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bicho do mato

Aqui fala-se de natureza, aves, bichos em geral e do que mais me passar pela cabeça

bicho do mato

Aqui fala-se de natureza, aves, bichos em geral e do que mais me passar pela cabeça

29
Abr21

"A menina dança?"

A dança é uma das mais importantes e antigas formas de expressão artística da humanidade. Através de movimento dos nossos corpos conseguimos expressar dor, alegria, medo, sensualidade, altivez... existem danças cerimoniais, competitivas, desportivas, lúdicas, variando consoante a cultura dos povos. É, no entanto, desconhecida a sua origem, sabendo-se apenas que é pelo menos tão antiga quanto a história. Como terá surgido?

Será possível que a arte tenha, uma vez mais, imitado a natureza? É sabido que as suas formas, os seus sons, cores, cheiros e movimentos sempre inspiraram o Homem. Mas os animais não dançam, pois não? Bem, talvez dependa um pouco do conceito de cada um...

Será a espectacular parada nupcial da águia-calva um tango a dois nos céus, carregado de emoção e drama? Será o espectáculo proporcionado pelos Flamingos dos Andes, o equivalente às coreografias de grupo numa discoteca? A vistosa exibição de corte do macho de abetarda poderá ter um paralelo no bêbado lá da aldeia, que dança apaixonadamente com a "mine" na mão? Farão os albatroses competições de hip-hop? E o pavão dançará a "Senbu", qual gueixa agitando o seu leque em honra à deusa Amaterasu?

Como sempre, tenho mais perguntas que respostas... mas como impedir que a mente divague, face a uma cena como esta, em que quase conseguimos ouvir as notas sensuais da música de fundo e em que a ave parece claramente dizer: "A menina dança?"

 

Íbis-preta (Plegadis falcinellus)Íbis-preta (Plegadis falcinellus) Lezíria Grande - VFX (10-12-2016)

15
Abr21

Atrás das grades

Apanhar aves para as colocar numa gaiola é um hábito ainda muito enraizado nas zonas mais rurais do nosso país. Fazemo-lo com pequenos passarinhos cujo canto nos deslumbra, mas também com outras aves que queremos ter puramente como ornamento, ou apenas porque... sim. Já o vi acontecer com pintassilgos, tentilhões, verdilhões, milheirinhas, rapinas, patos, perdizes, codornizes. Apesar de ser coisa que hoje me parece impensável e desprovida de qualquer lógica ou razão, em tempos eu próprio já pratiquei estes actos...

 

Pato-trombeteiro (Anas clypeata)Pato-trombeteiro (Anas clypeata) Espaço Interpretativo da Lagoa Pequena (19-03-2016)

 

Fizemo-lo a nós próprios, ao enfiarmo-nos em pequenas caixas de betão, aço e vidro e queremos fazê-lo a todas as outras espécies. Gaiolas, viveiros, cercados... barreiras atrás de barreiras, grades e mais grades... Porquê tentar cercear a liberdade de um ser selvagem, porquê desejar olhar para uma ave engaiolada, quando podemos ir até elas, quando é tão maior o gozo de as ver em liberdade, a interagirem com o seu meio?

Definitivamente, na sua incompreensível ignorância, o ser humano não consegue interiorizar que, atrás das grades, até a maior das belezas entristece, definha e morre...

09
Jan21

Almas emplumadas

Noite. Tempo de frio e breu, palco de malfeitorias e mistérios... reino de assombrações e horror. Como a humanidade sempre temeu aquilo que se esconde no escuro, não descansámos enquanto não encontrámos forma de o conquistar... criámos lâmpadas e candeeiros, munimo-nos de faróis e lanternas. Dentro de casa e até nas ruas, iluminámos a escuridão nocturna. Perdemos o medo, esquecemos os terrores...

Bem, quase todos... ainda hoje as criaturas que fazem a sua vida a coberto das trevas são mal vistas, mal compreendidas e injustificadamente temidas. Já aqui tive oportunidade de mostrar um pouco do mundo das borboletas nocturnas e de fazer referência aos morcegos (tema a que voltarei em breve), mas hoje falamos de aves.

