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bicho do mato

Aqui fala-se de natureza, aves, bichos em geral e do que mais me passar pela cabeça

bicho do mato

Aqui fala-se de natureza, aves, bichos em geral e do que mais me passar pela cabeça

04
Ago21

Impactos e Interacções - Bigfoot

O impacto que as nossas actividades têm sobre a natureza aumenta a cada ano que passa. O consumo desenfreado leva a um excesso de resíduos e quem paga a factura são as aves, os peixes, as plantas... Urge tomar consciência e fazer os possíveis para reduzir a nossa pegada ecológica que, neste momento, é titânica.

 

Rola-do-mar (Arenaria interpres) Costa de Caparica (02-05-2016) (1).JPGRola-do-mar (Arenaria interpresCosta da Caparica - Almada (02-05-2016)

05
Mai21

Onde observar: Seixal - Ponta dos Corvos

A Ponta dos Corvos é uma restinga que separa o leito do rio Tejo das águas mais interiores do Sapal de Corroios. Pertencente ao concelho do Seixal, este pedacinho de terra detém bastante importância histórica, pois ali se estabeleceu, em 1947, a chamada Fábrica Atlântica de Seca de Bacalhau. Com uma área de aproximadamente 40 ha e cerca de 600 trabalhadores, esta era a maior fábrica deste tipo na região. Encerrada desde o ínicio dos anos 90, todas as suas infraestruturas, bem como os moinhos de maré nas proximidades, encontram-se hoje completamente entregues ao degredo.

Mas os valores históricos não são os únicos, nem (na minha óptica) os mais importantes valores desta zona. O Sapal de Corroios é um importantíssimo refúgio de vida selvagem, infelizmente também ele completamente ignorado pelo poder autárquico.

Ponta dos CorvosNascer do sol na Ponta dos Corvos (05-12-2015)

 

Apesar de massacrada com a grande quantidade de lixo por ali deixada e com uma perturbação relativamente constante, a biodiversidade deste local ainda é assinalavelmente interessante. Ali podemos encontrar várias espécies de plantas, bastantes insectos, alguns répteis e, claro, muitas aves. Entre estas últimas, sem dúvida que a mais vistosa é o flamingo-rosado.

Flamingo-rosado (Phoenicopterus roseus)Flamingo-rosado (Phoenicopterus roseus) (03-04-2017)

 

Mas a avifauna deste local não é composta apenas pelos pernaltas cor-de-rosa, é muito mais diversa e interessante. No inverno, as aves aquáticas e limícolas dominam a paisagem, pois encontram ali excelentes condições para descansar e procurar alimento. Desde os corvos-marinhos que eu pensava que fossem a razão do nome deste local (informação entretanto corrigida pelo Sr. Manuel da Costa, nos comentários abaixo), passando pelas garças, tarambolas, patos, pilritos, maçaricos, gaivotas, rolas do mar... podemos observar bandos de centenas ou milhares de aves, miríades de pequenos corpos emplumados que se deslocam, ao ritmo das marés, entre os lodos expostos pela baixa-mar e a vegetação que lhes serve de poiso durante a preia-mar.

Ganso-do-egipto (Alopochen aegyptiacus) (03-04-2021)Garça-branca-pequena (Egretta garzetta) (02-04-2021)Pilrito-comum (Calidris alpina) (10-01-2021)Rola-do-mar (Arenaria interpres) (10-01-2021)Perna-vermelha-comum (Tringa totanus) (10-01-2021)Borrelho-grande-de-coleira (Charadrius hiaticula) (08-12-2020)Colhereiro (Platalea leucorodia) (28-11-2020)Tarambola-cinzenta (Pluvialis squatarola) (21-11-2020)Maçarico-real (Numenius arquata) (21-11-2020)Carraceiro (Bubulcus ibis) (15-11-2020)Tadorna (Tadorna tadorna) (06-05-2020)Gaivota-de-cabeça-preta (Ichthyaetus melanocephalus) (28-09-2019)Maçarico-das-rochas (Actitis hypoleucos) (07-01-2018)Pilrito-das-praias (Calidris alba) (01-11-2017)Borrelho-de-coleira-interrompida (Charadrius alexandrinus) (01-11-2017)Perna-verde-comum (Tringa nebularia) (14-01-2017)Pernilongo (Himantopus himantopus) (14-05-2016)Maçarico-galego (Numenius phaeopus) (28-04-2016)Pato-real (Anas platyrhynchos) (19-03-2016)Corvo-marinho-de-faces-brancas (Phalacrocorax carbo) (21-02-2016)Garça-real (Ardea cinerea) (21-02-2016)Alfaiate (Recurvirostra avosetta) (05-12-2015)

 

Esporadicamente até por ali aparece alguma ave mais incomum ou mesmo rara. Não fosse a constante presença humana, a localização privilegiada deste local iria possivelmente atrair ainda mais destas aves.

Ganso-de-faces-pretas (Branta bernicla)Ganso-de-faces-pretas (Branta bernicla) (15-11-2020)

 

Outras aves, passeriformes e não só, frequentam as praias, os pastos, as ruínas e a vegetação de sapal. Várias espécies aparecem por ali na migração, como chascos e picanços, outras ficam para o inverno, como as petinhas, as lavercas e o pisco-de-peito-azul. Também há as que ali nidificam, como a poupa, o rabirruivo e o cartaxo. Se olharmos com atenção, podemos encontrar um variado leque de formas, cores e cantos...

Poupa (Upupa epops) (02-04-2021)Laverca (Alauda arvensis) (28-02-2021)Pega-rabuda (Pica pica) (30-11-2020)Petinha-dos-prados (Anthus pratensis) (01-11-2020)Fuinha-dos-juncos (Cisticola juncidis) (28-09-2019)Cartaxo-comum (Saxicola rubicola) (01-11-2017)Gralha-preta (Corvus corone) (19-11-2016)Toutinegra-do-mato (Sylvia undata) (19-11-2016)Felosinha (Phylloscopus collybita) (27-10-2016)Cotovia-de-poupa (Galerida cristata) (27-10-2016)Chasco-cinzento (Oenanthe oenanthe) (27-10-2016)Pisco-de-peito-azul (Luscinia svecica) (27-10-2016)Pisco-de-peito-ruivo (Erithacus rubecula) (19-10-2016)Papa-moscas-cinzento (Muscicapa striata) (28-08-2016)Pardal (Passer domesticus) (20-07-2016)Toutinegra-dos-valados (Sylvia melanocephala) (14-05-2016)Picanço-real (Lanius meridionalis) (28-04-2016)Melro-preto (Turdus merula) (23-04-2016)Picanço-barreteiro (Lanius senator) (23-04-2016)Andorinha-das-chaminés (Hirundo rustica) (21-02-2016)Torcicolo (Jynx torquilla) (15-11-2020)Perdiz-vermelha (Alectoris rufa) (01-11-2017)
 

Mas estas aves, sejam elas aquáticas ou terrestres, não estão totalmente seguras e protegidas. Várias rapinas frequentam este recanto, em busca de presas. Se algumas se alimentam de insectos e pequenos vertebrados - ou até de peixe - outras tiram partido da fantástica quantidade de presas emplumadas que por ali existem. A águia-d'asa-redonda é comum ali, durante todo o ano, o falcão-peregrino também pode ser visto com frequência, bem como o peneireiro-vulgar. Também a icónica águia-pesqueira passa ali o inverno, usufruindo da abundância de poisos seguros no meio do sapal para devorar os peixes que captura nas águas do Tejo. Estas, entre algumas outras aves de rapina, constituem o topo da cadeia alimentar deste ecossistema.

Falcão-peregrino (Falco peregrinus)Falcão-peregrino (Falco peregrinus brookei) (02-02-2020)

Águia-sapeira (Circus aeruginosus) (02-01-2021)Coruja-do-nabal (Asio flammeus) (13-12-2020)Peneireiro-cinzento (Elanus caeruleus) (01-11-2017)Águia-pesqueira (Pandion haliaetus) (14-01-2017)Peneireiro-vulgar (Falco tinnunculus) (21-02-2016)Águia-d'asa-redonda (Buteo buteo) (21-02-2016)

 

Mais abaixo, numa posição muito ingrata da cadeia alimentar, podemos observar por ali vários invertebrados, como gafanhotos e borboletas, alguns pequenos répteis e os sempre presentes caranguejos, nas zonas banhadas pelo rio. Pequenos e geralmente bem camuflados, estes bichos requerem a nossa melhor atenção, se os queremos encontrar. Mas vale a pena...

