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bicho do mato

Aqui fala-se de natureza, aves, bichos em geral e do que mais me passar pela cabeça

bicho do mato

Aqui fala-se de natureza, aves, bichos em geral e do que mais me passar pela cabeça

05
Mai21

Onde observar: Seixal - Ponta dos Corvos

A Ponta dos Corvos é uma restinga que separa o leito do rio Tejo das águas mais interiores do Sapal de Corroios. Pertencente ao concelho do Seixal, este pedacinho de terra detém bastante importância histórica, pois ali se estabeleceu, em 1947, a chamada Fábrica Atlântica de Seca de Bacalhau. Com uma área de aproximadamente 40 ha e cerca de 600 trabalhadores, esta era a maior fábrica deste tipo na região. Encerrada desde o ínicio dos anos 90, todas as suas infraestruturas, bem como os moinhos de maré nas proximidades, encontram-se hoje completamente entregues ao degredo.

Mas os valores históricos não são os únicos, nem (na minha óptica) os mais importantes valores desta zona. O Sapal de Corroios é um importantíssimo refúgio de vida selvagem, infelizmente também ele completamente ignorado pelo poder autárquico.

Ponta dos CorvosNascer do sol na Ponta dos Corvos (05-12-2015)

 

Apesar de massacrada com a grande quantidade de lixo por ali deixada e com uma perturbação relativamente constante, a biodiversidade deste local ainda é assinalavelmente interessante. Ali podemos encontrar várias espécies de plantas, bastantes insectos, alguns répteis e, claro, muitas aves. Entre estas últimas, sem dúvida que a mais vistosa é o flamingo-rosado.

Flamingo-rosado (Phoenicopterus roseus)Flamingo-rosado (Phoenicopterus roseus) (03-04-2017)

 

Mas a avifauna deste local não é composta apenas pelos pernaltas cor-de-rosa, é muito mais diversa e interessante. No inverno, as aves aquáticas e limícolas dominam a paisagem, pois encontram ali excelentes condições para descansar e procurar alimento. Desde os corvos-marinhos que eu pensava que fossem a razão do nome deste local (informação entretanto corrigida pelo Sr. Manuel da Costa, nos comentários abaixo), passando pelas garças, tarambolas, patos, pilritos, maçaricos, gaivotas, rolas do mar... podemos observar bandos de centenas ou milhares de aves, miríades de pequenos corpos emplumados que se deslocam, ao ritmo das marés, entre os lodos expostos pela baixa-mar e a vegetação que lhes serve de poiso durante a preia-mar.

Ganso-do-egipto (Alopochen aegyptiacus) (03-04-2021)Garça-branca-pequena (Egretta garzetta) (02-04-2021)Pilrito-comum (Calidris alpina) (10-01-2021)Rola-do-mar (Arenaria interpres) (10-01-2021)Perna-vermelha-comum (Tringa totanus) (10-01-2021)Borrelho-grande-de-coleira (Charadrius hiaticula) (08-12-2020)Colhereiro (Platalea leucorodia) (28-11-2020)Tarambola-cinzenta (Pluvialis squatarola) (21-11-2020)Maçarico-real (Numenius arquata) (21-11-2020)Carraceiro (Bubulcus ibis) (15-11-2020)Tadorna (Tadorna tadorna) (06-05-2020)Gaivota-de-cabeça-preta (Ichthyaetus melanocephalus) (28-09-2019)Maçarico-das-rochas (Actitis hypoleucos) (07-01-2018)Pilrito-das-praias (Calidris alba) (01-11-2017)Borrelho-de-coleira-interrompida (Charadrius alexandrinus) (01-11-2017)Perna-verde-comum (Tringa nebularia) (14-01-2017)Pernilongo (Himantopus himantopus) (14-05-2016)Maçarico-galego (Numenius phaeopus) (28-04-2016)Pato-real (Anas platyrhynchos) (19-03-2016)Corvo-marinho-de-faces-brancas (Phalacrocorax carbo) (21-02-2016)Garça-real (Ardea cinerea) (21-02-2016)Alfaiate (Recurvirostra avosetta) (05-12-2015)

 

Esporadicamente até por ali aparece alguma ave mais incomum ou mesmo rara. Não fosse a constante presença humana, a localização privilegiada deste local iria possivelmente atrair ainda mais destas aves.

Ganso-de-faces-pretas (Branta bernicla)Ganso-de-faces-pretas (Branta bernicla) (15-11-2020)

 

Outras aves, passeriformes e não só, frequentam as praias, os pastos, as ruínas e a vegetação de sapal. Várias espécies aparecem por ali na migração, como chascos e picanços, outras ficam para o inverno, como as petinhas, as lavercas e o pisco-de-peito-azul. Também há as que ali nidificam, como a poupa, o rabirruivo e o cartaxo. Se olharmos com atenção, podemos encontrar um variado leque de formas, cores e cantos...