Bufo-pequeno (Asio otus)Bufo-pequeno (Asio otus) Castro Verde (24-05-2020) / Vocalização: https://www.xeno-canto.org/552302

 

Tantas vezes associadas a bruxarias, ao azar ou a maus augúrios, as corujas devem ser dos animais sobre os quais mais mitos recaem. Por exempo, alguns povos africanos acreditam que estas aves trazem doenças às suas crianças, enquanto que no médio-oriente há quem acredite que estes bichos representam as almas dos que morreram e não foram vingados... diz-se mesmo que o seu avistamento prediz a morte de alguém. E até na Europa, principalmente até ao princípio do séc. 19, é possível encontrar esta associação aos espíritos, às bruxas e à morte. 

Coruja-do-nabal (Asio flammeus)Coruja-do-nabal (Asio flammeus) Vila Franca de Xira (28-12-2020) / Vocalização: https://www.xeno-canto.org/557487

 

Ainda assim, nem todos os mitos que rodeiam esta aves são macabros... na Grécia antiga, os mochos era vistos como um símbolo de justiça e sabedoria, sendo associados à deusa Athena e tendo a sua imagem sido adoptada por exércitos e até cunhada em moeda. Na Índia, no Japão e no Brasil, por exemplo, existem culturas que vêem estes animais como augúrios de boa sorte e fortuna. 

Mocho-galego (Athene noctua)Mocho-galego (Athene noctua) Ferreira do Alentejo (08-07-2020) / Vocalização: https://www.xeno-canto.org/584232

 

Também no nosso Portugal existe bastante folclore ligado a estes animais. Até na obra de um dos maiores nomes da nossa cultura podemos encontrar referências a uma destas belas aves:

“Pia, pia, pia
O mocho,
Que pertencia
A um coxo.
Zangou-se o coxo
Um dia,
E meteu o mocho
Na pia, pia, pia.”

Esta quadra do grande Fernando Pessoa, juntamente com outras estórias, pode ser encontrada num trabalho realizado pela associação ALDEIA, intitulado "As Rapinas Nocturnas na Cultura Popular Portuguesa - pequenas histórias".

Bufo-real (Bubo bubo)Bufo-real (Bubo bubo) Sintra (11-07-2020) / Vocalização: https://www.xeno-canto.org/603079

 

Mas o que têm estes animais de especial, para que sejam tema de tantas superstições? O que os torna um alvo tão apetecível para a capacidade inventiva da ignorância humana? Bem, o facto de serem aves essencialmente nocturnas será certamente um dos principais motivos... os seus olhos grandes, adaptados a ver no escuro, assombram-nos e o seu voo silencioso parece-nos fantasmagórico. Além disso, o facto de algumas espécies de mochos e corujas colonizarem edifícios abandonados, celeiros ou torres de igrejas excita a nossa imaginação supersticiosa. E o que dizer das suas vocalizações lúgubres, transportadas pelo frio escuro da noite? Quem não se arrepiaria ao escutá-las?

Mocho-pequeno-de-orelhas (Otus scops)Mocho-pequeno-de-orelhas (Otus scops) Penamacor (18-06-2017) / Vocalização: https://www.xeno-canto.org/548633

 

Mas então, afastando-nos um pouco das mitologias, porque é que estas aves apresentam estas características e comportamentos tão específicos?

Algumas espécies, como os mochos e as corujas-das-torres desenvolveram a capacidade de caçar em meios mais urbanizados. As actividades humanas atraem ratos e os ratos atraem estas aves. Portanto, celeiros e outras infraestruturas agrícolas são excelentes zonas de caça e, uma vez que se adaptaram à vida nestas zonas, onde arranjariam melhor protecção para descansar e até procriar do que em edificações abandonadas ou pouco visitadas? Dificilmente esta situação derivaria de ligação a espíritos ou bruxarias, mas antes de uma simples adaptação evolutiva... estes bichos aprenderam a usar-nos.

Quanto aos sons que emitem, as rapinas nocturnas não são (de longe) as únicas aves com vocalizações estranhas aos nossos ouvidos. Mas será que seriam assim tão assustadoras se escutadas durante o dia? O "miado" do mocho, ou o "uhh uhh" do bufo em pleno dia não têm o mesmo efeito em nós do que os mesmos sons ouvidos de noite... na verdade, é a nossa predisposição para o medo do escuro que nos causa os arrepios. As corujas vocalizam pelas mesmas razões que as outras aves. Não são almas a gritar no vazio... são avisos, chamamentos, marcação de território. Comunicação.