Lagarta de Trifoli (Lasiocampa trifolii) (03-04-2021)Besouro (Scarites cyclops) (03-04-2021)Caranguejo-verde (Carcinus maenas) (15-11-2020)Formiga-leão (Creoleon sp.) (26-05-2020)Mariposa (Diasemiopsis ramburialis) (26-05-2020)Esperança (Platycleis sp.) (26-05-2020)Moscardo (Dasypogon sp.) (26-05-2020)Neuróptero‑das‑duas-penas (Nemoptera bipennis) (26-05-2020)Larva de joaninha-de-sete-pintas (Coccinella septempunctata) (06-05-2020)Percevejo (Calocoris roseomaculatus) (06-05-2020)Mariposa (Idaea ochrata) (06-05-2020)Douradinha-do-arco (Thymelicus acteon) (06-05-2020)Cobra-de-pernas-tridáctila (Chalcides striatus) (06-05-2020)Lagartixa-verde (Podarcis virescens) (08-05-2017)

 

Também o coberto vegetal é interessante e até demasiado variado para os meus parcos conhecimentos. Assim, qualquer pessoa que por ali caminhe certamente encontrará uma ou outra plantinha mais vistosa, nem que sejam apenas aquelas cujas flores coloridas imediatamente nos chamam a atenção.

Cistanche (Cistanche phelypaea) (03-04-2021)Silene (Silene nicaeensis) (03-04-2021)Papoila (Papaver rhoeas) (03-04-2021)Goivo-da-praia (Malcolmia littorea) (02-04-2021)Jacinto-das-searas (Leopoldia comosa) (02-04-2021)Erva-gorda (Arctotheca calendula) (02-04-2021)Erva-vassoura (Phelipanche nana) (02-04-2021)Tremoço-azul (Lupinus angustifolius) (13-03-2021)Tomilho (Thymus sp.) (26-05-2020)Arméria (Armeria pungens) (06-05-2020)Erva-pinheira-enxuta (Petrosedum sediforme) (06-05-2020)Ansarina-dos-campos (Linaria spartea) (06-05-2020)
Alho-pôrro (Allium ampeloprasum) (06-05-2020)Botão-azul (Jasione montana) (06-05-2020)

 

As actividades de veraneio desregradas, a enorme quantidade de lixo deixada pelos mariscadores, a falta de fiscalização às actividades lúdicas como a canoagem ou o stand-up paddle, a falta de civismo em geral das pessoas que usufruem deste fantástico espaço, estão a pôr em perigo aquele que é, provavelmente, o maior valor natural deste concelho. Diz-se até que há planos para dinamizar e modernizar as praias da Ponta dos Corvos... a forma como isto será levado a cabo poderá vir a colocar (ou não) ainda mais pressão humana sobre o sapal.

Urge repensar a forma como vemos e utilizamos os nossos espaços naturais, tal como urge exigir às autarquias que protejam e cuidem destes frágeis paraísos. Isto se quisermos que as crianças do futuro ainda possam deslumbrar-se com a delicadeza dos flamingos e maravilhar-se com o voo rasante de um bando de milhares de limícolas... não num zoo, não num qualquer documentário da BBC, mas sim ali, quase à porta das nossas casas.

26
Mar21

Onde observar: Seixal - Parque Urbano da Quinta da Marialva

O concelho do Seixal tem alguns locais com excelentes condições para a Observação de Natureza, principalmente ao nível da avifauna. Desde que tomei residência no concelho, tenho vindo a explorar alguns destes locais com o intuito de ir registando e inventariando a biodiversidade que por aqui encontro. O resultado dos meus esforços, bem como dos esforços de muitas outras pessoas, pode ser verificado num projecto na plataforma iNaturalist, que já conta com mais de 9000 observações de cerca de 1400 espécies, registadas por mais de 160 observadores:

https://www.inaturalist.org/projects/biodiversidade-do-seixal

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Junto a Santa Marta do Pinhal existe o Parque Urbano da Quinta da Marialva, uma zona de lazer equipada com um circuito de manutenção, um parque geriátrico, um percurso pavimentado, vários relvados, um campo de basquetebol, um campo pelado de futebol, um parque infantil, uma zona de churrascos, um anfiteatro ao ar livre com palco para concertos e um pavilhão multiusos. Aqui ocorrem alguns eventos como a "Mostra de actividades económicas" (vulgo feira) mensal, as Festas de Corroios, ou a Feira Medieval de Corroios. Este parque é utilizado diariamente por dezenas de pessoas para fazer desporto, passear os cães, brincar com as crianças ou simplesmente passear e apanhar sol.

Não se pode dizer que seja um local com grandes valores naturais, uma vez que, tal como a maioria dos jardins no Seixal, é bastante insípido e despido de vegetação, mantendo apenas algumas árvores de médio/grande porte e uns poucos arbustos. Tem, no entanto, uma vala de escoamento de águas pluviais que consegue ser suporte para um ecossistema interessante e variado.

 

Bico-de-lacre (Estrilda astrild)Bico-de-lacre (Estrilda astrild) (13-10-2016)

Ao nível da avifauna, este parque tem 62 espécies registadas, sendo a maioria aves comuns que podem ser encontradas em qualquer outro parque ou jardim. Na vala facilmente encontraremos os exóticos bicos-de-lacre, fuinhas-dos-juncos, uma ocasional carriça, talvez uma alvéola ou duas e até um casal de patos-reais. Nos relvados pululam os melros e as invernantes petinhas-dos-prados, aparece uma cotovia de vez em quando, circulam os inevitáveis pardais e os estridentes estorninhos, em busca de vermes para se alimentarem. As árvores dão abrigo a piscos, pintassilgos, milheirinhas, gaios, trepadeiras, chapins e uma série de outros passeriformes.

Fuinha-dos-juncos (Cisticola juncidis) (26-09-2020)Lugre (Spinus spinus) (15-03-2020)Alvéola-cinzenta (Motacilla cinerea) (04-11-2017)Petinha-dos-prados (Anthus pratensis) (04-11-2017)Alvéola-amarela (Motacilla flava) (21-10-2017)Chasco-cinzento (Oenanthe oenanthe)(11-10-2017)Papa-moscas-cinzento (Muscicapa striata) (11-10-2017)Papa-moscas-preto (Ficedula hypoleuca) (11-10-2017)Gaio (Garrulus glandarius) (18-06-2017)Carriça (Troglodytes troglodytes) (01-04-2017)Andorinha-das-Chaminés (Hirundo rustica) (01-04-2017)Estorninho-preto (Sturnus unicolor) (01-04-2017)Cotovia-de-poupa (Galerida cristata) (01-04-2017)Melro-preto (turdus merula) (28-02-2017)Felosinha (Phylloscopus collybita) (25-02-2017)Pisco-de-peito-ruivo (Erithacus rubecula) (29-11-2016)Tentilhão-comum (Fringilla coelebs) (15-11-2016)Toutinegra-de-cabeça-preta (Sylvia melanocephala) (15-11-2016)Pardal (Passer domesticus) (15-11-2016)Milheirinha (Serinus serinus) (15-11-2016)Verdilhão (Carduelis chioris) (15-11-2016)Alvéola-branca (Motacilla alba) (27-10-2016)Gralha-preta (Corvus corone) (19-10-2016)Trepadeira-comum (Certhia brachydactyla) (19-10-2016)

Toutinegras, andorinhas, felosinhas, verdilhões, gralhas, tentilhões, chascos-cinzentos, papa-moscas, taralhões... uns no inverno, uns no verão, alguns apenas de passagem na migração e outros todo o ano. Para quem quiser andar de "olhos abertos", há sempre um espectáculo colorido para ver.

 

Periquito-comum (Melopsittacus undulatus)Periquito-comum (Melopsittacus undulatus) (25-02-2017)

E uma das mais coloridas aves que por ali costumavam andar era esta pequena periquita, escapada de alguma gaiola. Observei-a durante uns dois anos, até que deixei de a ver. Qual terá sido o seu destino?

Outras aves menos exuberantes vivem por ali as suas vidas calmas. A maioria de nós não olha duas vezes para um pombo-doméstico ou para uma rola-turca, mas não deixam de ter a sua beleza...

Rola-turca (Streptopelia decaocto) (15-11-2016)Pombo-das-rochas-doméstico (Columba livia) (19-10-2016)

 

Há no entanto aves que, apesar de comuns, não passam despercebidas. O rabirruivo-preto é uma dessas aves, pelo descaramento com que se aproxima de nós humanos, chegando mesmo a reclamar para si partes das nossas casas... esta ave tem o hábito de se aproveitar de recantos, caixas de estores, buracos nas paredes, ou qualquer zona nas nossas casas que lhe possa servir de suporte para o ninho. O que talvez algumas pessoas não saibam é que este passarinho tem um "primo" que nos visita raras vezes, quando em migração para África. O rabirruivo-de-testa-branca foi uma das maiores surpresas que já encontrei na Marialva.

