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bicho do mato

Aqui fala-se de natureza, aves, bichos em geral e do que mais me passar pela cabeça

bicho do mato

Aqui fala-se de natureza, aves, bichos em geral e do que mais me passar pela cabeça

22
Nov22

Onde observar - Sagres, ponto de encontro dos que não sabem o caminho

Para aqueles maluquinhos que fazem da observação de aves o seu hobbie (e às vezes a sua obsessão), as migrações primaveril (pré-nupcial) e outonal (pós-nupcial) apresentam oportunidades únicas de observação, pois trazem de passagem algumas espécies que dificilmente podemos observar noutras alturas do ano. A migração pós-nupcial é especialmente profícua, pois é no fim de verão/início de outono que as aves juvenis, nascidas mais a norte na Europa, empreendem a sua longa jornada a caminho de terras mais quentes... umas seguem para África, outras invernam por cá, na Península Ibérica.

Nesta época do ano, entre meados de agosto e meados de novembro (grosso modo), por todo o país surgem bichos de passagem, a caminho do Sul. É uma altura incrível, onde qualquer ave pode aparecer em qualquer sítio. Mas há um local específico para onde todos parecem convergir, tanto as aves como os observadores que as procuram. 

Bem-vindos a Sagres, a capital da observação de aves em Portugal. 

Esmerilhão (Falco columbarius)Esmerilhão (Falco columbarius) Sagres (07-11-2021)

 

Mas o que torna esta região tão atractiva nesta altura do ano?

Bem, é sabido que ninguém nasce ensinado... nem mesmo os animais, por muito bons que sejam os seus instintos. Após a reprodução, com a diminuição de horas de luz do dia, as aves migratórias começam paulatinamente a encetar o seu percurso a caminho de paragens mais meridionais. Umas seguem em bando, outras de forma mais isolada, mas todas elas são empurradas para sul pela sua bússola interna. Sucede que os adultos, tendo já efectuado pelo menos uma migração anteriormente, têm o azimute mais afinado e seguem directos para Gibraltar, o ponto onde irão atravessar o Mediterrâneo.

Já os putos, mais inexperientes e destrambelhados, vão descendo o país um pouco mais "à toa", mais dependentes dos ventos e da orografia do terreno. Só "sabem" que têm que seguir mais ou menos para os lados do sul, mas não sabem a rota, pelo que muitos acabam por aproximar-se da costa oeste e utilizam o mar como rumo. No entanto, entrando na península de Sagres, voltam a dar de caras com o mar na costa sul, ficam baralhados e, muitas vezes, permanecem a circular ali na região vários dias até finalmente se orientarem e seguirem para Gibraltar.

Se há um espectáculo que merece ser visto pelo menos uma vez, por aqueles que têm fraquinho por estes bichos emplumados, é o de dezenas de indivíduos de várias espécies de aves planadoras a circular pelos céus, à procura do caminho para um sítio que nunca viram...

Águia-cobreira (Circaetus gallicus) Sagres (04-10-2022)Cegonha-preta (Ciconia nigra) Sagres (02-10-2022)Bútio-vespeiro (Pernis apivorus) Sagres (02-10-2022)Gavião (Accipiter nisus) Sagres (02-10-2022)Açor (Accipiter gentilis) Sagres (01-10-2022)Grifo (Gyps fulvus) Sagres (04-11-2021)Grifo (Gyps fulvus) Sagres (04-11-2021)Grifo (Gyps fulvus) Sagres (04-11-2021)Abutre-preto (Aegypius monachus) Sagres (05-11-2021)Britango (Neophron percnopterus) Sagres (25-10-2019)Cegonha-preta (Ciconia nigra) Sagres (05-10-2018)Águia-de-bonelli (Aquila fasciata) Budens (07-10-2017)

 

Mais para fins de outubro, é especialmente impressionante observar isto a suceder com bandos de centenas de grifos. Chega a haver milhares destas aves a circular pela região ao mesmo tempo.

Grifo (Gyps fulvus)Grifo (Gyps fulvus) Sagres (04-11-2021)

 

Não é, portanto, de estranhar que ali tenha nascido o Festival Observação de Aves & Atividades de Natureza de Sagres, que este ano teve a sua 13ª edição. Todos os anos, geralmente na semana do feriado do 5 de outubro, dezenas de visitantes de várias nacionalidades vão observar de perto a migração e participar nas diversas actividades disponibilizadas pela organização.

