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bicho do mato

Aqui fala-se de natureza, aves, bichos em geral e do que mais me passar pela cabeça

bicho do mato

Aqui fala-se de natureza, aves, bichos em geral e do que mais me passar pela cabeça

09
Dez21

Born free

Cinco anos atrás, dava eu os meus primeiros passos a sério nesta actividade. Apesar de ter crescido no campo, nunca tinha observado a natureza de forma tão exuberante, tão... selvagem, como nas primeiras vezes em que visitei a lezíria. 
 
Palavra alguma poderá descrever a sensação de pequenez e deslumbre... nem tampouco meras imagens farão jamais justiça a tal espectáculo da natureza, mas fica uma vã tentativa de captar um inenarrável momento.
 
Talvez este vídeo consiga explicar, em parte, o porquê desta minha paixão.
 

 

Íbis-preta (Plegadis falcinellus) Lezíria Grande de Vila Franca de Xira (10-12-2016)

 

Sim, estas coisas ocorrem . E a uns breves minutos de distância da capital... 

14
Nov21

Tempus fugit

À data que comecei a escrever esta publicação, tendo recentemente completado 42 anos e estando no início daquela que vai certamente ser a maior aventura da minha vida, foi com naturalidade que senti instalar-se alguma nostalgia, quando decidi organizar alguns registos das minhas saídas de campo.

Hoje, quase exactamente seis anos depois de me iniciar nesta "má vida" de observador de aves/naturalista (extremamente) amador, olho para trás e vejo mais de três centenas de espécies de aves e mais de mil espécies de outros bichos e plantas observados, vejo os livros que li na tentativa de aprender mais sobre eles, vejo as pessoas que chateei com pedidos de ajuda, vejo o quanto aprendi e cresci nesta actividade. Vejo também o muito (mas muito) mais que me falta aprender... que sensação!

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Sempre acreditei que a experiência não depende directamente dos kms que percorremos, mas sim daquilo que fazemos ao longo do percurso, da aprendizagem que dali conseguimos retirar.

Portanto, sinto-me privilegiado por ter logrado visitar grande parte do nosso país e por ter visto locais fantásticos, dignos de figurar num qualquer documentário da BBC ou da National Geographic. Deslumbrei-me com os vales mais profundos das terras nortenhas, naveguei ao largo da mesma costa de onde partiram os grandes navegadores de outrora, explorei as douradas planícies alentejanas, caminhei no leito do Tejo, visitei o ponto mais alto do continente e conheci os estuários dos nossos maiores rios.

Faltam-me as ilhas. Quem sabe, um dia...

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Por esse país fora, observei abutres imponentes e águias majestosas, vi estepárias na aridez da planície e aves marinhas a sobrevoar o oceano. Sondei a noite em busca das misteriosas aves nocturnas e investiguei as copas de árvores e arbustos em busca dos mais pequenos passarinhos. Vi lontras, javalis, raposas e veados e comovi-me com os golfinhos brincalhões. Procurei insectos e aranhas, fotografei plantas, fungos e até bactérias.

Talvez pareça ser algo estranho para se fazer nos tempos livres, levantar de madrugada para ir para o mato observar a natureza... mas há "pancadas" piores, suponho.

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No entanto, nem só de auto-recreação é feito este hobbie... as parcas competências que fui desenvolvendo permitiram-me, por exemplo, contribuir um pouco para o estudo das aves, através da colaboração voluntária em diversos censos e contagens. Pude também fazer algum trabalho "a sério", tendo a oportunidade de trabalhar com profissionais de excelência e utilizar tecnologia de ponta. Cheguei até a ministrar um workshop, experiência "aterrorizante", mas extremamente recompensadora... 

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Ao longo deste percurso, apesar de ser um bicho-do-mato, fui conhecendo bastantes pessoas e tenho orgulho em dizer que fiz uma mão-cheia de amigos, com os quais tem sido um prazer partilhar as minhas aventuras em busca da bicharada. 

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Desde partilhar o deslumbre com uma fabulosa paisagem ou a alegria de observar pela primeira vez uma espécie, às conversas mais sérias sobre natureza, ciência, sociedade, política, até filosofar sobre o sentido da vida ou a profundidade do universo... ou então, apenas gastar tempo a dizer as maiores patetices e a fazer as mais ridículas macacadas. Tudo é possível na companhia de pessoas que sofrem da mesma "doença mental".

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Parece que foi ontem que me sentei num cadeira no sapal, ao nascer do sol, e fiquei cerca de 3 horas a ver uma águia-pesqueira a cuidar da plumagem... eram os meus primeiros passos neste mundo e estava tão longe de imaginar tudo o que iria ver e viver nos próximos anos. Aqueles documentários sobre natureza que antes eu apenas via na TV, passei a vivê-los. A uma escala diferente, é certo, sem leões, girafas e rinocerontes, mas ainda assim não menos impressionantes.