Rabirruivo-de-testa-branca (Phoenicurus phoenicurus) (04-11-2017)Rabirruivo-preto (Phoenicurus ochruros) (01-04-2017)

 

Mas a maior surpresa foi outra. Duas aves das terras nórdicas que resolveram descer pela Península Ibérica e vir passar uns dias à Quinta da Marialva. Esta foi a única vez que observei esta espécie que é, para mim, o mais bonito dos tordos que ocorrem no nosso território:

Tordo-zornal (Turdus pilaris)

Tordo-zornal (Turdus pilaris)Tordo-zornal (Turdus pilaris) (26-11-2016)

 

Claro que há muito mais do que apenas aves naquele parque. A vegetação que cobre e circunda a vala, bem como algumas plantas por ali espalhadas e até a própria relva abrigam uma quantidade apreciável de pequenas criaturas.

Longicórnio (Cerambyx welensii)

Longicórnio (Cerambyx welensii) (10-06-2017)

 

Entre escaravelhos, caracóis, moscas, abelhas, aranhas, gafanhotos, vespas, cigarras, libelinhas, borboletas e mariposas, muitos outros invertebrados podem ser observados literalmente debaixo dos nossos pés, alguns deles bastante bem camuflados. Tenham cuidado com o que pisam...

Cigarrinha-verde (Cicadella viridis) (01-11-2020)Tira-olhos-menor (Anax parthenope) (26-09-2020)Mosca (Thereva sp.) (15-03-2020)Gorgulho (Lixus pulverulentus) (15-03-2020)Libelinha-anã (Ischnura pumilio) (13-03-2020)Abelhão-terrestre (Bombus terrestris) (13-03-2020)Axadrezada-comum (Carcharodus tripolina) (13-03-2020)Saltão-verde-maior (Tettigonia viridissima) (13-03-2020)Borboleta-da-couve (Pieris brassicae) (13-03-2020)Carochinha (Chrysolina bankii) (13-03-2020)Cigarrinha (Cercopis intermedia) (13-03-2020)Gafanhoto-ocre (Calliptamus barbarus) (04-08-2019)Vespa (Philanthus sp.) (04-08-2019)Cigarra-comum (Cicada orni) (04-08-2019)Libélula-de-nervuras-vermelhas (Sympetrum fonscolombii) (04-08-2019)Iscnura-Ibero-Magrebina (Ischnura graellsii) (21-07-2019)Mosca-das-flores (Paragus quadrifasciatus) (21-07-2019)Percevejo (Eurydema ornata) (21-07-2019)Mosca-das-flores (Eristalinus aeneus) (21-07-2019)Abelha (Halictus scabiosae) (21-07-2019)Mosca-das-flores (Eupeodes corollae) (21-07-2019)Gafanhoto (Calliptamus sp.) (21-07-2019)Mosca-das-flores (Sphaerophoria sp.) (21-07-2019)Vespa-do-papel-europeia (Polistes dominula) (21-07-2019)Mosca (Família Sarcophagidae) (21-07-2019)Mosca (Coenosia tigrina) (21-07-2019)Y-de-prata (Autographa gamma) (15-03-2020)Azul-comum (Polyommatus icarus) (21-07-2019)

 

Obviamente, onde há insectos, há os que se alimentam deles. Não é difícil encontrar por ali alguns répteis e anfíbios, como lagartos, rãs, osgas e até serpentes.

Lagartixa-verde (Podarcis virescens)Lagartixa-verde (Podarcis virescens) (28-02-2017)

Rã-verde (Pelophylax perezi) (26-09-2020)Osga-comum (Tarentola mauritanica) (28-02-2017)

 

Mesmo os locais que entendemos como "nossos" são inevitavelmente refúgio de muitas outras criaturas. Por muito que tenhamos a tendência de nos consideramos o centro do universo, devemos aprender a conviver com elas e a respeitá-las, pois todas têm um papel a cumprir na ordem natural das coisas. Se o conseguirmos, facilmente chegaremos à conclusão que, na verdade, cabemos cá todos...

20
Fev21

Dinossauros modernos

Os dinossauros foram um grupo de répteis pré-históricos que dominaram o planeta por mais de 140 milhões de anos. Apesar de terem desenvolvido as mais variadas formas e tamanhos, todos tinham em comum uma característica que ajudou a garantir um maior sucesso sobre os restantes répteis que existiam na altura: os seus membros posteriores eram direitos, perpendiculares ao corpo. Esta característica pode ser observada ainda hoje nos seus mais próximos parentes vivos... as aves.

No entanto, apesar de não serem descendentes directos dos dinossauros (note-se as patas traseiras paralelas ao corpo), os crocodilos e os lagartos são os animais que mais facilmente nos trazem à mente os titãs de outrora. Ao ver um destes bichos "escarrapachados" ao sol, é quase impossível impedir que a nossa imaginação viaje mais de 65 milhões de anos no passado...

Os lagartos pertencem à subordem Sauria, compreendida na ordem Squamata (que também engloba as serpentes), uma das quatro ordens da classe Reptilia. Entre os aspectos essenciais que os distinguem das serpentes contam-se a existência de pálpebras e de ouvido externo, o facto de a sua muda de pele ocorrer por farrapos e não toda de uma vez, bem como a capacidade de autotomia (faculdade de libertar a cauda, utilizada geralmente como defesa contra predadores). E sim, entre estes aspectos não considerei a presença de patas... lá chegaremos.

Sardão (Timon lepidus)Sardão (Timon lepidus) Almada (02-07-2020)

Os nossos lagartos são essencialmente carnívoros e alimentam-se de uma grande variedade de animais, desde pequenos artrópodes como formigas ou aranhas, a micromamíferos, aves ou até outros répteis.

Se por um lado estes animais são exímios predadores, são também eles predados por uma série de outras espécies. A águia-cobreira (Circaetus gallicus) é uma especialista em capturar répteis, mas também algumas rapinas nocturnas se contam entre as aves que se alimentam destes bichos. Pássaros como o melro-azul (Monticola solitarius) e o melro-das rochas (Monticola saxatilis) são também considerados especialistas em capturar pequenas lagartixas. Mas a lista de predadores não se fica por aqui. As espécies maiores de lagartos tendem a caçar as mais pequenas e algumas serpentes baseiam mesmo a sua dieta nestes pequenos répteis quadrúpedes. Alguns juvenis chegam até a ser devorados por artrópodes como aranhas ou escolopendras. No entanto, um dos seus maiores predadores é o gato doméstico... o nosso "gatinho" de casa é um exímio caçador de lagartos e até de algumas serpentes, entre outros pequenos animais. Vários estudos, como este, realizado na Austrália, demonstram que os gatos têm um enorme impacto na biodiversidade das zonas onde ocorrem, sejam eles assilvestrados ou apenas animais de estimação aos quais lhes é permito sair de casa. Claro que, entre todas as ameaças a que estão sujeitos, a maior será de origem humana, com as alterações que causamos aos seus habitats.

Ainda assim, várias espécies de lagartos vão sobrevivendo no nosso país...

 

Lagartixa-de-dedos-denteados (Acanthodactylus erythrurus)Lagartixa-de-dedos-denteados (Acanthodactylus erythrurus) Seixal (11-04-2020)

Este é o lagarto mais rápido da europa. Conhecido como lagartixa-da-areia ou lagartixa-de-dedos-denteados, é possível vê-lo em zonas abertas a acelerar pela areia atrás de uma presa, chegando a saltar para capturá-la em pleno ar. O seu "focinho" robusto dá-lhe, aos meus olhos, um ar primitivo e faz dele um dos meus dois lagartos preferidos, entre todos os que já pude observar. Ocorre na Península Ibérica e no norte de África, sendo que em Portugal a sua distribuição está limitada a umas poucas manchas dispersas pelo país.

 

Lagartixa-do-mato-ibérica (Psammodromus occidentalis)Lagartixa-do-mato-ibérica (Psammodromus occidentalis) Seixal (19-05-2020)

Até meados de 2020 nunca tinha observado esta espécie, mas afinal até tinha uma pequena população relativamente perto de casa. A lagartixa-do-mato-ibérica vive em zonas abertas com vegetação arbustiva esparsa e alimenta-se de pequenos invertebrados. É endémica da zona ocidental da Península Ibérica, ou seja, só existe em Portugal e na zona oeste de Espanha.