Mas e o voo silencioso? Nenhuma outra ave faz aquilo... só podem ser espíritos maléficos! Bem... não, nem por isso. A realidade é bastante mais interessante e complexa. A evolução levou a que estas aves desenvolvessem uma série de características e até estruturas específicas que ajudam a eliminar o som da turbulência do ar criada pelo bater das asas. Estes membros superiores são maiores em proporção com o peso do corpo, relativamente à maioria das outras aves. Isto permite-lhes um voo mais lento e menor número de batimentos de asa. Além do mais, as penas de voo (rémiges) possuem umas estruturas serrilhadas nos bordos que ajudam a quebrar a massa de ar que gera a turbulência. As diversas e menores correntes de ar assim criadas são depois amortecidas pelas penas que são mais aveludadas do que nos outros grupos de aves. Apesar de ainda haver muito para ser compreendido, existem já alguns estudos publicados com informação muito interessante sobre este assunto.

Quanto à razão que levou estes animais a desenvolverem este tipo de voo ao longo das eras, existem duas hipóteses principais em equação. A teoria da "caça furtiva" indicia que esta característica se deve à necessidade de aproximação sem que as presas se apercebam da sua presença. Já a teoria da "detecção de presas" indica que o voo silencioso serve essencialmente para ajudar as corujas a detectarem as suas presas através da audição. Estes animais têm uma audição extremamente apurada, que é auxiliada pelo seu característico disco facial, actuando quase como uma antena parabólica.

A investigadora da Universidade da Califórnia, Krista Le Piane, tem vindo a estudar estas duas hipóteses, na tentativa de compreender qual delas, se é que alguma, explica a evolução desta característica específica. Ao que parece, as espécies que caçam insectos ou peixes têm menos estruturas insonorizantes, por comparação com as que caçam mamíferos. O mesmo acontece em relação às espécies que caçam exclusivamente de noite, por comparação com as que também caçam de dia. A sua equipa de investigação tem percebido que estas evidências corroboram ambas as hipóteses, dependendo de cada espécie.

Tudo isto é bastante mais interessante do que as explicações esotéricas, diria eu...

Coruja-das-torres (Tyto alba)Coruja-das-torres (Tyto alba) VFX (28-12-2020) / Vocalização: https://www.xeno-canto.org/611761

 

Já os seus olhos, grandes em relação ao tamanho da ave, são outra fantástica adaptação. Embora o seu funcionamento geral seja semelhante aos nossos próprios olhos, existem algumas diferenças que ajudam a tornar possível a visão nocturna. Estes orgãos não são globos oculares, como os nossos, mas sim estruturas tubulares... daí que as corujas não consigam mover os olhos. Tal como nós, as corujas possuem dois tipos de receptores, que captam a luz que passa pelas pupilas. Os receptores cónicos permitem ver a cores, mas apenas funcionam bem quando há muita luz. Já os cilíndricos só permitem uma visão monocromática, mas são muito eficientes mesmo em baixas condições de luminosidade.

Ao contrário de nós, as corujas possuem uma muito maior quantidade de cilindros do que de cones, o que implica que não têm uma grande capacidade de distinguir cores, mas conseguem aproveitar bastante melhor as menores quantidades de luz. É essencialmente isto que, associado ao facto do seus enormes olhos captarem melhor a luz, lhes permite ver no "escuro". Estas aves possuem ainda uma outra estrutura, uma espécie de "espelho", chamada de tapetum lucidum. Quando a luz passa pelos receptores, incide neste espelho e é reflectida de volta para eles. Isto dá-lhes a uma segunda hipótese de aproveitarem cada pedacinho de luz disponível. 

Coruja-do-mato (Strix aluco)Coruja-do-mato (Strix aluco) Setúbal (26-12-2020) / Vocalização: https://www.xeno-canto.org/599710

 

Mas as corujas não são as únicas aves que podemos encontrar pela noite fora...

Os misteriosos Noitibós (ocorrem duas espécies no nosso país) são outro grupo de aves que, devido aos seus hábitos, tende a escapar ao conhecimento comum e, portanto, a dar origem a mitos. A aura de mistério é tão forte em volta destes bichos que foi até homenageada pelos cientistas quando atribuiram um nome à ordem à qual pertencem: Caprimulgiformes.

Caprimulgus, em latim, pode ser traduzido por ordenha-cabras. Isto é algo que nos parece estranho, mas não mais do que isso. Já na América um dos nomes pelos quais estas aves são conhecidas é "goatsuckers" ou, traduzindo... chupa-cabras. Terá ligação com o outro famoso mito? Não consegui averiguar.