Poupa (Upupa epops) (02-04-2021)Laverca (Alauda arvensis) (28-02-2021)Pega-rabuda (Pica pica) (30-11-2020)Petinha-dos-prados (Anthus pratensis) (01-11-2020)Fuinha-dos-juncos (Cisticola juncidis) (28-09-2019)Cartaxo-comum (Saxicola rubicola) (01-11-2017)Gralha-preta (Corvus corone) (19-11-2016)Toutinegra-do-mato (Sylvia undata) (19-11-2016)Felosinha (Phylloscopus collybita) (27-10-2016)Cotovia-de-poupa (Galerida cristata) (27-10-2016)Chasco-cinzento (Oenanthe oenanthe) (27-10-2016)Pisco-de-peito-azul (Luscinia svecica) (27-10-2016)Pisco-de-peito-ruivo (Erithacus rubecula) (19-10-2016)Papa-moscas-cinzento (Muscicapa striata) (28-08-2016)Pardal (Passer domesticus) (20-07-2016)Toutinegra-dos-valados (Sylvia melanocephala) (14-05-2016)Picanço-real (Lanius meridionalis) (28-04-2016)Melro-preto (Turdus merula) (23-04-2016)Picanço-barreteiro (Lanius senator) (23-04-2016)Andorinha-das-chaminés (Hirundo rustica) (21-02-2016)Torcicolo (Jynx torquilla) (15-11-2020)Perdiz-vermelha (Alectoris rufa) (01-11-2017)
 

Mas estas aves, sejam elas aquáticas ou terrestres, não estão totalmente seguras e protegidas. Várias rapinas frequentam este recanto, em busca de presas. Se algumas se alimentam de insectos e pequenos vertebrados - ou até de peixe - outras tiram partido da fantástica quantidade de presas emplumadas que por ali existem. A águia-d'asa-redonda é comum ali, durante todo o ano, o falcão-peregrino também pode ser visto com frequência, bem como o peneireiro-vulgar. Também a icónica águia-pesqueira passa ali o inverno, usufruindo da abundância de poisos seguros no meio do sapal para devorar os peixes que captura nas águas do Tejo. Estas, entre algumas outras aves de rapina, constituem o topo da cadeia alimentar deste ecossistema.

Falcão-peregrino (Falco peregrinus)Falcão-peregrino (Falco peregrinus brookei) (02-02-2020)

Águia-sapeira (Circus aeruginosus) (02-01-2021)Coruja-do-nabal (Asio flammeus) (13-12-2020)Peneireiro-cinzento (Elanus caeruleus) (01-11-2017)Águia-pesqueira (Pandion haliaetus) (14-01-2017)Peneireiro-vulgar (Falco tinnunculus) (21-02-2016)Águia-d'asa-redonda (Buteo buteo) (21-02-2016)

 

Mais abaixo, numa posição muito ingrata da cadeia alimentar, podemos observar por ali vários invertebrados, como gafanhotos e borboletas, alguns pequenos répteis e os sempre presentes caranguejos, nas zonas banhadas pelo rio. Pequenos e geralmente bem camuflados, estes bichos requerem a nossa melhor atenção, se os queremos encontrar. Mas vale a pena...

Lagarta de Trifoli (Lasiocampa trifolii) (03-04-2021)Besouro (Scarites cyclops) (03-04-2021)Caranguejo-verde (Carcinus maenas) (15-11-2020)Formiga-leão (Creoleon sp.) (26-05-2020)Mariposa (Diasemiopsis ramburialis) (26-05-2020)Esperança (Platycleis sp.) (26-05-2020)Moscardo (Dasypogon sp.) (26-05-2020)Neuróptero‑das‑duas-penas (Nemoptera bipennis) (26-05-2020)Larva de joaninha-de-sete-pintas (Coccinella septempunctata) (06-05-2020)Percevejo (Calocoris roseomaculatus) (06-05-2020)Mariposa (Idaea ochrata) (06-05-2020)Douradinha-do-arco (Thymelicus acteon) (06-05-2020)Cobra-de-pernas-tridáctila (Chalcides striatus) (06-05-2020)Lagartixa-verde (Podarcis virescens) (08-05-2017)

 

Também o coberto vegetal é interessante e até demasiado variado para os meus parcos conhecimentos. Assim, qualquer pessoa que por ali caminhe certamente encontrará uma ou outra plantinha mais vistosa, nem que sejam apenas aquelas cujas flores coloridas imediatamente nos chamam a atenção.