 

Cobra-de-pernas-tridáctila (Chalcides striatus)Cobra-de-pernas-tridáctila (Chalcides striatus) Seixal (06-05-2020)

Ao contrário do que o seu nome parece indicar, a cobra-de-pernas-tridáctila é, na verdade, um lagarto. Ainda assim, os seus membros com três dedos são essencialmente inúteis na locomoção, pois, tal como as verdadeiras cobras, ele serpenteia quando se move. E foi exactamente o hábito de serpentear velozmente por entre as ervas que lhe granjeou um dos nomes pelos quais é conhecido: fura-pastos.

Este interessante réptil alimenta-se de pequenos invertebrados e vive em zonas abertas com alguma humidade, como prados e lameiros. Tem a curiosidade de ser ovovivíparo (os juvenis desenvolvem-se dentro de um ovo no interior do corpo da progenitora e nascem já completamente desenvolvidos).

Ocorre na Península Ibérica e no sul de França.

 

Lagarto-de-água (Lacerta schreiberi)Lagarto-de-água (Lacerta schreiberi) Rio Caima - Oliveira de Azeméis (22-02-2020)

Este é, para mim, um dos lagartos mais bonitos que temos por cá. O lagarto-de-água é um excelente nadador e ocorre em habitats húmidos como margens de  ribeiros, tanques e lameiros de montanha. Alimenta-se de pequenos invertebrados e de fruta (principalmente de amoras). É endémico da Península Ibérica.

 

Lagartixa-do-Noroeste (Podarcis guadarramae)Lagartixa-do-noroeste (Podarcis guadarramae) Leomil - Moimenta da Beira (28-04-2019)

Esta pequena lagartixa é também ela um endemismo ibérico. Em Portugal ocorre na zona norte e centro. Alimenta-se de artrópodes e está bem adaptada a ambientes urbanos, sendo fácil observá-la a apanhar sol no topo de um qualquer muro velho.

 

Lagartixa-de-bocage (Podarcis bocagei)Lagartixa-de-bocage (Podarcis bocagei) Pitões da Junias - Montalegre (11-05-2018)

O verde forte no dorso dos machos desta espécie destaca-se até no meio da vegetação. Sendo também um endemismo ibérico, a distribuição da lagartixa-de-bocage em Portugal é limitada ao noroeste do território. É um pequeno lagarto bastante adaptável, sendo possível encontrá-la em terrenos abertos, clareiras, jardins e até em zonas urbanas. Alimenta-se de artrópodes.

 

Licranço (Anguis fragilis)Licranço (Anguis fragilis) Donões - Montalegre (11-05-2018)

Este animal é a razão pela qual não incluí a presença de membros nas características distintivas entre lagartos e cobras. Também conhecido como cobra-de-vidro, o licranço é um lagarto totalmente desprovido de patas, que se alimenta de invertebrados que encontra nas zonas relativamente húmidas onde vive. Ocorre em grande parte da Europa, estando a sua distribuição no nosso país limitada a norte do rio Tejo. Apesar da crença popular, o licranço é um animal completamente inofensivo para o ser humano.

 

Lagartixa-verde (Podarcis virescens)Lagartixa-verde (Podarcis virescens) Seixal (25-04-2018)

Dentro das lagartixas do género Podarcis, esta é a que tem a maior área de distribuição, estando bem distribuída a sul do rio Tejo, ainda que, para norte, a sua zona de ocorrência prolonga-se apenas pelo litoral até à zona de Espinho. Também esta espécie só existe na Península Ibérica.

É possível vê-la todo o ano, nos dias quentes ou amenos em pedras, muros, jardins ou até paredes de habitações, sendo a lagartixa que mais está presente no nosso dia-a-dia. Alimenta-se de artrópodes.

 

Lagartixa-do-mato (Psammodromus algirus)Lagartixa-do-mato (Psammodromus algirus) Espaço interpretativo da Lagoa Pequena - Sesimbra (16-04-2016)

Lagartixa robusta, de tamanho médio, que se alimenta de invertebrados e até de outros pequenos lagartos. Faz justiça ao nome, pois é geralmente encontrada em silvados, florestas, clareiras e matos em geral. Na época nupcial, o macho desenvolve uma coloração laranja na zona da cabeça que o torna inconfundível.

É uma lagartixa ágil, veloz e feroz. Quando ameaçada, podemos até ouvi-la a emitir rangidos. Alimenta-se de invertebrados e de outros lagartos.

Ocorre desde o sul de França até ao norte de África. Em Portugal pode ser encontrada por todo o território, sendo menos frequente no litoral noroeste.

 

Sardão (Timon lepidus)Sardão (Timon lepidus) Almada (02-07-2020)

Este é o meu lagarto autóctone preferido. A sua cor verde, manchada de preto e com ocelos azuis, bem como o facto de ser o maior lagarto da Europa, tornam-no inconfundível. Pode ser encontrado em zonas rochosas, dunas, hortas e até em parques urbanos, assim tenha as condições que necessita para se abrigar. Troncos velhos, buracos entre raízes ou montes de pedras são alguns dos seus esconderijos preferidos, que o macho, por ser territorial, guarda ferozmente. Ver este grande lagarto a apanhar sol numa manhã de primavera é uma visão que não deixa ninguém indiferente.

Distribui-se por todo o país e pode ser também encontrado em França, Espanha e Itália.

É omnívoro, alimentando-se de invertebrados, aves, ovos, pequenos mamíferos, fruta e até de outros lagartos.

 

Osga-comum (Tarentola mauritanica)Osga-comum (Tarentola mauritanica) Almada (30-04-2019)

Esta é a mais comum das duas espécies de osgas que ocorrem em Portugal continental. A sua má reputação precede-a, mas na verdade a osga-comum é um animal completamente inofensivo e até bastante útil ao Homem. Estes pequenos lagartos alimentam-se de moscas, mosquitos, borboletas (traças incluídas), aranhas e de variados outros invertebrados. Chegam mesmo a comer lagartos juvenis. Os dedos das osgas possuem umas escamas especiais que lhes conferem a capacidade de aderir facilmente aos mais diversos materiais, pelo que é comum vê-las a trepar paredes, tectos e às vezes até os vidros das janelas nas nossas casas.

Estes animais de aspecto estranho pertencem à subordem Sauria, como os restante lagartos, mas estão colocados sob a infraordem Gekkota. Isto significa que estes bichos que tantas pessoas acham horríveis e nojentos, são na verdade "primos" dos famosos Gekkos, tão adorados e por quem tanta gente paga muito dinheiro nas lojas de animais...

A osga-comum distribui-se por toda a bacia mediterrânica, tendo nos últimos anos vindo a expandir para norte no nosso país.

 

Camaleão (Chamaeleo chamaeleon)Camaleão (Chamaeleo chamaeleon) Quinta do Marim - Olhão (23-05-2020)

Pertencente à família Chamaeleonidae, também ela dentro da subordem Sauria, o inconfundível camaleão tem características únicas que o distinguem de todos os outros lagartos da nossa fauna. A lendária faculdade de adaptar a sua cor ao ambiente circundante e a capacidade de mover os olhos de forma independente, são provavelmente as mais distintivas. Para além disso, por ser arborícola, a sua cauda é preênsil e as suas patas evoluíram para uma disposição dos dedos ( três dedos oponíveis a outros dois) que lhes permite agarrarem-se com maior facilidade aos ramos das árvores e arbustos. Alimentam-se de artrópodes que capturam com a sua língua proctáctil (pode ser lançada quase um metro para a frente), coberta por um muco aderente.

Este animal está distribuído desde norte de África até ao sul da Península Ibérica, passando pelas ilhas mediterrânicas. A leste, chega ao médio oriente. No nosso país ocorre apenas no Algarve, tendo chegado há uns séculos, vindo de África.

 

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Apesar de terem um aspecto razoavelmente semelhante a estes, as salamandra e os tritões não são lagartos. Na verdade nem são répteis, são antes anfíbios (classe Amphibia) pertencentes à família Salamandridae, que conta com sete espécies em Portugal continental. Estes animais passam por estágios larvares e são essencialmente aquáticos, embora algumas espécies possuam também uma fase terrestre.

Esta família, por ser mais difícil de observar devido aos seus hábitos e à sua ecologia, tem sido uma dor de cabeça para mim. Um dos meus grandes objectivos para os próximos tempos é mesmo observar a endémica salamandra-lusitânica (Chioglossa lusitanica). A seu tempo...