A lenda por trás deste nome terá, ao que parece, origens anteriores aos tempos de Aristóteles. Estas aves seriam possivelmente atraídas pelos insectos que frequentavam os terreiros onde as cabras dormiam. Devido ao seu hábito de poisar em terreno limpo (provavelmente junto ao gado) e ao seu perfil baixo e longilíneo, de cabeça meio levantada, seria fácil ao homem antigo assumir que lhes estavam a sugar o leite. Mais, tendo abatido algum e constatado que possuem um bico minúsculo e uma enorme boca, que outra conclusão se poderia tirar que não a de que aquela boca seria própria para mamar nas tetas das cabras? Possivelmente nunca se pensou que serviria para ingerir insectos... isso seria parvo.

Deixo-vos um interessante artigo sobre o folclore acerca destes bichos.

Noitibó-de-nuca-vermelha (Caprimulgus ruficollis)Noitibó-de-nuca-vermelha (Caprimulgus ruficollis) Vila nova de Milfontes (18-08-2019) / Vocalização: https://www.xeno-canto.org/567036

 

Então e nos dias de hoje, em que poucos de nós possuem cabras, o que há a temer em relação a estas curiosas aves? Na realidade nada, mas... a escuridão silenciosa da noite não cessa de nos pregar partidas.

Raramente são vistas de dia, altura na qual estão a descansar, muito por culpa da sua plumagem críptica. E durante a noite? Bem... são mais vezes escutados do que vistos. As vocalizações destas aves são, aos nossos ouvidos, completamente alienígenas. Aquele som não pode vir de uma ave... é impossível! E aquele bater palmas a ecoar na noite, poderá vir de algo que não de uma qualquer alma penada? Poderá vir do voo de exibição de um noitibó, do hábito de bater com as asas uma na outra, fazendo o som de "bater palmas"? Nah, isso não faria sentido...

Quando são efectivamente vistos, encontramo-los poisados numa qualquer estrada de terra batida, ou vemos a sua forma rápida, esguia e escura a passar em voo, com os seus grandes olhos a brilhar perante os faróis do automóvel e uns pontos iluminados na cauda e nas asas. E se, ao mesmo tempo, os ouvirmos a vocalizar e até a bater palmas... Cruzes canhoto! Almas penadas! Emissários do Mafarrico! Vade retro!

Noitibó-cinzento (Caprimulgus europaeus)Noitibó-cinzento (Caprimulgus europaeus) Almada (16-07-2020) / Vocalização: https://www.xeno-canto.org/611749

 

A melhor forma de abandonarmos os nossos medos, por primitivos e irracionais que sejam, é através do conhecimento. Observando e estudando um pouco sobre o mundo que nos rodeia podemos compreender aquilo que nos assusta, que nos causa apreensão ou repulsa. Todas estas aves nocturnas têm pouco de obscurantismo. São antes animais fantásticos, possuidores de magníficas adaptações evolutivas e é, na verdade, um verdadeiro privilégio conseguir observá-los.

 

Nada na vida deve ser temido, somente compreendido. Agora é hora de compreender mais para temer menos.

Marie Curie

01
Jan21

2020 aos olhos de um naturalista

Há cerca de um ano atrás era reportado o primeiro caso de uma doença que viria a mudar as vidas de todos nós. Os meses seguintes foram um corrupio de estudos científicos, noticiários sensacionalistas, pânico social, açambarcamento de papel higiénico, teimosias negacionistas e jogos políticos. Veio o distanciamento social, foram introduzidas as máscaras e o álcool-gel, chegou o confinamento... a nossa sanidade mental e a nossa resistência à depressão foram testadas ao limite. Quando finalmente pudemos sair de casa, fomos trabalhar e visitar a família, fomos à praia e aos restaurantes, mas sempre limitados por restrições antes impensáveis. Nada de abraços e beijinhos, pois o distanciamento é para manter, higienizar as mãos N vezes ao dia e usar papeis para tocar nos objectos, pois o "bicho" anda aí e é invisível... e assim o "novo normal" instalou-se nas nossas vidas e nas nossas mentes. Hoje, as omnipresentes máscaras têm a dupla função de nos proteger e de disfarçar a profunda frustração que apenas os nossos olhos teimam em denunciar.

Poucos haveria entre nós que não estivessem ansiosos que o anno horribilis terminasse... afinal, todos sentimos que foram 12 meses perdidos em que nada ou quase nada pudemos fazer. Ou não será bem assim?