Birdwatching2022-Website-Slider-PT.jpg

 

Mas as pessoas que se deslocam a Sagres nos inícios de outono não vão apenas à procura de rapinas. Entre aves residentes e migradoras, terrestres e marítimas, já foram observadas mais de 300 espécies na região. Há muito para ver...

Chasco-cinzento (Oenanthe oenanthe) Sagres (08-10-2022)Tarambola-cinzenta (Pluvialis squatarola) Sagres (07-10-2022)Toutinegra-do-mato (Sylvia undata) Sagres (07-10-2022)Papa-figos (Oriolus oriolus) Sagres (06-10-2022)Tarambola-dourada (Pluvialis apricaria) Sagres (05-10-2022)Papa-moscas-preto (Ficedula hypoleuca) Sagres (05-10-2022)Cotovia-arbórea (Lullula arborea) Sagres (03-10-2022)Rabirruivo-de-testa-branca (Phoenicurus phoenicurus) Sagres (02-10-2022)Estorninho-malhado (Sturnus vulgaris) Sagres (07-11-2021)Cotovia-escura (Galerida theklae) Sagres (07-11-2021)Galheta (Gulosus aristotelis) Sagres (07-11-2021)Melro-de-colar (Turdus torquatus) Sagres (07-11-2021)Tordo-zornal (Turdus pilaris) Sagres (25-10-2019)Rabirruivo-de-testa-branca (Phoenicurus phoenicurus) Sagres (06-10-2017)Papa-moscas-preto (Ficedula hypoleuca) Sagres (06-10-2017)Casquilho (Oceanites oceanicus) ao largo de Sagres (06-10-2017)Alma-de-mestre (Hydrobates pelagicus) ao largo de Sagres (06-10-2017)Alcatraz (Morus bassanus) ao largo de Sagres (06-10-2017)Toutinegra-de-bigodes (Curruca iberiae) Sagres (05-10-2017)Papa-amoras-comum (Curruca communis) Sagres (05-10-2017)Mocho-galego (Athene noctua) Vila do Bispo (02-10-2016)Trigueirão (Emberiza calandra) Sagres (02-10-2016)Torcicolo (Jynx torquilla) Vila do Bispo (30-09-2016)Gralha-de-bico-vermelho (Pyrrhocorax pyrrhocorax) Vila do Bispo (30-09-2016)Corvo (Corvus corax) Sagres (07-11-2021)Pardela-balear (Puffinus mauretanicus) Sagres (36-10-2019)Melro-azul (Monticola solitarius) Boca do Rio (10-06-2016)Chasco-ruivo (Oenanthe hispanica) Sagres (10-06-2016)

 

Entre todas estas espécies, há sempre algumas que chamam mais a atenção ou geram mais procura, quer seja por serem especialidades da região, ou por serem aves mais incomuns ou até raras.

Sisão (Tetrax tetrax)Sisão (Tetrax tetrax) Sagres (30-09-2016)

Borrelho-ruivo (Charadrius morinellus) Sagres (07-10-2022)Gralha-de-bico-vermelho (Pyrrhocorax pyrrhocorax) Sagres (02-10-2022)Petinha-marítima (Anthus petrosus) Sagres (26-10-2019)Grifo-pedrês (Gyps rueppellii) Sagres (05-10-2017)

 

Com tantas aves a circular na zona, é inevitável que acabem por interagir connosco e com o nosso modo de vida.

Esta interacção é especialmente preocupante nos parques eólicos da região, que representam um perigo muito real para grandes planadoras, como águias, cegonhas e abutres. As empresas gestoras destes parques contratam, no período mais crítico do ano, consultoras que colocam equipas no terreno que fazem uma monitorização permanente e que têm a capacidade de parar os geradores, em caso de perigo eminente. Felizmente, estas medidas de mitigação têm mostrado ser bastante eficientes.

 

Outras interacções aves/humanos podem parecer mais inócuas, mas nem sempre é bem assim.

Os extra-maluquinhos que se decidam a levantar bem cedo para dar uma volta pela zona, arriscam-se a ter surpresas como dar de caras com um bando de dezenas ou até centenas de abutres a dormitar no chão. Claro que a tentação de nos aproximarmos é bastante difícil de resistir... as fotos que poderíamos conseguir, se chegássemos perto...