 

Tritão-marmorado (Triturus marmoratus)Tritão-marmorado (Triturus marmoratus) Leomil - Moimenta da Beira (27-04-2019)

Na sua fase terreste, o tritão-marmorado é essencialmente nocturno e pode ser encontrado em prados, lameiros, florestas e até jardins, enquanto que, na fase aquática, habita lagos, tanques e cursos de água. Alimenta-se de larvas de outros anfíbios e invertebrados como lesmas, caracóis, minhocas e larvas de insectos.

É um anfíbio de dimensões razoáveis, de cor esverdeada com manchas escuras. Ocorre na Península Ibérica e no oeste de França, sendo que em Portugal pode ser encontrado a norte do rio Tejo.

 

Tritão-de-Ventre-Laranja (Lissotriton boscai)Tritão-de-ventre-laranja (Lissotriton boscai) Oliveira de Azeméis (21-02-2020)

O tritão-de-ventre-laranja é um pequeno animal de ventre alaranjado, pontilhado de negro. O seu dorso é de cor variável, tedencialmente esverdeado. É crepuscular e nocturno e alimenta-se de invertebrados aquáticos, lesmas e minhocas. Pode ser encontrado em zonas rurais e parques urbanos.

Endémico da Península Ibérica, distribui-se por todo o território nacional e zona oeste de Espanha.

 

Tritão-palmado (Lissotriton helveticus)Tritão-palmado (Lissotriton helveticus) Oliveira de Azeméis (13-09-2019)

Este bicho de coloração variável, com manchas escuras ao longo do corpo, é o tritão mais pequeno dos que ocorrem em Portugal. De hábitos crepusculares e nocturnos, pode ser encontrado (geralmente na primavera e no outono) em florestas e áreas agrícolas, escondido debaixo de troncos ou pedras. A sua fase aquática é passada em lagos ou tanques. 

Ocorre na zona oeste da Europa, chegando até à Alemanha. Por cá, é frequente a norte do Douro e muito localizado a sul deste rio.

 

Larva de Salamandra-de-fogo (Salamandra salamandra) Seixal (13-02-2021)Larva de Salamandra-de-fogo (Salamandra salamandra) Leomil - Moimenta da Beira (27-04-2019)

Quando era puto, no Alentejo, via-as com frequência nas noites chuvosas. Eram chamadas de "salamanteigas" e consideradas venenosas... de facto, a sua coloração negra, manchada de um amarelo forte, denuncia a neuro-toxina que este animal esconde sob a sua pele lisa. No entanto, apesar de me dedicar à observação da natureza há já uns anos, nunca mais vi uma adulta (provavelmente devido aos seus hábitos)... ainda assim, tenho observado as suas larvas às dezenas, nas poças temporárias criadas pela chuva.

A salamandra-de-pintas-amarelas ou salamandra-de-fogo é, tal como os anteriores, um anfíbio crepuscular e nocturno. Mas, ao contrário dos tritões, esta salamandra é estritamente terrestre (em adulta), indo à água apenas para depositar as suas larvas. Esta espécie é vivípara (dá à luz as crias que se desenvolveram no interior do seu corpo).

Alimenta-se de uma grande variedade de invertebrados e ocorre na maioria do território europeu.

 

Tão fascinantes para uns como repulsivos para outros, estes répteis e anfíbios de aspecto pré-histórico não deixam ninguém indiferente. Mas são dos animais mais sensiveis às alterações climáticas e à poluição, e devem ser protegidos, pois, como todos os outros seres autóctones, eles são extremamente importantes para a manutenção dos nossos ecossistemas saudáveis.

Pessoalmente, ainda tenho muito a percorrer, mas hei de conseguir observar todas as espécies presentes no nosso país... nesta minha caça aos falsos dinossauros modernos.

29
Nov20

Livros de bichos - Aves em papel

Da última vez que escrevi aqui sobre livros, foquei-me nos guias de campo, tendo apresentado aqueles que mais utilizo. Hoje quero mostrar algo diferente... ao invés de guias que ajudem a identificar os animais que vemos no campo, trago alguns livros onde podemos encontrar conhecimento acerca desses bichos. Mais uma vez, como o meu principal foco são as aves, é neste grupo que tenho feito um maior investimento em literatura.

 

All the birds of the world

All the Birds of the World, Josep del Hoyo (Editor) - Lynx 2020

Tal como o seu nome indica, este grande livro (expressão de duplo sentido) apresenta-nos pela primeira vez todas as aves do mundo num único tomo. As espécies aceites por qualquer uma das quatro maiores autoridades taxonómicas estão representadas por bonitas ilustrações, onde são mostradas as variações derivadas do dimorfismo sexual, bem como as várias formas e subespécies. São também mostrados os nomes comuns (em inglês) e científicos das aves, bem como os mapas de distribuição actualizados à data presente.

All the birds of the world

Cada espécie é acompanhada de um QR code através do qual podemos aceder à respectiva página na plataforma eBird, onde podemos encontrar mapas de registos, fotografias, vídeos, sonogramas e diversas outras informações relevantes.

eBird

eBird

Este livro pode ser adquirido na página da editora Lynx e está em promoção, custando de momento 65€.

 

Aves de Portugal - Ornitologia do território continental, Catry, P., Costa, H., Elias, G. & Matias, R. - Assírio & Alvim (2010)

Nas 941 páginas deste excelente livro, os quatro autores lograram compilar grande parte do conhecimento documental acerca da avifauna portuguesa, complementado pela sua extensiva experiência de campo.

Após uma breve caracterização geral de Portugal ao nível do relevo, hidrografia, clima e população, é-nos apresentada uma descrição e enquadramento histórico dos diversos biótopos que podemos encontrar pelo país. Nas páginas seguintes, naquele que - para mim - é talvez o capítulo mais valioso deste compêndio, podemos deliciar-nos com uma fantástica resenha histórica da ornitologia do território continental, ainda que apresentada pelos autores como "um modesto ensaio sobre tão fascinante tema", com o "propósito de homenagear todos os que contribuíram para o estado do conhecimento actual sobre as nossas aves". Depois, são-nos indicadas as aves cuja presença já foi registada no país, com uma completa descrição da sua distribuição, habitat e abundância, biologia da reprodução, movimentos e fenologia, alimentação e taxonomia, bem como algumas outras informações consideradas relevantes.

Única no que diz respeito a bibliografia portuguesa, esta é uma obra que eu recomendo vivamente a qualquer pessoa que tenha interesse por aves selvagens, mas está infelizmente esgotada há vários anos, não existindo previsão para uma reedição. Devido a uma intensa procura nos últimos anos, mesmo na internet não tem sido possível encontrar exemplares à venda. Quem sabe ainda exista um ou outro perdido na banca de algum alfarrabista.

 

New Generation Guide: Birds of Britain and Europe

New Generation Guide: Birds of Britain and Europe, Christopher Perrins - Collins (1987)

Adoro este livro. Embora o seu título pareça apresentá-lo como apenas mais um guia de campo, no meio de tantos outros que existem por aí, este pequeno volume almeja a muito mais.

New Generation Guide: Birds of Britain and Europe

Tal como Sir David Attenborough tão eloquentemente explana no seu prólogo, este "guia" pretende não apenas ajudar a identificar as aves que podemos encontrar no campo, como também (e talvez principalmente) responder às questões que possam surgir... Como é que espécies tão fisicamente diferenciadas são agrupadas numa certa família? Porque é que algumas aves apresentam dimorfismo sexual e outras não? Porque é que umas ocorrem aqui e outras ali? Estes, entre tantos outros comos, quandos e porquês, são respondidos nesta obra, prestando uma preciosa ajuda para que o observador consiga atingir uma compreensão mais profunda acerca daquilo que observa no campo.

Como guia de campo é fraco, relativamente a outros que já aqui apresentei, pois as suas ilustrações não serão as mais rigorosas nem as suas indicações as mais precisas, no que toca a evidenciar pormenores de identificação das espécies mais complicadas. Mas como fonte de informação é sublime, revelando de forma completa (ainda que resumidamente) muito daquilo que é a ecologia das aves que ocorrem na Europa. Já referi que adoro este livro?

Como é antigo, não consta das prateleiras das livrarias. Ainda assim, é possível encontrá-lo na Amazon ou no Ebay em muito bom estado e a preços muito acessíveis, a rondar os 10€. Pelo que sei, nunca teve uma edição em português.

 

A Birdwatcher's Guide to Portugal, the Azores & Madeira Archipelagos, Moore C., Elias G. & Costa H. - Birdwatchers' Guides, Prion (2014)

Pensado para o observador estrangeiro de visita a Portugal, por isso editado em língua inglesa, este livro revela os melhores locais para observar aves no país. 