Bem, os profissionais de saúde e os cientistas tiveram, infelizmente, um ano cheio. A eles devemos sincera gratidão pelo que trabalharam e pelo que sacrificaram pelo bem de outrem. O comum "Zé", no entanto, ficou por casa... trabalhou quando possível, viu séries, fez pão caseiro, leu livros e falou com família e amigos pela net. Pouco mais lhe foi permitido fazer. Os famosos "passeios higiénicos" foram permitindo o arejamento das cabeças e foi durante o confinamento que se começou a notar uma curiosa tendência: o medo dos espaços fechados trouxe muito mais gente para a natureza.

Mas... e aqueles que já antes passavam os seus tempos livres na natureza? Bem, não posso falar pelos outros, mas eu aproveitei o máximo que pude.

https://www.inaturalist.org/

https://www.inaturalist.org/stats/2020/draposo79#sharing

Durante os meses de confinamento, acabei por passar muito tempo "em casa" com pouco para fazer, uma vez que as minhas funções profissionais não se adequam ao teletrabalho. Como as deslocações estavam proibidas, comecei a aproveitar os passeios higiénicos para explorar todo e qualquer espaço natural em redor de casa. Apesar da maior perturbação devido à presença de mais pessoas, acabei por descobrir uns recantos interessantíssimos, tal como descrevi aqui. Com o desconfinamento, voltei a poder fazer as minhas saídas mais longas e a explorar um pouco outras zonas do país.

Ainda que tenha sido obrigado a cancelar alguns projectos, como uma exploração ao Planalto do Barroso na primavera, 2020 acabou por ser um dos meus melhores anos a nível ornitológico... logrei observar 259 espécies de aves. Quanto à minha faceta naturalista mais genérica, tal como o gráfico acima indica, no total efectuei registos fotográficos de 865 espécies, entre animais, plantas e fungos. Esta forma de passar os tempos livres (chamem-lhe hobbie, passatempo, pancada, nerdice, ou o que quiserem) acabou, em grande medida, por me ajudar a suportar um ano terrivelmente difícil de digerir a tantos outros níveis.

Como corolário para tudo isto, tive o privilégio de passar penúltimo dia do ano numa incursão assaz proveitosa por terras alentejanas, recheada de fantásticas observações. Uma excelente maneira de terminar o ano...

Bufo-pequeno (Asio otus) Castro Verde (30-12-2020)Corvo (Corvus corax) Castro Verde (30-12-2020)
Cisne-mudo (Cygnus olor) Castro Verde (30-12-2020)Grifo (Gyps fulvus) Castro Verde (30-12-2020)
Bufo-pequeno (Asio otus) Castro Verde (30-12-2020)Águia-real (Aquila chrysaetos) Castro Verde (30-12-2020)
Milhafre-real (Milvus milvus) Castro Verde (30-12-2020)Abetarda (Otis tarda) Castro Verde (30-12-2020)
Bufo-pequeno (Asio otus) Castro Verde (30-12-2020)Sisão (Tetrax tetrax) Castro Verde (30-12-2020)
Águia-imperial-ibérica (Aquila adalberti) Castro Verde (30-12-2020)Cortiçol-de-barriga-preta (Pterocles orientalis) Castro Verde (30-12-2020)

 

Neste ano que agora entra, aventurem-se, explorem a natureza, usufruam dela, mas acima de tudo respeitem-na e protejam-na. 2020 deu-nos a prova de que, quando as coisas correm mal no nosso mundinho de cimento e vidro, é ela que nos acolhe...

Castro Verde (30-12-2020)

Bom 2021!

 

 

04
Set20

Falsa liberdade

Há uns tempos, fui desafiado pela autora do blogue Liberdade aos 42 para escrever umas linhas sobre a liberdade. Isto foi o que "saiu"...

Águia-cobreira (Circaetus gallicus) IBA São Cristovão e Cabrela (25-04-2016) (8).JPG

Não creio, no sentido filosófico do termo, na liberdade do homem. Todos agem não apenas sob um constrangimento exterior mas também de acordo com uma necessidade interior.

Einstein

 

A expressão popular “livre como um pássaro” dá a entender que as aves são animais verdadeiramente livres, pois podem voar e estão libertas de convenções sociais limitadoras, como limites administrativos ou políticos. No entanto a sua liberdade não é absoluta… tal como quaisquer outros seres vivos, as aves estão sujeitas a imperativos biológicos e evolutivos. As suas vidas decorrem guiadas por condicionalismos como a necessidade de procriar, de migrar ou de proteger um território.