Cistanche (Cistanche phelypaea) (03-04-2021)Silene (Silene nicaeensis) (03-04-2021)Papoila (Papaver rhoeas) (03-04-2021)Goivo-da-praia (Malcolmia littorea) (02-04-2021)Jacinto-das-searas (Leopoldia comosa) (02-04-2021)Erva-gorda (Arctotheca calendula) (02-04-2021)Erva-vassoura (Phelipanche nana) (02-04-2021)Tremoço-azul (Lupinus angustifolius) (13-03-2021)Tomilho (Thymus sp.) (26-05-2020)Arméria (Armeria pungens) (06-05-2020)Erva-pinheira-enxuta (Petrosedum sediforme) (06-05-2020)Ansarina-dos-campos (Linaria spartea) (06-05-2020)
Alho-pôrro (Allium ampeloprasum) (06-05-2020)Botão-azul (Jasione montana) (06-05-2020)

 

As actividades de veraneio desregradas, a enorme quantidade de lixo deixada pelos mariscadores, a falta de fiscalização às actividades lúdicas como a canoagem ou o stand-up paddle, a falta de civismo em geral das pessoas que usufruem deste fantástico espaço, estão a pôr em perigo aquele que é, provavelmente, o maior valor natural deste concelho. Diz-se até que há planos para dinamizar e modernizar as praias da Ponta dos Corvos... a forma como isto será levado a cabo poderá vir a colocar (ou não) ainda mais pressão humana sobre o sapal.

Urge repensar a forma como vemos e utilizamos os nossos espaços naturais, tal como urge exigir às autarquias que protejam e cuidem destes frágeis paraísos. Isto se quisermos que as crianças do futuro ainda possam deslumbrar-se com a delicadeza dos flamingos e maravilhar-se com o voo rasante de um bando de milhares de limícolas... não num zoo, não num qualquer documentário da BBC, mas sim ali, quase à porta das nossas casas.

15
Abr21

Atrás das grades

Apanhar aves para as colocar numa gaiola é um hábito ainda muito enraizado nas zonas mais rurais do nosso país. Fazemo-lo com pequenos passarinhos cujo canto nos deslumbra, mas também com outras aves que queremos ter puramente como ornamento, ou apenas porque... sim. Já o vi acontecer com pintassilgos, tentilhões, verdilhões, milheirinhas, rapinas, patos, perdizes, codornizes. Apesar de ser coisa que hoje me parece impensável e desprovida de qualquer lógica ou razão, em tempos eu próprio já pratiquei estes actos...

 

Pato-trombeteiro (Anas clypeata)Pato-trombeteiro (Anas clypeata) Espaço Interpretativo da Lagoa Pequena (19-03-2016)

 

Fizemo-lo a nós próprios, ao enfiarmo-nos em pequenas caixas de betão, aço e vidro e queremos fazê-lo a todas as outras espécies. Gaiolas, viveiros, cercados... barreiras atrás de barreiras, grades e mais grades... Porquê tentar cercear a liberdade de um ser selvagem, porquê desejar olhar para uma ave engaiolada, quando podemos ir até elas, quando é tão maior o gozo de as ver em liberdade, a interagirem com o seu meio?

Definitivamente, na sua incompreensível ignorância, o ser humano não consegue interiorizar que, atrás das grades, até a maior das belezas entristece, definha e morre...

02
Abr21

Onde observar: "Vou p'ro sol da Caparica" - A vida nas praias de Almada

Nas praias da frente atlântica de Almada, todos os anos estivam milhares de turistas, vindos um pouco de todo mundo. Atraídos pelo clima ameno e pelos extensos areais do concelho, alguns são veraneantes regulares, outros visitam esta zona pela primeira (e possivelmente única) vez. Nos meses de verão, tudo o que vemos entre a Cova do Vapor e a Fonte da Telha é um mar de mamíferos estendidos na areia. Até as pequenas praias escondidas,  já banhadas pelas águas do rio Tejo, são invadidas por estes bípedes ávidos de sol e sal.

 

Borrelho-de-coleira-interrompida (Charadrius alexandrinus)Borrelho-de-coleira-interrompida (Charadrius alexandrinus) Praia do 2º Torrão (20-04-2017)

Finda a época balnear, os mamíferos começam paulatinamente a dar lugar às aves nas praias da Caparica. Desaparecem as lontras esticadas ao sol desde manhã até à noite, reduz-se a quantidade de lixo espalhado no areal, vai-se o barulho dos gritos em "francês aportuguesado", desaparecem as bolas de Berlim... permanecem os surfistas, um ou outro "runner", os passeadores de canídeos e o ocasional pescador.