No entanto, os resultados disso tendem a ser bastante perniciosos para as aves. O mais provável é que estas se vão assustar e levantar voo mais cedo do que o suposto, acabando por não descansar tanto quanto precisavam. Não esqueçamos que são aves enormes, a meio de uma viagem de milhares de km... toda a energia poupada é preciosa.

E, se os fizermos levantar voo assustados nas imediações de um parque eólico, mais do que meramente pernicioso, o resultado pode ser catastrófico.

Grifo (Gyps fulvus)

Grifos (Gyps fulvus) Sagres (07-11-2021)

 

De qualquer forma, podemos apreciar à distância e até conseguir algumas fotos sem incomodar os bichos. Basta que tenhamos em mente mais o seu interesse do que o nosso.

As fotos acima foram todas conseguidas a uma distância segura, de dentro do carro, parado na berma de uma estrada alcatroada. Não serão imagens tecnicamente perfeitas, mas são excelentes recordações de um incrível "momento National Geographic", num dia em que decidi dar uma volta à toa, ao nascer do dia, sem percurso nem destino definidos.

 

Definitivamente, no outono, Sagres é o ponto de encontro dos que não sabem o caminho...

 

14
Nov21

Tempus fugit

À data que comecei a escrever esta publicação, tendo recentemente completado 42 anos e estando no início daquela que vai certamente ser a maior aventura da minha vida, foi com naturalidade que senti instalar-se alguma nostalgia, quando decidi organizar alguns registos das minhas saídas de campo.

Hoje, quase exactamente seis anos depois de me iniciar nesta "má vida" de observador de aves/naturalista (extremamente) amador, olho para trás e vejo mais de três centenas de espécies de aves e mais de mil espécies de outros bichos e plantas observados, vejo os livros que li na tentativa de aprender mais sobre eles, vejo as pessoas que chateei com pedidos de ajuda, vejo o quanto aprendi e cresci nesta actividade. Vejo também o muito (mas muito) mais que me falta aprender... que sensação!

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Sempre acreditei que a experiência não depende directamente dos kms que percorremos, mas sim daquilo que fazemos ao longo do percurso, da aprendizagem que dali conseguimos retirar.

Portanto, sinto-me privilegiado por ter logrado visitar grande parte do nosso país e por ter visto locais fantásticos, dignos de figurar num qualquer documentário da BBC ou da National Geographic. Deslumbrei-me com os vales mais profundos das terras nortenhas, naveguei ao largo da mesma costa de onde partiram os grandes navegadores de outrora, explorei as douradas planícies alentejanas, caminhei no leito do Tejo, visitei o ponto mais alto do continente e conheci os estuários dos nossos maiores rios.

Faltam-me as ilhas. Quem sabe, um dia...

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Por esse país fora, observei abutres imponentes e águias majestosas, vi estepárias na aridez da planície e aves marinhas a sobrevoar o oceano. Sondei a noite em busca das misteriosas aves nocturnas e investiguei as copas de árvores e arbustos em busca dos mais pequenos passarinhos. Vi lontras, javalis, raposas e veados e comovi-me com os golfinhos brincalhões. Procurei insectos e aranhas, fotografei plantas, fungos e até bactérias.

Talvez pareça ser algo estranho para se fazer nos tempos livres, levantar de madrugada para ir para o mato observar a natureza... mas há "pancadas" piores, suponho.

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No entanto, nem só de auto-recreação é feito este hobbie... as parcas competências que fui desenvolvendo permitiram-me, por exemplo, contribuir um pouco para o estudo das aves, através da colaboração voluntária em diversos censos e contagens. Pude também fazer algum trabalho "a sério", tendo a oportunidade de trabalhar com profissionais de excelência e utilizar tecnologia de ponta. Cheguei até a ministrar um workshop, experiência "aterrorizante", mas extremamente recompensadora... 

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Ao longo deste percurso, apesar de ser um bicho-do-mato, fui conhecendo bastantes pessoas e tenho orgulho em dizer que fiz uma mão-cheia de amigos, com os quais tem sido um prazer partilhar as minhas aventuras em busca da bicharada. 