Já a humanidade tem tentado “evoluir” de forma a superar as suas necessidades primárias enquanto seres biológicos. Conseguimo-lo parcialmente, abandonando os nossos instintos, substituindo-os por preceitos sociais e morais, criando leis, regras e tabus. Libertámo-nos da nossa necessidade de migrar, aprendendo a moldar o ambiente aos nossos desígnios e criámos figuras de “autoridade”, como a polícia e os tribunais, para que cada um de nós não sinta a necessidade de defender o seu próprio território. A tudo isto ainda somámos uma nova dimensão: os anseios da “alma”… uma amarra muito pessoal, que condiciona de forma dramática o sentido de felicidade de cada um de nós.

 A nossa evolução enquanto espécie pode ter-nos granjeado um lugar semi-divino na ordem das coisas, mas levou-nos a trocar uns poucos grilhões biológicos por uma imensidão de prisões morais, legais, emocionais e filosóficas. Teremos realmente ganho algo com isso? 

 

Liberdade? Não… tal como o Albert, não acredito na liberdade do homem.

10
Ago20

Fazer ciência a brincar

Fazer observação de natureza implica passar muito tempo no campo. A sós ou acompanhados, aqueles que são apaixonados por esta actividade acabam por ter o privilégio de presenciar cenas de vida selvagem que a maioria das pessoas "comuns" apenas vê nos documentários na televisão.

Entre estes privilegiados, uns têm uma perspectiva artística sobre aquilo que observam na natureza, alguns enveredam por um caminho filosófico ou espiritual, enquanto outros seguem uma visão mais científica, alguns têm até uma aproximação brincalhona e há também aqueles que misturam um pouco de tudo isto... o que importa na realidade é que cada um retire as ilacções, os conhecimentos e a satisfação que mais se adequa à sua forma de ver a natureza.

Concretizando a sua paixão na tentativa de conseguir a foto mais perfeita, os "fotógrafos de natureza" dividem a sua atenção entre a compreensão da arte fotográfica (a luz, os enquadramentos, a exposição) e o conhecimento sobre os seus "motivos". Com o advento da fotografia digital, esta actividade sofreu um autêntico boom e hoje proliferam pela Internet bonitos retratos de bichos...  mas aquele momento especial ou aquele comportamento inaudito registados com excelente qualidade de imagem e real dimensão artística são ainda prémios ao alcance de muito poucos. Estes parcos verdadeiros fotógrafos de natureza são de facto uma classe à parte. Seja como for, dificilmente veremos qualquer uma destas pessoas no campo sem uma câmara na mão... a imagem é a sua vida.

Mais preocupados com o conhecimento científico sobre o mundo natural, os chamados "observadores" concentram as suas energias em compreender aquilo que observam. Que espécies de aves há em determinado local? Quantos indivíduos existem? Quando e porque estão ali presentes? Como se comportam e qual a razão ou significado dos seus comportamentos? Como interagem com o meio? O seu equipamento essencial é materializado num par de binóculos e num bloco de notas (hoje muitas vezes substituído pelo smartphone), mas é muito comum vê-los carregando às costas um telescópio e também... uma câmara fotográfica. Embora até estas pessoas dêem importância à recolha de imagens, o seu foco não é esse e é comum que os resultados sejam sofríveis, apenas meros registos da presença da espécie fotografada.

Confesso que pertenço a este último grupo. Geralmente sozinho, algumas vezes acompanhado por um restrito grupo de "correligionários", ando pelos matos a identificar, contar e registar aves e outros seres vivos. Gosto de obter conhecimento sobre os bichos que observo, seja ele empírico, através da observação directa ou mais académico, utilizando livros e guias.

O meu equipamento fotográfico é fraco, o meu conhecimento de fotografia é limitado e a minha sensibilidade artística é quase nula. Como tal, as minhas fotos são sofríveis e os meus vídeos são demasiado amadores. Ainda assim, vou tentando usá-l@s para transmitir um pouco de conhecimento e, porque não, causar uns sorrisos. 

Ciência cidadã, é o péssimo nome que dão aos dados que vão sendo recolhidos por pessoas como eu. Ainda assim é ciência e, como tal, deve ser levada a sério, não é? Beeeeem... sim, a nossa actividade contribui um pouquinho para a ciência, mas isso não implica que não estejamos ali para nos divertirmos.  