Aparentemente sem se deixarem incomodar demasiado por estes poucos bípedes não-emplumados, aos poucos vão surgindo os borrelhos-de-coleira-interrompida, que nunca abandonaram as praias e que agora podem voltar a mostrar-se sem receios. A eles em breve se juntarão os simpáticos pilritos-das-praias, as rolas-do-mar, o ocasional pilrito-comum ou até uma tarambola, a descansar um pouco antes de seguir viagem. Nesta altura de transição, em que as aves estão em migração para sul, não é impossível ver por ali maçaricos-galegos, fuselos, borrelhos-grandes-de-coleira e uma ou outra seixoeira. Com sorte vislumbramos um vistoso ostraceiro ou mesmo os incomuns pilritos-escuros, que parecem ter tomado o gosto às praias da margem sul.

Ostraceiro (Haematopus ostralegus) Cova do Vapor (25-12-2020)Seixoeira (Calidris canutus) Cova do Vapor (07-09-2017)Pilrito-das-praias (Calidris alba) Cova do Vapor (28-01-2016)Pilrito-escuro (Calidris maritima) Cova do Vapor (28-01-2016)Rola-do-mar (Arenaria interpres) Cova do Vapor (25-11-2016)Borrelho-grande-de-coleira (Charadrius hiaticula) Cova do Vapor (10-10-2016)Fuselo (Limosa lapponica) Praia do 2º Torrão (08-09-2016)Perna-vermelha-comum (Tringa totanus) Praia do 2º Torrão (14-05-2016)Maçarico-galego (Numenius phaeopus) Praia do 2º Torrão (11-05-2016)Pilrito-comum (Calidris alpina) Cova do vapor (10-05-2016)
Tarambola-cinzenta (Pluvialis squatarola) Cova do Vapor (24-12-2020)Tarambola-dourada (Pluvialis apricaria) Cova do Vapor (14-10-2018)

 

A partir desta altura dá-se também o regresso das gaivotas-d'asa-escura, vão começando a aparecer os poucos gaivotões-reais que por ali invernam e, quem sabe, até podemos ver uma gaivota-prateada a dar um arzinho da sua graça. Várias outras espécies de gaivotas passam pelas praias de Almada, algumas bastante comuns, outras nem tanto assim. As aves pelágicas começam a surgir e quem sabe tenhamos o privilégio de ver um bando de negrolas (ou patos-pretos) em passagem, voando rente ao mar, ou até mesmo um alcatraz a pescar, deixando-se cair das alturas...

 

Gaivotão-real (Larus marinus)Gaivotão-real (Larus marinus) Fonte da Telha (23-11-2019)

Gaivota-de-cabeça-preta (Ichthyaetus melanocephalus) Cova do Vapor (03-10-2020)Gaivota-de-patas-amarelas (Larus michahellis) Trafaria (28-12-2019)Gaivotão-branco (Larus hyperboreus) Costa da Caparica (28-12-2019)Alcatraz (Morus bassanus) Cova do Vapor (02-11-2019)Gaivota-d'asa-escura (Larus fuscus) Fonte da Telha (25-10-2018)Gaivota-de-Audouin (Ichthyaetus audouinii) Cova do Vapor (07-09-2017)Corvo-marinho (Phalacrocorax carbo) Trafaria (28-01-2016)Gaivota-prateada (Larus argentatus) Trafaria (19-11-2016)
Negrola (Melanitta nigra) Cova do Vapor (19-11-2016)Garajau-comum (Sterna sandvicensis) Praia do 2º Torrão (09-05-2016)
 

Estas, entre outras aves invernantes, residentes ou de passagem, sejam elas regulares, mais acidentais ou até raras, vão compondo a avifauna da frente marítima de Almada e vão fazendo o regalo dos observadores da região (e de outros que por lá apareçam). 

Chasco-cinzento (Oenanthe oenanthe)Chasco-cinzento (Oenanthe oenanthe) Cova do Vapor (10-10-2016)

Estorninho-preto (Sturnus unicolor) Cova do Vapor (27-12-2020)Alvéola-branca (Motacilla alba) Cova do Vapor (07-11-2020)Guarda-rios (Alcedo atthis) Praia do 2º Torrão (16-08-2016)Gralha-preta (Corvus corone) Cova do vapor (19-07-2016)Falcão-peregrino (Falco peregrinus) Praia do 2º Torrão (12-05-2016)Peneireiro-vulgar (Falco tinnunculus) Costa da Caparica (18-02-2016)

 

Menos sol, menos calor, menos pessoas, menos barulho, menos lixo e confusão... mais natureza. Agora sim, a vida regressou à Costa.