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Desde partilhar o deslumbre com uma fabulosa paisagem ou a alegria de observar pela primeira vez uma espécie, às conversas mais sérias sobre natureza, ciência, sociedade, política, até filosofar sobre o sentido da vida ou a profundidade do universo... ou então, apenas gastar tempo a dizer as maiores patetices e a fazer as mais ridículas macacadas. Tudo é possível na companhia de pessoas que sofrem da mesma "doença mental".

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Parece que foi ontem que me sentei num cadeira no sapal, ao nascer do sol, e fiquei cerca de 3 horas a ver uma águia-pesqueira a cuidar da plumagem... eram os meus primeiros passos neste mundo e estava tão longe de imaginar tudo o que iria ver e viver nos próximos anos. Aqueles documentários sobre natureza que antes eu apenas via na TV, passei a vivê-los. A uma escala diferente, é certo, sem leões, girafas e rinocerontes, mas ainda assim não menos impressionantes.

Estes seis anos de aventuras na natureza, percorrendo alguns dos locais mais incríveis que Portugal continental tem para oferecer, na companhia de amigos que "falam a mesma língua", passaram num ápice. Venham os próximos, que serão indubitavelmente muito diferentes... e ainda melhores, acredito.

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Se há conselho que hoje me sinto capacitado para dar a alguém é: vivam os vossos sonhos e partilhem as vossas loucuras com quem vos compreenda. Aproveitem a vida, pois... o tempo voa.

01
Jan21

2020 aos olhos de um naturalista

Há cerca de um ano atrás era reportado o primeiro caso de uma doença que viria a mudar as vidas de todos nós. Os meses seguintes foram um corrupio de estudos científicos, noticiários sensacionalistas, pânico social, açambarcamento de papel higiénico, teimosias negacionistas e jogos políticos. Veio o distanciamento social, foram introduzidas as máscaras e o álcool-gel, chegou o confinamento... a nossa sanidade mental e a nossa resistência à depressão foram testadas ao limite. Quando finalmente pudemos sair de casa, fomos trabalhar e visitar a família, fomos à praia e aos restaurantes, mas sempre limitados por restrições antes impensáveis. Nada de abraços e beijinhos, pois o distanciamento é para manter, higienizar as mãos N vezes ao dia e usar papeis para tocar nos objectos, pois o "bicho" anda aí e é invisível... e assim o "novo normal" instalou-se nas nossas vidas e nas nossas mentes. Hoje, as omnipresentes máscaras têm a dupla função de nos proteger e de disfarçar a profunda frustração que apenas os nossos olhos teimam em denunciar.

Poucos haveria entre nós que não estivessem ansiosos que o anno horribilis terminasse... afinal, todos sentimos que foram 12 meses perdidos em que nada ou quase nada pudemos fazer. Ou não será bem assim?

Bem, os profissionais de saúde e os cientistas tiveram, infelizmente, um ano cheio. A eles devemos sincera gratidão pelo que trabalharam e pelo que sacrificaram pelo bem de outrem. O comum "Zé", no entanto, ficou por casa... trabalhou quando possível, viu séries, fez pão caseiro, leu livros e falou com família e amigos pela net. Pouco mais lhe foi permitido fazer. Os famosos "passeios higiénicos" foram permitindo o arejamento das cabeças e foi durante o confinamento que se começou a notar uma curiosa tendência: o medo dos espaços fechados trouxe muito mais gente para a natureza.

Mas... e aqueles que já antes passavam os seus tempos livres na natureza? Bem, não posso falar pelos outros, mas eu aproveitei o máximo que pude.

https://www.inaturalist.org/

https://www.inaturalist.org/stats/2020/draposo79#sharing

Durante os meses de confinamento, acabei por passar muito tempo "em casa" com pouco para fazer, uma vez que as minhas funções profissionais não se adequam ao teletrabalho. Como as deslocações estavam proibidas, comecei a aproveitar os passeios higiénicos para explorar todo e qualquer espaço natural em redor de casa. Apesar da maior perturbação devido à presença de mais pessoas, acabei por descobrir uns recantos interessantíssimos, tal como descrevi aqui. Com o desconfinamento, voltei a poder fazer as minhas saídas mais longas e a explorar um pouco outras zonas do país.