Para cada zona de interesse é indicada a sua localização, uma breve descrição do seu enquadramento e topografia, algumas recomendações ao nível da estadia na região e um resumo das principais aves que ali ocorrem, bem como a estratégia recomendada para maximizar as hipóteses de as observar. Aqui são indicados os principais pontos de interesse, bem como a melhor forma de os abordar, incluindo alguns mapas auxiliares. É um livro bastante útil a qualquer um que se esteja a iniciar neste mundo das aves e/ou que pretenda conhecer um pouco mais do "país ornitológico".

Este exemplar foi-me oferecido por um dos autores, pelo que não sei se existe em livrarias ou alfarrabistas portugueses. No entanto pode ser encontrado na Amazon por preços a rondar os 30€.

 

Nomes Portugueses das Aves do Paleártico Ocidental

Nomes Portugueses das Aves do Paleártico Ocidental, Hélder Costa et al. - Assírio & Alvim (2000)

"Em Portugal, a primeira tentativa de estabelecer uma lista padrão de nomes vernáculos de aves data de 1962 (Sacarrão 1962-63). Pretendia-se com essa lista acabar com a confusão existente da nossa avifauna que, na altura, segundo vários autores estrangeiros, seria a mais caótica e obscura da Europa. Em 1979 essa lista viria a ser actualizada (Sacarrão & Soares 1979) mantendo-se até hoje como referência fundamental."

Este parágrafo consta do preâmbulo deste livro e enquadra a necessidade sentida pelos autores de, passados 20 anos sobre a publicação da lista de Sacarrão & Soares, rever a nomenclatura portuguesa das aves que ocorrem na nossa parte do mundo.

Nomes Portugueses das Aves do Paleártico Ocidental

Pouco consensual, a publicação desta lista e a sua adopção por parte da SPEA como "semi-oficial" veio mesmo causar alguns atritos e gerar alguma polarização no seio da comunidade ornitológica portuguesa. Pessoalmente, parece-me interessante, relevante e justa a tentativa dos autores de "privilegiar a utilização dos nomes vulgares existentes no espaço cultural lusófono", mantendo dessa forma uma ligação às regiões e às gentes do país real, algo que é muitas vezes olvidado por alguns autores de obras académicas.

Resultado de "uma vasta consulta de documentos e peritos e da oscultação de numerosas opiniões", neste livro são ressalvados os regionalismos e o conhecimento empírico que as populações possuem sobre as aves e a natureza. Embora eu não utilize alguns dos nomes que aqui são propostos, acho que este é uma obra com muito valor e que fazia falta na bibliografia ornitológica portuguesa.

Esgotado na maior parte dos locais, este livro pode ainda ser adquirido na Wook, por cerca de 10€.

13
Nov20

As aves e os seus habitats - Zonas intermarés: o lodo

Um habitat pode ser composto por um conjunto de diferentes biótopos, que não são mais do que áreas geográficas onde as condições ambientais são constantes ou cíclicas. Na verdade, grande parte dos habitats que existem no nosso país estão sujeitos a fenómenos periódicos que, de alguma forma, alteram as suas características.

Entre eles, as zonas intermarés serão, possivelmente, aqueles que apresentam a mais radical alteração de condições, num menor ciclo temporal. Margens ribeirinhas, praias, lagoas costeiras, sapais... consoante a geografia e geologia do terreno, as áreas deixadas a descoberto pela baixa-mar podem apresentar características muito diferentes. No entanto, há algo em comum em todos estes locais: o vai-e-vem regular das marés e o ritmo de vida que elas impõem às aves que ali se alimentam. Hoje vamos falar de um biótopo muito específico: as zonas de lodo.

Pisco-de-peito-azul (Luscinia svecica) Sado - Gâmbia (25-01-2020) (3).JPG

Pisco-de-peito-azul (Luscinia svecica) Herdade da Gâmbia, Setúbal (25-01-2020)

 

Quando a maré retrocede, revelando paulatinamente os lodos repletos de pedaços de conchas e algas, as aves começam a mostrar-se, abandonando os locais onde repousam durante a preia-mar. 

Fuselo (Limosa lapponica) Seixal (11-10-2020)

Milherango (Limosa limosa) Lisboa (29-01-2016)

 

Surgem vindas das salinas circundantes, dos pequenos mouchões dos sapais ou da vegetação marginal dos rios e começam a distribuir-se pelas margens crescentes onde se vão alimentar, acompanhando o refluxo das águas.

Perna-verde-comum (Tringa nebularia) Seixal (10-03-2019)Borrelho-grande-de-coleira (Charadrius hiaticula) Barreiro (05-01-2019)
Maçarico-galego (Numenius phaeopus) VN Milfontes (20-10-2018)Pilrito-pequeno (Calidris minuta) Parque Tejo, Lisboa (04-02-2018)

 

Várias espécies de límicolas percorrem os lodos húmidos em busca dos pequenos invertebrados dos quais se alimentam, chegando até a dar origem a bandos mistos com centenas ou mesmo milhares de indivíduos. Garças prospectam as águas rasas em busca de peixes incautos, flamingos filtram o lodo dentro de água, capturando os pequenos crustáceos que lhes dão a sua famosa cor, colhereiros "varrem" em busca de invertebrados e pequenos peixes. Podemos até encontrar passeriformes, como o pisco-de-peito-azul, nas zonas mais próximas da vegetação.

Colhereiro (Platalea leucorodia) Parque Tejo, Lisboa (04-02-2018)Flamingo-rosado (Phoenicopterus roseus) Seixal (03-04-2017)
Garça-branca-pequena (Egretta garzetta) Montijo (18-03-2017)Garça-real (Ardea cinerea) Parque Tejo, Lisboa (12-12-2015)

 

A questão da competição pelo alimento entre estas aves foi resolvida ao longo das eras, pela selecção natural. A diversidade de características físicas e comportamentais permite que coexistam num mesmo espaço.

Pilrito-de-bico-comprido (Calidris ferruginea) Seixal (01-11-2020)Íbis-preta (Plegadis falcinellus) Seixal (28-09-2020)
Frango-d'água (Rallus aquaticus) Sesimbra (13-06-2018)Maçarico-das-rochas (Actitis hypoleucos) Seixal (07-01-2018)
Tarambola-cinzenta (Pluvialis squatarola) Amora (22-10-2017)Perna-vermelha-bastardo (Tringa erythropus) Vila Franca de Xira (27-08-2017)
Pilrito-comum (Calidris alpina) Península da Carrasqueira (01-05-2017)Perna-vermelha-comum (Tringa totanus) Seixal (05-02-2017)

 

Algumas possuem bicos longos, para procurar alimento que esteja enterrado mais fundo, outras têm bicos curtos para capturar pequenos animais que existem mais à superfície. Há as que têm patas mais longas e bicos como lanças afiadas, para poderem trespassar os peixes nas águas rasas e há os que desenvolveram bicos poderosos o suficiente para quebrar as cascas dos bivalves. Cada espécie está perfeitamente adaptada à forma como vive e se alimenta.

Guincho-comum (Chroicocephalus ridibundus) Seixal (10-03-2019)Narceja-comum (Gallinago gallinago) Sesimbra (01-11-2016)
Maçarico-real (Numenius arquata) Amora (15-08-2016)Pernilongo (Himantopus himantopus) Seixal (20-03-2016)
Maçarico-bique-bique (Tringa ochropus) Vila Franca de Xira (28-02-2016)Rola-do-mar (Arenaria interpres) Amora (28-01-2016)

 

Embora as espécies límicolas estejam geralmente em larga maioria, podemos também ali encontrar algumas gaivotas, rapinas, garças, patos e gansos. 

Ganso-bravo (Anser anser) Vila Franca de Xira (05-11-2017)Marrequinha (Anas crecca) Vila Franca de Xira (10-04-2016)

 

E de vez em quando, muito de vez em quando, surge uma daquelas aves especiais que todos os observadores gostam de encontrar. Uma raridade vinda de paragens longínquas que encontrou abrigo num qualquer lodaçal deste recanto à beira-mar plantado. Como aquela garça americana que descobriu guarida numa vala algures num sapal algarvio, ou o pequeno maçarico que escolheu o rio Sado para passar o inverno, por exemplo. 

Goraz-coroado (Nyctanassa violacea) Faro (04-06-2020)Maçarico-sovela (Xenus cinereus) Setúbal (09-11-2019)

 

Uma multiplicidade de formas, cores, sons e comportamentos... nestas zonas de aspecto escuro e monótono, mas ricas em alimento, a diversidade biológica é rainha. No entanto, passadas cerca de 6 horas, a maré virou e iniciou o seu avanço inexorável em direcção às margens, empurrando à sua frente esta miríade de aves que novamente ganharão os céus e se dirigirão aos seus locais de repouso. Mais um ciclo que se completa, numa dança interminável, ao ritmo das marés.