26
Mar21

Onde observar: Seixal - Parque Urbano da Quinta da Marialva

O concelho do Seixal tem alguns locais com excelentes condições para a Observação de Natureza, principalmente ao nível da avifauna. Desde que tomei residência no concelho, tenho vindo a explorar alguns destes locais com o intuito de ir registando e inventariando a biodiversidade que por aqui encontro. O resultado dos meus esforços, bem como dos esforços de muitas outras pessoas, pode ser verificado num projecto na plataforma iNaturalist, que já conta com mais de 9000 observações de cerca de 1400 espécies, registadas por mais de 160 observadores:

https://www.inaturalist.org/projects/biodiversidade-do-seixal

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Junto a Santa Marta do Pinhal existe o Parque Urbano da Quinta da Marialva, uma zona de lazer equipada com um circuito de manutenção, um parque geriátrico, um percurso pavimentado, vários relvados, um campo de basquetebol, um campo pelado de futebol, um parque infantil, uma zona de churrascos, um anfiteatro ao ar livre com palco para concertos e um pavilhão multiusos. Aqui ocorrem alguns eventos como a "Mostra de actividades económicas" (vulgo feira) mensal, as Festas de Corroios, ou a Feira Medieval de Corroios. Este parque é utilizado diariamente por dezenas de pessoas para fazer desporto, passear os cães, brincar com as crianças ou simplesmente passear e apanhar sol.

Não se pode dizer que seja um local com grandes valores naturais, uma vez que, tal como a maioria dos jardins no Seixal, é bastante insípido e despido de vegetação, mantendo apenas algumas árvores de médio/grande porte e uns poucos arbustos. Tem, no entanto, uma vala de escoamento de águas pluviais que consegue ser suporte para um ecossistema interessante e variado.

 

Bico-de-lacre (Estrilda astrild)Bico-de-lacre (Estrilda astrild) (13-10-2016)

Ao nível da avifauna, este parque tem 62 espécies registadas, sendo a maioria aves comuns que podem ser encontradas em qualquer outro parque ou jardim. Na vala facilmente encontraremos os exóticos bicos-de-lacre, fuinhas-dos-juncos, uma ocasional carriça, talvez uma alvéola ou duas e até um casal de patos-reais. Nos relvados pululam os melros e as invernantes petinhas-dos-prados, aparece uma cotovia de vez em quando, circulam os inevitáveis pardais e os estridentes estorninhos, em busca de vermes para se alimentarem. As árvores dão abrigo a piscos, pintassilgos, milheirinhas, gaios, trepadeiras, chapins e uma série de outros passeriformes.

Fuinha-dos-juncos (Cisticola juncidis) (26-09-2020)Lugre (Spinus spinus) (15-03-2020)Alvéola-cinzenta (Motacilla cinerea) (04-11-2017)Petinha-dos-prados (Anthus pratensis) (04-11-2017)Alvéola-amarela (Motacilla flava) (21-10-2017)Chasco-cinzento (Oenanthe oenanthe)(11-10-2017)Papa-moscas-cinzento (Muscicapa striata) (11-10-2017)Papa-moscas-preto (Ficedula hypoleuca) (11-10-2017)Gaio (Garrulus glandarius) (18-06-2017)Carriça (Troglodytes troglodytes) (01-04-2017)Andorinha-das-Chaminés (Hirundo rustica) (01-04-2017)Estorninho-preto (Sturnus unicolor) (01-04-2017)Cotovia-de-poupa (Galerida cristata) (01-04-2017)Melro-preto (turdus merula) (28-02-2017)Felosinha (Phylloscopus collybita) (25-02-2017)Pisco-de-peito-ruivo (Erithacus rubecula) (29-11-2016)Tentilhão-comum (Fringilla coelebs) (15-11-2016)Toutinegra-de-cabeça-preta (Sylvia melanocephala) (15-11-2016)Pardal (Passer domesticus) (15-11-2016)Milheirinha (Serinus serinus) (15-11-2016)Verdilhão (Carduelis chioris) (15-11-2016)Alvéola-branca (Motacilla alba) (27-10-2016)Gralha-preta (Corvus corone) (19-10-2016)Trepadeira-comum (Certhia brachydactyla) (19-10-2016)

Toutinegras, andorinhas, felosinhas, verdilhões, gralhas, tentilhões, chascos-cinzentos, papa-moscas, taralhões... uns no inverno, uns no verão, alguns apenas de passagem na migração e outros todo o ano. Para quem quiser andar de "olhos abertos", há sempre um espectáculo colorido para ver.

 

Periquito-comum (Melopsittacus undulatus)Periquito-comum (Melopsittacus undulatus) (25-02-2017)

E uma das mais coloridas aves que por ali costumavam andar era esta pequena periquita, escapada de alguma gaiola. Observei-a durante uns dois anos, até que deixei de a ver. Qual terá sido o seu destino?

Outras aves menos exuberantes vivem por ali as suas vidas calmas. A maioria de nós não olha duas vezes para um pombo-doméstico ou para uma rola-turca, mas não deixam de ter a sua beleza...

