coragem de comparecer. Após uma pequena apresentação/conversa sobre aves, ecossistemas e natureza e motivados por um "coffee break" à maneira, dirigimo-nos até ao ponto do sapal do Montijo onde vai em breve nascer o 1º observatório de aves da região e tivémos a boa fortuna de dar logo de caras com uma águia-pesqueira (Pandion haliaetus). No entanto não há sorte que se sobreponha à ditadura das marés e não lográmos observar tantas aves como eu esperava... fica para a próxima vez. Ainda assim, segundo o feedback obtido, o saldo final parece ser bastante positivo. Para a próxima faremos ainda melhor!

VEM

 

Muito brigado a todos os que participaram.  

28
Ago17

Os malucos dos Pokemons

Num jardim público cheio de gente, deitado num chão repleto de dejectos de pato, com o cotovelo esquerdo dentro de água a ser mordiscado por carpas do tamanho do meu braço. O LCD em 45º para tentar ter ângulo de disparo, a câmara segura só com uma mão por cima da água. Dezenas de pessoas a olhar para mim como se eu fosse maluco... Tinha tudo para correr mal, mas os deuses da passarada recompensaram os meus malabarismos.

Goraz (Nycticorax nycticorax) Gulbenkian (21-07-2016) (11).JPGGoraz (Nycticorax nycticorax) Lisboa - Jardins da Gulbenkian (21-07-2016)

17
Ago17

O mocho, o sapo e os nerds

"O que fazem quatro "nerds dos pássaros" à noite, no meio de nenhures, a perseguir um som que parece vir de vários sítios ao mesmo tempo? Certamente estarão a tentar encontrar uma ave, mas se não forem cuidadosos podem acabar por encontrar... um sapo." (hã?)

 

Esta pequena rapina nocturna alimenta-se principalmente de insectos como gafanhotos, escaravelhos, borboletas e cigarras, mas também não rejeita repteis, anfíbios e até aves ou mamíferos de pequeno porte.
Nas noites amenas da primavera é possível ouvir o seu chamamento, repetido numa cadência de 3 segundos, a ecoar pelos campos silenciosos. Mas é preciso alguma atenção pois, curiosamente, as suas vocalizações são muito similares às do Sapo-parteiro (Alytes obstetricans), sendo que estas apenas são audíveis a uma curta distância.

 

"Depois de despistada a possibilidade do sapo, os nerds embrenharam-se no mato e conseguiram finalmente localizar o sobreiro que albergava tão ilustre hóspede. Os corações batiam ansiosos, os passos eram leves e cuidadosos e as lanternas tremiam nas mãos nervosas... seria possível descobrir o bicho antes que este voasse? Por cima das suas cabeças, o som aparentava vir de toda a copa e a própria bruma parecia conspirar contra eles. Subitamente, uns grandes olhos amarelos traíram a plumagem críptica e deu-se uma explosão de alegria muda que só seria exteriorizada uns minutos mais tarde, quando o animal abandonou a árvore e desapareceu na noite."


Nerds...

Mocho-pequeno-de-orelhas (Otus scops) Penamacor (18-06-2017) (1).JPG

Mocho-pequeno-de-orelhas (Otus scops) Penamacor (18-06-2017)

 

[EN]

The owl, the frog and the nerds

"What do four "bird nerds" at night in the middle of nowhere, chasing a sound that seems to come from several places at once? They will certainly be trying to find a bird, but if they are not careful they may end up finding... a frog." (what?) 

This small owl feeds mainly on insects such as grasshoppers, beetles, butterflies and cicadas, but also does not reject reptiles, amphibians and even small birds or mammals.
On mild spring nights you can hear his call, repeated in a cadence of 3 seconds, echoing through the silent fields. But pay attention because their vocalizations are very similar to those of the Midwife Toad (Alytes obstetricans), these being audible only within a short distance.

"After the toad has been discarded, the nerds went into the bush and finally managed to locate the cork oak that housed such an illustrious guest. Hearts beat anxiously, the steps were light and careful and the lanterns trembled in nervous hands. The sound seemed to come from all over the canopy, and the haze itself seemed to conspire against them. Suddenly two large yellow eyes betrayed the cryptic plumage and there was an explosion of unspoken joy only to be externalized a few minutes later, when the animal left the tree and disappeared into the night."


Nerds...

Eurasian Scops Owl (Otus scops) Penamacor - Portugal (17-06-2017)

 

28
Fev16

Parvo...

Chuva, vento, frio e granizo... chamaram-me parvo por ir para a lagoa com aquele tempo. Talvez tivessem razão, mas cada maluco com a sua pancada. Foi uma excelente manhã tanto a nível de observação como a nível de fotografia, vi pela primeira vez um Camão (Porphyrio porphyrio) e apanhei este cromo a jeito pela 1ª vez também...

 

Guarda-rios (Alcedo atthis) Lagoa da estacada (27-02-2016) (4).JPG

Guarda-rios (Alcedo atthis) Espaço Interpretativo da Lagoa Pequena - Sesimbra (27-02-2017)

 
 
 [EN]
Silly...
 
Rain, wind, cold and hail... they called me silly for going to the lagoon with the weather like that. Maybe they were right, but each crazy with his blow. It was a great morning both in terms of observation as in photography, I saw a Purple Swamphen (Porphyrio porphyrio) for the first time and I managed to get this girl for the first time also...
 
Common Kingfisher (Alcedo atthisSesimbra - Portugal (27-02-2017)

Eu

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