25
Out20

Mariposas - os coloridos mistérios nocturnos

A noite sempre foi palco preferencial para lendas e histórias assustadoras. As criaturas que nela vagueiam ainda hoje permanecem, aos nossos olhos, envoltas numa névoa de temor e mistério. Tememos irracionalmente o piar do mocho ou o silvar da coruja-das-torres, sobressaltamo-nos instintivamente com o repentino e silencioso bater de asas do morcego, enojamo-nos com a rastejante salamandra...

Até as borboletas, cujas versões diurnas nos deliciam com as suas cores e delicadeza, ganham uma conotação negativa quando vivem a coberto das trevas. "Traças", chamam-lhes alguns, com um esgar de desprezo.

Mariposa (Lythria sanguinaria) Lagoa de Albufeira - Cabeço da Flauta (19-05-2020) (5).JPGMariposa (Lythria sanguinaria) Lagoa de Albufeira, Sesimbra (19-05-2020)

 

Na verdade, o nome mais correcto a atribuir a estas borboletas noctívagas é o de "mariposas". A designação de "traças" deriva das espécies cujas larvas se alimentam do tecido das nossas roupas... mas, em Portugal, são pouquíssimas as espécies em que isto acontece (talvez meia dúzia), ao passo que as restantes borboletas nocturnas compreendem cerca de 2600 espécies. Ainda assim, provavelmente a sua má reputação deriva do facto de serem bichos pouco coloridos e de aspecto mais soturno, não é?

Mariposa (Acontia lucida) Seixal (03-06-2020)Mariposa (Cleta ramosaria) Cabo Espichel, Sesimbra (19-05-2020)Sangrenta-da-tasna (Tyria jacobaeae) Cercal do Alentejo (17-05-2020)Mariposa (Opisthograptis luteolata) Oliveira de Azeméis (13-09-2019)Mariposa-estriada (Spiris striata) Espaço Interpretativo da Lagoa Pequena, Sesimbra (21-08-2019)Mariposa-pluma (Crombrugghia laetus) Mata dos Medos, Almada (13-07-2019)

 

Não, nem por isso. As mariposas são tão ou mais coloridas do que as borboletas diurnas e são muito mais diversas no seu formato. De facto, entre cores pastel e outras mais garridas, estes animais surpreendem para fantástica variedade de fenótipos que apresentam.

Mariposa (Watsonalla uncinula) Pancas, Benavente (28-07-2020)Mariposa (Pterostoma palpina) Pancas, Benavente (28-07-2020)Mariposa (Zygaena fausta) Serra da Arrábida (28-06-2020)Mariposa (Chrysocrambus dentuellus) Cabo Espichel (19-05-2020)Mariposa (Hypena obsitalis) Cercal do Alentejo (17-05-2020)Mariposa (Camptogramma bilineata) Fernão Ferro, Seixal (15-05-2020)Mariposa (Udea ferrugalis) Seixal (15-05-2020)Mariposa (Dyspessa ulula) Cabo Espichel (12-05-2020)
 

Talvez como meio de camuflagem, talvez com outro propósito evolucionário que escapa aos meus conhecimentos, a verdade é que esta multiplicidade de formas deu origem a animais lindíssimos que merecem ser observados com atenção.

Mariposa (Euchromius sp.) Pancas, Benavente (28-07-2020)Mariposa (Alucita grammodactyla) Lagoa de Albufeira (19-05-2020)Mariposa (Rhodometra sacraria) Seixal (24-04-2020)Mariposa (Coscinia chrysocephala) Seixal (23-04-2020)Mariposa (Gymnoscelis rufifasciata) Oliveira de Azeméis (14-09-2019)Mariposa (Scopula imitaria) Oliveira de Azeméis (13-09-2019)Mariposa (Cyclophora linearia) Oliveira de Azeméis (13-09-2019)Mariposa (Dysgonia algira) Oliveira de Azeméis (13-09-2019)Processionária-do-pinheiro (Thaumetopoea pityocampa) Seixal (01-09-2019)Mariposa (Itame vincularia) Quinta do Texugo, Almada (25-08-2019)Mariposa (Mormo maura) Cercal do Alentejo (11-08-2019)Mariposa (Timandra comae) Cercal do Alentejo (11-08-2019)Mariposa-Cigana (Lymantria dispar) Mata da Machada, Barreiro (13-07-2019)Mariposa (Zygaena trifolii) Zambujeira do Mar, Odemira (01-06-2019)Mariposa (Zygaena lavandulae) V.N. Milfontes (19-04-2019)Mariposa (Macrothylacia digramma) Espaço Interpretativo da Lagoa Pequena, Sesimbra (13-04-2019)Mariposa (Eupithecia centaureata) Seixal (11-04-2020)Mariposa (Menophra abruptaria) Oliveira de Azeméis (14-09-2019)
 

Embora algumas sejam tóxicas e perigosas para homem e animais, até as suas lagartas são geralmente vistosas e extravagantes.

Mariposa-dos-sargaços (Psilogaster loti) Peninha, Sintra (29-09-2020)Mariposa (Ethmia bipunctella) Serra do Louro, Palmela (30-06-2020)Processionária-do-pinheiro (Thaumetopoea pityocampa) Quinta do Texugo (16-02-2020)Processionária-do-pinheiro (Thaumetopoea pityocampa) Herdade da Aroeira, Almada (02-02-2020)
 

Pela sua ajuda no controlo de algumas plantas, pela sua contribuição para as cadeias tróficas, pelo seu importante lugar nos ecossistemas, pela sua beleza, estes pequenos bichos nocturnos merecem ser protegidos, acarinhados e apreciados. Afinal de contas, a noite não esconde apenas mistérios sombrios...

11
Out20

Vamos contar periquitos?

CENSO NACIONAL DE PERIQUITO-DE-COLAR (Psittacula krameri)

 

"O periquito-de-colar ou periquito-rabijunco (Psittacula krameri) é uma espécie originária dos continentes asiático e africano, mas que ocorre atualmente em inúmeras cidades do continente europeu. Estas populações, com origem provável em fugas de cativeiro, encontraram alimento, refúgio e locais adequados para nidificar nas áreas verdes dos grandes centros urbanos. Esta espécie exótica possui algumas das características típicas das espécies invasoras (boa capacidade de adaptação, reprodução rápida, agressividade) e nalguns locais onde já está estabelecida pode mesmo afetar as espécies nativas, ao competir por alimento ou locais de nidificação. É uma espécie gregária e muito social, que nidifica em buracos de árvores e que usa de forma regular dormitórios comunais, que podem reunir desde algumas aves até muitas centenas de indivíduos. De forma relativamente previsível, as aves tendem a retornar ao seu dormitório ao final do dia. Assim, a contagem nos dormitórios é o método habitual de censo da espécie."

Periquito-de-colar (Psittacula krameri) Quinta das Conchas (01-05-2018) (8).JPG

Periquito-de-colar (Psittacula krameri) Quinta das Conchas - Lisboa (01-05-2018)

 

Como o conhecimento é o primeiro passo para a conservação, a SPEA vai realizar um censo destas aves, para que possamos ter a real noção do estado das suas populações e do risco a que estas possam estar a submeter as nossas espécies autóctones. 

Numa 1ª fase vamos tentar identificar os dormitórios destas aves (Out/Nov/Dez 2020) e na 2ª fase vamos proceder à contagem do número de indivíduos (Nov 2021). Todos aqueles que tenham interesse em colaborar são bem-vindos, bastando para isso que saibam identificar a espécie.

Periquito-de-colar (Psittacula krameri) Parque Bensaúde (27-01-2019) (2).JPG

Periquito-de-colar (Psittacula krameri) Parque Bensaúde - Lisboa (27-01-2019)

 

Vou ser coordenador regional voluntário para os concelhos de Almada e Seixal, portanto, caso queiram participar (em qualquer ponto do país) e tenham dúvidas de como o fazer, estejam à vontade para me questionar através da caixa de comentários ou por e-mail. Terei todo o gosto em esclarecer ou encaminhar as vossas questões.

Vamos contar periquitos?

08
Jun20

Até os bichinhos gostam

Enquanto os humanos estavam fechados em casa, a sentir os efeitos da pandemia, a natureza lá fora seguia os seus timmings... a primavera chegou em força, os bichos saíram dos seus confinamentos invernantes e as feromonas libertaram-se no ar.