Rola-turca (Streptopelia decaocto) (15-11-2016)Pombo-das-rochas-doméstico (Columba livia) (19-10-2016)

 

Há no entanto aves que, apesar de comuns, não passam despercebidas. O rabirruivo-preto é uma dessas aves, pelo descaramento com que se aproxima de nós humanos, chegando mesmo a reclamar para si partes das nossas casas... esta ave tem o hábito de se aproveitar de recantos, caixas de estores, buracos nas paredes, ou qualquer zona nas nossas casas que lhe possa servir de suporte para o ninho. O que talvez algumas pessoas não saibam é que este passarinho tem um "primo" que nos visita raras vezes, quando em migração para África. O rabirruivo-de-testa-branca foi uma das maiores surpresas que já encontrei na Marialva.

Rabirruivo-de-testa-branca (Phoenicurus phoenicurus) (04-11-2017)Rabirruivo-preto (Phoenicurus ochruros) (01-04-2017)

 

Mas a maior surpresa foi outra. Duas aves das terras nórdicas que resolveram descer pela Península Ibérica e vir passar uns dias à Quinta da Marialva. Esta foi a única vez que observei esta espécie que é, para mim, o mais bonito dos tordos que ocorrem no nosso território:

Tordo-zornal (Turdus pilaris)

Tordo-zornal (Turdus pilaris)Tordo-zornal (Turdus pilaris) (26-11-2016)

 

Claro que há muito mais do que apenas aves naquele parque. A vegetação que cobre e circunda a vala, bem como algumas plantas por ali espalhadas e até a própria relva abrigam uma quantidade apreciável de pequenas criaturas.

Longicórnio (Cerambyx welensii)

Longicórnio (Cerambyx welensii) (10-06-2017)

 

Entre escaravelhos, caracóis, moscas, abelhas, aranhas, gafanhotos, vespas, cigarras, libelinhas, borboletas e mariposas, muitos outros invertebrados podem ser observados literalmente debaixo dos nossos pés, alguns deles bastante bem camuflados. Tenham cuidado com o que pisam...

Cigarrinha-verde (Cicadella viridis) (01-11-2020)Tira-olhos-menor (Anax parthenope) (26-09-2020)Mosca (Thereva sp.) (15-03-2020)Gorgulho (Lixus pulverulentus) (15-03-2020)Libelinha-anã (Ischnura pumilio) (13-03-2020)Abelhão-terrestre (Bombus terrestris) (13-03-2020)Axadrezada-comum (Carcharodus tripolina) (13-03-2020)Saltão-verde-maior (Tettigonia viridissima) (13-03-2020)Borboleta-da-couve (Pieris brassicae) (13-03-2020)Carochinha (Chrysolina bankii) (13-03-2020)Cigarrinha (Cercopis intermedia) (13-03-2020)Gafanhoto-ocre (Calliptamus barbarus) (04-08-2019)Vespa (Philanthus sp.) (04-08-2019)Cigarra-comum (Cicada orni) (04-08-2019)Libélula-de-nervuras-vermelhas (Sympetrum fonscolombii) (04-08-2019)Iscnura-Ibero-Magrebina (Ischnura graellsii) (21-07-2019)Mosca-das-flores (Paragus quadrifasciatus) (21-07-2019)Percevejo (Eurydema ornata) (21-07-2019)Mosca-das-flores (Eristalinus aeneus) (21-07-2019)Abelha (Halictus scabiosae) (21-07-2019)Mosca-das-flores (Eupeodes corollae) (21-07-2019)Gafanhoto (Calliptamus sp.) (21-07-2019)Mosca-das-flores (Sphaerophoria sp.) (21-07-2019)Vespa-do-papel-europeia (Polistes dominula) (21-07-2019)Mosca (Família Sarcophagidae) (21-07-2019)Mosca (Coenosia tigrina) (21-07-2019)Y-de-prata (Autographa gamma) (15-03-2020)Azul-comum (Polyommatus icarus) (21-07-2019)

 

Obviamente, onde há insectos, há os que se alimentam deles. Não é difícil encontrar por ali alguns répteis e anfíbios, como lagartos, rãs, osgas e até serpentes.

Lagartixa-verde (Podarcis virescens)Lagartixa-verde (Podarcis virescens) (28-02-2017)

Rã-verde (Pelophylax perezi) (26-09-2020)Osga-comum (Tarentola mauritanica) (28-02-2017)

 

Mesmo os locais que entendemos como "nossos" são inevitavelmente refúgio de muitas outras criaturas. Por muito que tenhamos a tendência de nos consideramos o centro do universo, devemos aprender a conviver com elas e a respeitá-las, pois todas têm um papel a cumprir na ordem natural das coisas. Se o conseguirmos, facilmente chegaremos à conclusão que, na verdade, cabemos cá todos...

21
Mar21

Natureza poética

Para comemorar o Dia Mundial da Poesia e correspondendo ao desafio do Pedro, trago-vos um poema que diz muito daquilo que sou...