Ainda que tenha sido obrigado a cancelar alguns projectos, como uma exploração ao Planalto do Barroso na primavera, 2020 acabou por ser um dos meus melhores anos a nível ornitológico... logrei observar 259 espécies de aves. Quanto à minha faceta naturalista mais genérica, tal como o gráfico acima indica, no total efectuei registos fotográficos de 865 espécies, entre animais, plantas e fungos. Esta forma de passar os tempos livres (chamem-lhe hobbie, passatempo, pancada, nerdice, ou o que quiserem) acabou, em grande medida, por me ajudar a suportar um ano terrivelmente difícil de digerir a tantos outros níveis.

Como corolário para tudo isto, tive o privilégio de passar penúltimo dia do ano numa incursão assaz proveitosa por terras alentejanas, recheada de fantásticas observações. Uma excelente maneira de terminar o ano...

Bufo-pequeno (Asio otus) Castro Verde (30-12-2020)Corvo (Corvus corax) Castro Verde (30-12-2020)
Cisne-mudo (Cygnus olor) Castro Verde (30-12-2020)Grifo (Gyps fulvus) Castro Verde (30-12-2020)
Bufo-pequeno (Asio otus) Castro Verde (30-12-2020)Águia-real (Aquila chrysaetos) Castro Verde (30-12-2020)
Milhafre-real (Milvus milvus) Castro Verde (30-12-2020)Abetarda (Otis tarda) Castro Verde (30-12-2020)
Bufo-pequeno (Asio otus) Castro Verde (30-12-2020)Sisão (Tetrax tetrax) Castro Verde (30-12-2020)
Águia-imperial-ibérica (Aquila adalberti) Castro Verde (30-12-2020)Cortiçol-de-barriga-preta (Pterocles orientalis) Castro Verde (30-12-2020)

 

Neste ano que agora entra, aventurem-se, explorem a natureza, usufruam dela, mas acima de tudo respeitem-na e protejam-na. 2020 deu-nos a prova de que, quando as coisas correm mal no nosso mundinho de cimento e vidro, é ela que nos acolhe...

Castro Verde (30-12-2020)

Bom 2021!

 

 

27
Fev18

Amigos da "vida alada"

Embora sempre tenha tido um interesse especial pelas aves e já colabore em censos da Spea desde 2012, apenas há pouco mais de dois anos resolvi fazer da observação o meu passatempo de eleição. 

 

Como tenho o meu "quê" de anti-social e gosto de andar pelos matos sozinho, nunca foi minha ideia fazer disto um hobbie de grupo. Ainda assim, em qualquer actividade que pratiquemos torna-se inevitável conhecermos pessoas com os mesmos gostos... colegas ou "correligionários". Dessas pessoas, algumas (a maioria) passam sem deixar grandes marcas, enquanto outras acabam por se tornar algo mais. 

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Passeios de barco no mar alto; dormidas em casas que parecem fornos; aturar idiotas debaixo do sol algarvio; explorar serras, rios e matas; jogos de matraquilhos só com uma mão; sofrer ondas de calor seguidas de queda de granizo; jantaradas até às tantas (para de seguida ter de acordar ao nascer do sol); gozar com as parvoíces uns dos outros (cara-a-cara); fugir ao calor debaixo de aspersores da relva; adoptar um "photography" como mascote; apreciar balcões de café... 

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Muitas aves observadas (a maioria identificadas, algumas por identificar); o Tejo, o Sado e o Guadiana; as lezírias, a frente marítima de Almada, a baía do Seixal, o Parque da Paz, Sagres e as beiras; momentos National Geographic que nos deixaram com aquela musiquinha na cabeça - "tatatatara tatatatara tatatatarara" - e a sensação de estar a viver um daqueles documentários de domingo à tarde; censos, observações e contagens; listas, listinhas e listeirinhos; aves raras, comuns, fatelas e lixo; fotografias, telescópios e as discussões sobre ambos... estas e tantas outras aventuras vividas não na companhia de qualquer um, mas entre amigos.

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Dois grandes anos de maluqueiras, sempre com as aves como pano de fundo. Venham os próximos!

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18
Dez17

Em queda livre

Embora seja uma ave bastante comum nas nossas águas e muitas vezes avistada a partir da costa, não a encontraremos nas nossas praias ou falésias. 