Estes seis anos de aventuras na natureza, percorrendo alguns dos locais mais incríveis que Portugal continental tem para oferecer, na companhia de amigos que "falam a mesma língua", passaram num ápice. Venham os próximos, que serão indubitavelmente muito diferentes... e ainda melhores, acredito.

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Se há conselho que hoje me sinto capacitado para dar a alguém é: vivam os vossos sonhos e partilhem as vossas loucuras com quem vos compreenda. Aproveitem a vida, pois... o tempo voa.

01
Jan21

2020 aos olhos de um naturalista

Há cerca de um ano atrás era reportado o primeiro caso de uma doença que viria a mudar as vidas de todos nós. Os meses seguintes foram um corrupio de estudos científicos, noticiários sensacionalistas, pânico social, açambarcamento de papel higiénico, teimosias negacionistas e jogos políticos. Veio o distanciamento social, foram introduzidas as máscaras e o álcool-gel, chegou o confinamento... a nossa sanidade mental e a nossa resistência à depressão foram testadas ao limite. Quando finalmente pudemos sair de casa, fomos trabalhar e visitar a família, fomos à praia e aos restaurantes, mas sempre limitados por restrições antes impensáveis. Nada de abraços e beijinhos, pois o distanciamento é para manter, higienizar as mãos N vezes ao dia e usar papeis para tocar nos objectos, pois o "bicho" anda aí e é invisível... e assim o "novo normal" instalou-se nas nossas vidas e nas nossas mentes. Hoje, as omnipresentes máscaras têm a dupla função de nos proteger e de disfarçar a profunda frustração que apenas os nossos olhos teimam em denunciar.

Poucos haveria entre nós que não estivessem ansiosos que o anno horribilis terminasse... afinal, todos sentimos que foram 12 meses perdidos em que nada ou quase nada pudemos fazer. Ou não será bem assim?

Bem, os profissionais de saúde e os cientistas tiveram, infelizmente, um ano cheio. A eles devemos sincera gratidão pelo que trabalharam e pelo que sacrificaram pelo bem de outrem. O comum "Zé", no entanto, ficou por casa... trabalhou quando possível, viu séries, fez pão caseiro, leu livros e falou com família e amigos pela net. Pouco mais lhe foi permitido fazer. Os famosos "passeios higiénicos" foram permitindo o arejamento das cabeças e foi durante o confinamento que se começou a notar uma curiosa tendência: o medo dos espaços fechados trouxe muito mais gente para a natureza.

Mas... e aqueles que já antes passavam os seus tempos livres na natureza? Bem, não posso falar pelos outros, mas eu aproveitei o máximo que pude.

https://www.inaturalist.org/

https://www.inaturalist.org/stats/2020/draposo79#sharing

Durante os meses de confinamento, acabei por passar muito tempo "em casa" com pouco para fazer, uma vez que as minhas funções profissionais não se adequam ao teletrabalho. Como as deslocações estavam proibidas, comecei a aproveitar os passeios higiénicos para explorar todo e qualquer espaço natural em redor de casa. Apesar da maior perturbação devido à presença de mais pessoas, acabei por descobrir uns recantos interessantíssimos, tal como descrevi aqui. Com o desconfinamento, voltei a poder fazer as minhas saídas mais longas e a explorar um pouco outras zonas do país.

Ainda que tenha sido obrigado a cancelar alguns projectos, como uma exploração ao Planalto do Barroso na primavera, 2020 acabou por ser um dos meus melhores anos a nível ornitológico... logrei observar 259 espécies de aves. Quanto à minha faceta naturalista mais genérica, tal como o gráfico acima indica, no total efectuei registos fotográficos de 865 espécies, entre animais, plantas e fungos. Esta forma de passar os tempos livres (chamem-lhe hobbie, passatempo, pancada, nerdice, ou o que quiserem) acabou, em grande medida, por me ajudar a suportar um ano terrivelmente difícil de digerir a tantos outros níveis.

Como corolário para tudo isto, tive o privilégio de passar penúltimo dia do ano numa incursão assaz proveitosa por terras alentejanas, recheada de fantásticas observações. Uma excelente maneira de terminar o ano...