Ganso-patola (Morus bassanus) Farilhões, Peniche (21-05-2017)

There is a pleasure in the pathless woods,

There is a rapture in the lonely shore,

There is society, where none intrudes,

By the deep Sea, and music in its roar:

 

I love not Man the less, but Nature more,

From these our interviews, in wich I steal,

From all I may be, or have been before,

To mingle with the Universe, and feel

What I can ne'er express, yet cannot all conceal.

 

Lord Byron, in "Childe Harold’s Pilgrimage"

 

 

E, porque somos um país de poetas, claro que não poderia assinalar um dia como este sem uma referência ao grande e incontornável Pessoa. Celebremos um dia que é mundial, também nas palavras sentidas de um português que, como ninguém, soube pintar sentimentos na alma daqueles que o lêem.

Chícharo-bravo (Lathyrus cicera) Seixal (23-04-2020)

Flor que não dura
Mais do que a sombra dum momento
Tua frescura
Persiste no meu pensamento.

Não te perdi
No que sou eu,
Só nunca mais, ó flor, te vi
Onde não sou senão a terra e o céu.

 

Fernando Pessoain "Cancioneiro"

05
Mar21

Onde observar: Seixal - Santa Marta do Pinhal

O concelho do Seixal tem alguns locais com excelentes condições para a Observação de Natureza, principalmente ao nível da avifauna. Desde que tomei residência no concelho, tenho vindo a explorar alguns destes locais com o intuito de ir registando e inventariando a biodiversidade que por aqui encontro. O resultado dos meus esforços, bem como dos esforços de muitas outras pessoas, pode ser verificado num projecto na plataforma iNaturalist, que já conta com mais de 8000 observações de 1344 espécies, registadas por mais de 150 observadores:

https://www.inaturalist.org/projects/biodiversidade-do-seixal

- - -

Santa Marta do Pinhal pertence à freguesia de Corroios e é um pequeno centro urbano composto maioritariamente por edifícios multi-familiares e por uma zona industrial. É limitado a Norte e a Este pela autoestrada nº 2, a Oeste por Vale Milhaços e a Sul por uma zona de antigos areeiros, hoje colonizados por matos e pinhal.

Vespa (Chrysura rufiventris)Vespa (Chrysura rufiventris) (26-04-2020)

O bairro dispõe de um jardim central relvado (com algumas árvores de médio/grande porte) que, por ser pensado exclusivamente para o lazer humano, é relativamente insípido no que toca a biodiversidade. Ainda assim, como muitos animais já se adaptaram a viver em meios antropogénicos, podemos encontrar vida um pouco por todo lado. Rolas-turcas (Streptopelia decaocto), melros (Turdus merula), rabirruivos-pretos (Phoenicurus ochruros), pintassilgos (Carduelis carduelis) e até os exóticos mainás-de-crista (Acridotheres cristatellus) coexistem por ali com os humanos e as suas barulhentas crias...

Rabirruivo-preto (Phoenicurus ochruros)Rabirruivo-preto (Phoenicurus ochruros) (11-05-2019)

 

No entanto o maior valor natural desta zona encontra-se na área a sul, onde antes existiam os areeiros. O abandono a que esses locais foram votados permitiu que a natureza se desenvolvesse e por ali podemos encontrar interessantes exemplos de vida animal e vegetal, dependendo da estação do ano.

Apesar do tipo de vegetação não ser exuberante nem propício a uma enorme diversidade de aves, é ainda assim possível observar várias espécies, como o pica-pau-malhado-grande (Dendrocopos major), a águia-d'asa-redonda (Buteo buteo), o abelharuco (Merops apiaster), a milheirinha (Serinus serinus), o verdilhão (Chloris chloris) ou o rouxinol (Luscinia megarhynchos), entre várias outras.

Milheirinha (Serinus serinus) (24-03-2020)Águia-d'asa-redonda (Buteo buteo) Santa Marta (14-02-2021)Alvéola-cinzenta (Motacilla cinerea) (14-02-2021)Estorninho-preto (Sturnus unicolor) (01-12-2020)Cotovia-de-poupa (Galerida cristata) (02-05-2020)Rouxinol (Luscinia megarhynchos) (25-04-2020)Melro-preto (Turdus merula) (23-04-2020)Chapim-rabilongo (Aegithalos caudatus) (26-03-2020)Juvenil de cartaxo-comum (Saxicola rubicola) (26-03-2020)Bico-de-lacre (Estrilda astrild) (24-03-2020)Fuinha-dos-juncos (Cisticola juncidis) (24-03-2020)Verdilhão (Chloris chloris) (22-03-2020)

 

Entre as espécies vegetais que podemos observar na zona, encontram-se as minhas flores preferidas... orquídeas selvagens. Até hoje encontrei quatro espécies de orquídeas nos arredores de santa Marta: a erva-do-salepo (Anacamptis coriophora fragrans), a erva-língua-constricta (Serapias strictiflora), a erva-língua-menor (Serapias parviflora) e a abelheira (Ophrys apifera). Infelizmente, não deveremos voltar a ver algumas destas plantas, pois o habitat onde floresceram o ano passado foi soterrado pelas movimentações de terras junto ao novo complexo desportivo de Santa Marta. O desenvolvimento urbanístico pode proporcionar-nos comodidades e melhores condições de vida, mas cobra o seu preço...