Como em tantas outras actividades, é importante não nos levarmos demasiado a sério. Um olhar crítico e bem humorado é essencial para que um hobbie não passe a ter o peso de um trabalho. Afinal, a vida deve ser levada com leveza e, para nerds como eu, nada é mais divertido do que fazer ciência... a brincar. 

(PS: vejam os vídeos com som e em 1080p HD, ficam menos maus assim)

 

27
Fev18

Amigos da "vida alada"

Embora sempre tenha tido um interesse especial pelas aves e já colabore em censos da Spea desde 2012, apenas há pouco mais de dois anos resolvi fazer da observação o meu passatempo de eleição. 

 

Como tenho o meu "quê" de anti-social e gosto de andar pelos matos sozinho, nunca foi minha ideia fazer disto um hobbie de grupo. Ainda assim, em qualquer actividade que pratiquemos torna-se inevitável conhecermos pessoas com os mesmos gostos... colegas ou "correligionários". Dessas pessoas, algumas (a maioria) passam sem deixar grandes marcas, enquanto outras acabam por se tornar algo mais. 

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Passeios de barco no mar alto; dormidas em casas que parecem fornos; aturar idiotas debaixo do sol algarvio; explorar serras, rios e matas; jogos de matraquilhos só com uma mão; sofrer ondas de calor seguidas de queda de granizo; jantaradas até às tantas (para de seguida ter de acordar ao nascer do sol); gozar com as parvoíces uns dos outros (cara-a-cara); fugir ao calor debaixo de aspersores da relva; adoptar um "photography" como mascote; apreciar balcões de café... 

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Muitas aves observadas (a maioria identificadas, algumas por identificar); o Tejo, o Sado e o Guadiana; as lezírias, a frente marítima de Almada, a baía do Seixal, o Parque da Paz, Sagres e as beiras; momentos National Geographic que nos deixaram com aquela musiquinha na cabeça - "tatatatara tatatatara tatatatarara" - e a sensação de estar a viver um daqueles documentários de domingo à tarde; censos, observações e contagens; listas, listinhas e listeirinhos; aves raras, comuns, fatelas e lixo; fotografias, telescópios e as discussões sobre ambos... estas e tantas outras aventuras vividas não na companhia de qualquer um, mas entre amigos.

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Dois grandes anos de maluqueiras, sempre com as aves como pano de fundo. Venham os próximos!

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27
Set17

Testemunho de uma vida ephemera

A natureza oferece-nos constantes lições de adaptação, perseverança e superação... mas também nos presenteia com exemplos de delicadeza e fragilidade.

 

Este pequeno animal pertencente à ordem Ephemeroptera e é o único insecto que, passando por uma metamorfose incompleta, apresenta um estágio intermédio (subimago) de duração raramente superior a 24h, em que - apesar de ainda imaturo sexualmente - possui asas perfeitamente funcionais.

 

Ao contrário da sua fase larvar (ninfa) que pode durar vários anos, os adultos (imago) vivem vidas extremamente curtas, variando entre 5 minutos e um par de dias (conforme a espécie a que pertençam) e nunca se alimentarão, pois apenas dispõem de bocas vestigiais. O seu único objectivo é a reprodução.

 

Esta frágil criatura "decidiu" passar uma boa parte da sua vida adulta na porta do meu carro, permitindo-me um vislumbre da sua delicada beleza e, despertando em mim a natureza filosófica do ser humano, proporcionou-me a contemplação da sua (e da minha própria) efemeridade.

Efémera (Ephemera glaucops)Efémera (Ephemera glaucops) Barragem de Morgavel - Sines (23-09-2017)

19
Jul17

Walking Out of the Path

Alguma vez te sentiste confuso quando o caminho à tua frente é recto e claro? Alguma vez te sentiste uma marioneta sem vontade própria? Alguma vez te sentiste perdido quando pensavas estar a seguir um rumo definido? Chegará uma altura de cortar os fios, cerrar dentes e ter a coragem de sair do caminho... Arrisca abandonar o rumo traçado. Explora, erra, tenta de novo... Vagueia... Vive.

 
Aprende aquilo que os que nos seguram as rédeas não querem que descubras: nesta vida, "nem todos os que vagueiam andam perdidos"!
 

Bosque Lusitano (10-03-2016).JPGParque Luso - Corroios (2013)

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