Bufo-pequeno (Asio otus) Castro Verde (30-12-2020)Corvo (Corvus corax) Castro Verde (30-12-2020)
Cisne-mudo (Cygnus olor) Castro Verde (30-12-2020)Grifo (Gyps fulvus) Castro Verde (30-12-2020)
Bufo-pequeno (Asio otus) Castro Verde (30-12-2020)Águia-real (Aquila chrysaetos) Castro Verde (30-12-2020)
Milhafre-real (Milvus milvus) Castro Verde (30-12-2020)Abetarda (Otis tarda) Castro Verde (30-12-2020)
Bufo-pequeno (Asio otus) Castro Verde (30-12-2020)Sisão (Tetrax tetrax) Castro Verde (30-12-2020)
Águia-imperial-ibérica (Aquila adalberti) Castro Verde (30-12-2020)Cortiçol-de-barriga-preta (Pterocles orientalis) Castro Verde (30-12-2020)

 

Neste ano que agora entra, aventurem-se, explorem a natureza, usufruam dela, mas acima de tudo respeitem-na e protejam-na. 2020 deu-nos a prova de que, quando as coisas correm mal no nosso mundinho de cimento e vidro, é ela que nos acolhe...

Castro Verde (30-12-2020)

Bom 2021!

 

 

10
Ago20

Fazer ciência a brincar

Fazer observação de natureza implica passar muito tempo no campo. A sós ou acompanhados, aqueles que são apaixonados por esta actividade acabam por ter o privilégio de presenciar cenas de vida selvagem que a maioria das pessoas "comuns" apenas vê nos documentários na televisão.

Entre estes privilegiados, uns têm uma perspectiva artística sobre aquilo que observam na natureza, alguns enveredam por um caminho filosófico ou espiritual, enquanto outros seguem uma visão mais científica, alguns têm até uma aproximação brincalhona e há também aqueles que misturam um pouco de tudo isto... o que importa na realidade é que cada um retire as ilacções, os conhecimentos e a satisfação que mais se adequa à sua forma de ver a natureza.

Concretizando a sua paixão na tentativa de conseguir a foto mais perfeita, os "fotógrafos de natureza" dividem a sua atenção entre a compreensão da arte fotográfica (a luz, os enquadramentos, a exposição) e o conhecimento sobre os seus "motivos". Com o advento da fotografia digital, esta actividade sofreu um autêntico boom e hoje proliferam pela Internet bonitos retratos de bichos...  mas aquele momento especial ou aquele comportamento inaudito registados com excelente qualidade de imagem e real dimensão artística são ainda prémios ao alcance de muito poucos. Estes parcos verdadeiros fotógrafos de natureza são de facto uma classe à parte. Seja como for, dificilmente veremos qualquer uma destas pessoas no campo sem uma câmara na mão... a imagem é a sua vida.

Mais preocupados com o conhecimento científico sobre o mundo natural, os chamados "observadores" concentram as suas energias em compreender aquilo que observam. Que espécies de aves há em determinado local? Quantos indivíduos existem? Quando e porque estão ali presentes? Como se comportam e qual a razão ou significado dos seus comportamentos? Como interagem com o meio? O seu equipamento essencial é materializado num par de binóculos e num bloco de notas (hoje muitas vezes substituído pelo smartphone), mas é muito comum vê-los carregando às costas um telescópio e também... uma câmara fotográfica. Embora até estas pessoas dêem importância à recolha de imagens, o seu foco não é esse e é comum que os resultados sejam sofríveis, apenas meros registos da presença da espécie fotografada.

Confesso que pertenço a este último grupo. Geralmente sozinho, algumas vezes acompanhado por um restrito grupo de "correligionários", ando pelos matos a identificar, contar e registar aves e outros seres vivos. Gosto de obter conhecimento sobre os bichos que observo, seja ele empírico, através da observação directa ou mais académico, utilizando livros e guias.

O meu equipamento fotográfico é fraco, o meu conhecimento de fotografia é limitado e a minha sensibilidade artística é quase nula. Como tal, as minhas fotos são sofríveis e os meus vídeos são demasiado amadores. Ainda assim, vou tentando usá-l@s para transmitir um pouco de conhecimento e, porque não, causar uns sorrisos. 

Ciência cidadã, é o péssimo nome que dão aos dados que vão sendo recolhidos por pessoas como eu. Ainda assim é ciência e, como tal, deve ser levada a sério, não é? Beeeeem... sim, a nossa actividade contribui um pouquinho para a ciência, mas isso não implica que não estejamos ali para nos divertirmos.  

Como em tantas outras actividades, é importante não nos levarmos demasiado a sério. Um olhar crítico e bem humorado é essencial para que um hobbie não passe a ter o peso de um trabalho. Afinal, a vida deve ser levada com leveza e, para nerds como eu, nada é mais divertido do que fazer ciência... a brincar. 

(PS: vejam os vídeos com som e em 1080p HD, ficam menos maus assim)

 

Eu

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