Besouro-tigre (Lophyra flexuosa ssp. flexuosa) Santa Marta (25-04-2020) (14).JPG

Besouro-tigre (Lophyra flexuosa ssp. flexuosa) Seixal (25-04-2020)

 

Primavera. É nesta altura do ano que grande parte dos animais se dedica a cumprir o seu maior propósito de vida: a propagação da espécie. Quaisquer locais, sejam eles matos, árvores, flores, ervas, caminhos, pedras ou até o próprio ar, podem ser palco de "tórridas" cenas de acasalamento que fariam corar a maioria dos humanos. 

Besouro-capuchinho (Heliotaurus ruficollis) Santa Marta (26-04-2020) (2).JPG

Escaravelho (Stenopterus mauritanicus) Santa Marta (24-04-2020) (4).JPG

Besouro-capuchinho (Heliotaurus ruficollis) Seixal (26-04-2020)Escaravelho (Stenopterus mauritanicus) Seixal (24-04-2020)

Borboleta-pequena‑da‑couve (Pieris rapae) Santa Marta (18-04-2020) (2).JPG

Percevejo (Enoplops scapha) Santa Marta (11-04-2020) (3).JPG

Borboleta-pequena‑da‑couve (Pieris rapae) Seixal (18-04-2020) Percevejo (Enoplops scapha) Seixal (11-04-2020)

Mosca-das-flores (Sphaerophoria scripta) Santa Marta (11-04-2020) (2).JPG

Jaquetão-das-Flores-Mediterrânico (Oxythyrea funesta) Santa Marta (11-04-2020) (3).JPG

Mosca-das-flores (Sphaerophoria scripta) Seixal (11-04-2020)Jaquetão-mediterrânico (Oxythyrea funesta) Seixal (11-04-2020)

Semente-de-lima (Oxycarenus lavaterae) Santa Marta (03-04-2020).JPG

Gorgulho (Lixus pulverulentus) Marialva (15-03-2020) (4).JPG

Percevejo-das-malvas (Oxycarenus lavaterae) Seixal (03-04-2020)Gorgulho (Lixus pulverulentus) Seixal (15-03-2020)

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Lagartixa-verde (Podarcis virescens) Marialva (25-04-2018) (3).JPG

Gafanhoto-egípcio (Anacridium aegyptium) Fadagosa (08-06-2019)Lagartixa-verde (Podarcis virescens) Seixal (25-04-2018)

 

Todo este espectáculo natural pode ser apreciado por qualquer pessoa que vá dar um passeio no campo ou até num qualquer parque ou jardim urbano, pois o pudor e a vergonha são construções sociais exclusivas da Humanidade que, ao longo do tempo, têm moldado a nossa percepção de um tema central na vida da maioria dos animais: o sexo. Tema este que tem sido alvo de livros, poemas, filmes, perseguições, tabus e até atrocidades. No entanto, é algo tão natural e essencial como respirar ou comer. Afinal... até os bichinhos gostam. 

05
Mai20

Bichos do mato: Aranhas - pesadelos de oito patas

Os invertebrados são dos animais menos conhecidos do público em geral. Embora estejamos constantemente rodeados deles, o seu tamanho e os seus hábitos fazem com que tantas vezes nem reparemos na sua presença.

Tecedeira-de-cruz-cosmopolita (Araneus diadematus) Oliveira de Azeméis (14-09-2019) (2).JPG

Tecedeira-de-cruz-cosmopolita (Araneus diadematus) Oliveira de Azeméis (14-09-2019)

 

Quando os descobrimos por perto, a nossa reacção automática é de matá-los, ignorando os grandes serviços que nos prestam, seja como polinizadores (e.g. abelhas e moscas) ou como controladores de pragas (e.g. aranhas e joaninhas). Como infelizmente tememos aquilo que não conhecemos bem, os insectos e aranhas tendem a gerar em nós reacções de medo e repulsa. 

Aranha-lince (Oxyopes lineatus) Serra de S. Mamede (08-06-2019).JPG

Aranha-lince (Oxyopes lineatus) Serra de S. Mamede (08-06-2019)

 

Mas... as aranhas não são insectos? 

Não. Os insetos (classe Insecta) têm o corpo dividido em três partes: cabeça, tórax e abdómen. Possuem três pares de patas, apresentam um par de antenas e têm um desenvolvimento indireto. Já os aracnídeos (classe Arachnida) apresentam o corpo dividido em duas partes: abdómen e cefalotórax. Possuem quatro pares de patas, quelíceras, não apresentam antenas e podem ter um desenvolvimento direto ou indireto.

Aranha-de-funil (Eratigena sp.) Oliveira de Azeméis (13-09-2019).JPG

Aranha-lobo-radiada (Hogna radiata) Cercal (12-08-2019) (4).JPG

Aranha-de-funil (Eratigena sp.) Oliveira de Azeméis (13-09-2019)Aranha-lobo-radiada (Hogna radiata) Cercal do Alentejo (12-08-2019)

 

Como é que estas exímias predadoras caçam? Bem, existem variadas técnicas nas quais cada espécie se especializa. Algumas tecem teias extremamente resistentes e impregnadas de uma substância adesiva em locais estratégicos, aguardando que algum insecto lá caia. Assim que tal acontece, atacam de forma fulminante, injectando-lhe veneno e embrulhando-o em seda para ser depois consumido. Outras espécies perseguem activamente as suas presas, muitas vezes saltando para as capturar. Há também aquelas que fazem emboscadas escondidas em fendas, buracos ou até mesmo camufladas nas flores das quais os insectos se alimentam.

Aranha-vespa (Argiope bruennichi) Serra da Freita (14-09-2019) (3).JPG

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Aranha-vespa (Argiope bruennichi) Serra da Freita (14-09-2019) Aranha-tigre-lobada (Argiope lobata) Espaço Interpretativo da Lagoa Pequena (21-08-2019)

 

Após capturarem as suas presas, as aranhas expelem um fluido digestivo para cima das mesmas começando assim o processo de digestão ainda fora do seu organismo. Após triturarem os pequenos animais com as quelíceras, reabsorvem os fluidos libertados, juntamente com a "carne". Deste processo sobra apenas uma pequena bola de resíduos, contendo as partes da quitina que a aranha é incapaz de digerir. Algumas espécies, como as aranhas caranguejo, injectam os fluidos digestivos no interior corpo das suas presas que são dissolvidas por dentro e sugadas de forma a que apenas resta uma carapaça vazia, ainda com a forma original do insecto.

Aranha-Caranguejo-de-Napoleão (Synema globosum) Santa Marta (18-04-2020) (8).JPG

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Aranha-caranguejo-de-Napoleão (Synema globosum) Seixal (18-04-2020)Aranha-florícola-de-tubérculos (Thomisus onustus) Seixal (10-04-2020)

Aranha-Caranguejo-de-Napoleão (Synema globosum) Parque Luso (18-03-2020) (8).JPG

Aranha-florícola-de-tubérculos (Thomisus onustus) Cercal (11-08-2019) (5) (1).JPG

Aranha-caranguejo-de-Napoleão (Synema globosum) Seixal (18-03-2020) Aranha-florícola-de-tubérculos (Thomisus onustus) Cercal do Alentejo (11-08-2019) 

As suas oito patas, o seu abdómen proeminente, os seus olhos (a maioria das aranhas tem quatro pares de olhos), os seus hábitos e até a forma como se movem constroem um aspecto geral repulsivo aos nossos olhos. Ainda assim, se conseguirmos observá-las de perto, podemos constatar que têm uma beleza muito própria, com formatos exóticos, cores garridas e padrões muito diversos consoante as espécies (e até por vezes com bastante variação individual).

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Aranha (Anelosimus sp.) Parque Luso (15-03-2020) (3).JPG

Aranha (Mangora acalypha) Seixal (24-04-2020) Aranha (Anelosimus sp.) Seixal (15-03-2020)

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Solífugo (Gluvia dorsalis) Tejo Int. - Segura (17-06-2017) (2).JPG

Aranha-caranguejo-de-Napoleão (Synema globosum) Santiago do Cacém (09-08-2019) Solífugo ou Aranha-camelo (Gluvia dorsalis) Segura, Idanha-a-nova (17-06-2017)

 

Enquanto espécie, temos evoluído no sentido de tentarmos viver em ambientes cada vez mais estéreis, sem a presença de outros seres ao nosso redor. Esta tentativa pseudo-divina de nos distanciarmos fisicamente dos restantes animais resulta bastas vezes em autênticas barbaridades... por medo irracional destruímos criaturas que nos são inofensivas e úteis. Acarinhem as vossas aranhas, bem como as osgas, cobras e outros bichos que vos assustam, pois muitas vezes são eles quem nos protege de ameaças bem mais reais...

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