Alcatraz (Morus bassanus)Alcatraz ou Ganso-patola (Morus bassanus) RN Berlengas (21-05-2017)

 

O alcatraz só poisa em terra firme quando está extremamente debilitado ou quando pretende nidificar. Mas, como esta espécie não nidifica no nosso país, as imagens que mais facilmente conseguiremos reter são o seu poderoso voo ou os seus espectaculares mergulhos quando caem a pique dos céus na tentativa de capturar um peixe mais descuidado.

Alcatraz (Morus bassanus)Alcatraz ou Ganso-patola (Morus bassanus) RN Berlengas (21-05-2017)

 

Nesta espécie relativamente fácil de reconhecer devido ao seu porte e formato do corpo, os juvenis apresentam um tom pardo malhado ou manchado, ao passo que os adultos são essencialmente brancos com a ponta das asas preta. O seu corpo fusiforme permite-lhe os espantosos mergulhos e, quando visto ao longe, dá-lhe a aparência de ter duas cabeças - "uma para cada lado".

Alcatraz (Morus bassanus)Alcatraz ou Ganso-patola (Morus bassanus) RN Berlengas (21-05-2017)

 

Numa visita da SPEA (Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves) à Reserva Natural das Berlengas, tivémos a oportunidade de os ver bem de perto a rondar a embarcação e detectámos mesmo  3 destas belas aves poisadas num rochedo dos Farilhões, coisa que deixou todos a bordo bastante entusiasmados com a possibilidade de que estivessem a tentar nidificar por ali. É algo a tentar verificar no futuro...

Alcatraz (Morus bassanus)Alcatraz ou Ganso-patola (Morus bassanus) RN Berlengas (21-05-2017)

29
Out17

Sobrevivente de "guerra"

Petisco muito apreciado, o tordo é possivelmente a ave que todos os anos é abatida em maiores números pelos caçadores.

Por altura desta foto, cerca de uma semana depois do final da época venatória, era ainda possível encontrar nas nossas matas alguns dos muitos sobreviventes que se alimentavam e preparavam para o regresso a terras mais setentrionais onde iriam procriar.

 

Em Portugal, a nidificação desta espécie costumava ocorrer apenas no extremo norte do território, havendo no entanto sinais de expansão para sul nos últimos anos. (Catry et al 2010)

 

Este solitário espécime vagueava num pequeno bosque de sobreiros e oliveiras, debicando o solo em busca de pequenos invertebrados na companhia de outros passeriformes. Para surpresa de alguns "passeadores de canídeos" que por ali deambulavam, vi-me obrigado a rastejar durnte algum tempo para conseguir aproximar-me a distância de "tiro".

 

Tordo-comum (Turdus philomelos)Tordo-comum (Turdus philomelos) Corroios (25-02-2017)

19
Set17

1º Workshop de Iniciação à Observação de Aves do Projecto VEM

O recém-criado Projecto VEM (Valorização dos Ecossistemas do Montijo) organizou no pretérito sábado dia 16/09/2017 o seu primeiro Workshop de Iniciação  à Observação de Aves e tiveram a amabilidade (e a falta de bom senso) de me convidar para ser o formador/guia. 

Foto de Grupo por Eduardo Martins

 

Sendo esta a minha primeira aventura como "formador", diligenciei de forma a não aborrecer em demasia as pobres almas que tiveram a coragem de comparecer. Após uma pequena apresentação/conversa sobre aves, ecossistemas e natureza e motivados por um "coffee break" à maneira, dirigimo-nos até ao ponto do sapal do Montijo onde vai em breve nascer o 1º observatório de aves da região e tivémos a boa fortuna de dar logo de caras com uma águia-pesqueira (Pandion haliaetus). No entanto não há sorte que se sobreponha à ditadura das marés e não lográmos observar tantas aves como eu esperava... fica para a próxima vez. Ainda assim, segundo o feedback obtido, o saldo final parece ser bastante positivo. Para a próxima faremos ainda melhor!

VEM

 

Muito brigado a todos os que participaram.  

28
Ago17

Os malucos dos Pokemons

Num jardim público cheio de gente, deitado num chão repleto de dejectos de pato, com o cotovelo esquerdo dentro de água a ser mordiscado por carpas do tamanho do meu braço. O LCD em 45º para tentar ter ângulo de disparo, a câmara segura só com uma mão por cima da água. Dezenas de pessoas a olhar para mim como se eu fosse maluco... Tinha tudo para correr mal, mas os deuses da passarada recompensaram os meus malabarismos.

Goraz (Nycticorax nycticorax) Gulbenkian (21-07-2016) (11).JPGGoraz (Nycticorax nycticorax) Lisboa - Jardins da Gulbenkian (21-07-2016)

17
Ago17

O mocho, o sapo e os nerds

"O que fazem quatro "nerds dos pássaros" à noite, no meio de nenhures, a perseguir um som que parece vir de vários sítios ao mesmo tempo? Certamente estarão a tentar encontrar uma ave, mas se não forem cuidadosos podem acabar por encontrar... um sapo." (hã?)

 

Esta pequena rapina nocturna alimenta-se principalmente de insectos como gafanhotos, escaravelhos, borboletas e cigarras, mas também não rejeita repteis, anfíbios e até aves ou mamíferos de pequeno porte.
Nas noites amenas da primavera é possível ouvir o seu chamamento, repetido numa cadência de 3 segundos, a ecoar pelos campos silenciosos. Mas é preciso alguma atenção pois, curiosamente, as suas vocalizações são muito similares às do Sapo-parteiro (Alytes obstetricans), sendo que estas apenas são audíveis a uma curta distância.

 

"Depois de despistada a possibilidade do sapo, os nerds embrenharam-se no mato e conseguiram finalmente localizar o sobreiro que albergava tão ilustre hóspede. Os corações batiam ansiosos, os passos eram leves e cuidadosos e as lanternas tremiam nas mãos nervosas... seria possível descobrir o bicho antes que este voasse? Por cima das suas cabeças, o som aparentava vir de toda a copa e a própria bruma parecia conspirar contra eles. Subitamente, uns grandes olhos amarelos traíram a plumagem críptica e deu-se uma explosão de alegria muda que só seria exteriorizada uns minutos mais tarde, quando o animal abandonou a árvore e desapareceu na noite."


Nerds...

Mocho-pequeno-de-orelhas (Otus scops) Penamacor (18-06-2017) (1).JPG

Mocho-pequeno-de-orelhas (Otus scops) Penamacor (18-06-2017)

 

[EN]

The owl, the frog and the nerds

"What do four "bird nerds" at night in the middle of nowhere, chasing a sound that seems to come from several places at once? They will certainly be trying to find a bird, but if they are not careful they may end up finding... a frog." (what?) 

This small owl feeds mainly on insects such as grasshoppers, beetles, butterflies and cicadas, but also does not reject reptiles, amphibians and even small birds or mammals.
On mild spring nights you can hear his call, repeated in a cadence of 3 seconds, echoing through the silent fields. But pay attention because their vocalizations are very similar to those of the Midwife Toad (Alytes obstetricans), these being audible only within a short distance.

"After the toad has been discarded, the nerds went into the bush and finally managed to locate the cork oak that housed such an illustrious guest. Hearts beat anxiously, the steps were light and careful and the lanterns trembled in nervous hands. The sound seemed to come from all over the canopy, and the haze itself seemed to conspire against them. Suddenly two large yellow eyes betrayed the cryptic plumage and there was an explosion of unspoken joy only to be externalized a few minutes later, when the animal left the tree and disappeared into the night."


Nerds...

Eurasian Scops Owl (Otus scops) Penamacor - Portugal (17-06-2017)

 

28
Fev16

Parvo...

Chuva, vento, frio e granizo... chamaram-me parvo por ir para a lagoa com aquele tempo. Talvez tivessem razão, mas cada maluco com a sua pancada. Foi uma excelente manhã tanto a nível de observação como a nível de fotografia, vi pela primeira vez um Camão (Porphyrio porphyrio) e apanhei este cromo a jeito pela 1ª vez também...

 

Guarda-rios (Alcedo atthis) Lagoa da estacada (27-02-2016) (4).JPG

Guarda-rios (Alcedo atthis) Espaço Interpretativo da Lagoa Pequena - Sesimbra (27-02-2017)

 
 
 [EN]
Silly...
 
Rain, wind, cold and hail... they called me silly for going to the lagoon with the weather like that. Maybe they were right, but each crazy with his blow. It was a great morning both in terms of observation as in photography, I saw a Purple Swamphen (Porphyrio porphyrio) for the first time and I managed to get this girl for the first time also...
 
Common Kingfisher (Alcedo atthisSesimbra - Portugal (27-02-2017)

Eu

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