Erva-do-salepo (Anacamptis coriophora ssp. fragrans)

Erva-do-salepo (Anacamptis coriophora fragrans) (25-04-2020)

Erva-língua-constricta (Serapias strictiflora) (26-04-2020)Erva-língua-menor (Serapias parviflora) (26-04-2020)

Abelheira (Ophrys apifera)Abelheira (Ophrys apifera) (24-04-2020)

 

Para delícia de alguns e arrepios de outros, facilmente encontraremos na zona uma variedade de espécies de répteis e anfíbios. Em Santa Marta já pude observar duas espécies de serpentes, duas espécies de sapos, uma salamandra e cinco espécies de lagartos. Infelizmente não os consegui fotografar a todos...

Sapo-corredor (Epidalea calamita)Sapo-corredor (Epidalea calamita) (30-04-2020)

Ovos de sapo-comum (Bufo spinosus) (13-02-2021)Osga-comum (Tarentola mauritanica) (13-02-2021)Larva de salamandra-de-fogo (Salamandra salamandra) (13-02-2021)Lagartixa-do-mato (Psammodromus algirus) (03-04-2020)Lagartixa-de-dedos-denteados (Acanthodactylus erythrurus) (03-04-2020)Lagartixa-verde (Podarcis virescens) (22-03-2020)

 

Até mamíferos selvagens como o coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus) ou o sacarrabos (Herpestes ichneumon) convivem connosco de uma forma muito mais próxima do que imaginamos. Quantas vezes teremos passado por um deles, escondido nas ervas, a poucos metros dos nossos pés?

Coelho-Bravo (Oryctolagus cuniculus)Coelho-Bravo (Oryctolagus cuniculus) (22-03-2020)

 

E mesmo essa vegetação que os protege dos nossos olhos esconde muito mais do uns bichos e umas orquídeas... há surpresas muito agradáveis no coberto vegetal desta zona. É verdadeiramente fantástica a panóplia de cores e a miríade de formas que podemos observar, se caminharmos com atenção.

Cila-de-uma-folha (Scilla monophyllos) (13-02-2021)Papiro (Cyperus sp.) (03-06-2020)Suspiro-roxos-dos-jardins (Sixalix atropurpurea) (03-06-2020)Trevo (Vicia tetrasperma) (01-05-2020)Queiró (Erica umbellata) (01-05-2020)(Sesamoides spathulifolia) (01-05-2020)Tojo (Ulex sp.) (01-05-2020)Giesta-dos-jardins (Spartium junceum) (01-05-2020)Genciana-da-praia (Centaurium maritimum) (01-05-2020)Cebola-abrótea (Asphodelus ramosus) (30-04-2020)Trevo-de-folhas-estreitas (Trifolium angustifolium) (30-04-2020)Unha-de-gata (Ononis sp.) (30-04-2020)Tomilho (Thymus villosus) (26-04-2020)Língua-de-vaca-ondeada (Anchusa undulata) (26-04-2020)Trevo-amarelo (Trifolium campestre) (26-04-2020)Tripa-de-ovelha (Andryala integrifolia) (26-04-2020)Bela-manhã (Convolvulus tricolor tricolor) (25-04-2020)Focinho-de-rato (Misopates orontium) (25-04-2020)Murta (Myrtus communis) (24-04-2020)Ervilha-de-cheiro (Lathyrus odoratus) (24-04-2020)Rúcula (Eruca vesicaria) (24-04-2020)Mostardeira-branca (Sinapis alba) (24-04-2020)Erva-cidreira-brasileira (Lippia alba) (24-04-2020)Ervilhaca-peluda (Vicia villosa) (24-04-2020)Tintureira (Phytolacca heterotepala) (24-04-2020)Erva-toira (Orobanche crenata) (24-04-2020)Trevo-de-flores-reviradas (Trifolium resupinatum) (23-04-2020)Chícharo-bravo (Lathyrus cicera) (23-04-2020)Língua-de-cão (Cynoglossum creticum) (23-04-2020)Centáurea (Centaurium sp.) (23-04-2020)Margarida-do-monte (Bellis sylvestris) (23-04-2020)Calças-de-cuco (Gladiolus italicus) (23-04-2020)Ervilhaca-de-Bengala (Vicia benghalensis) (19-04-2020)Língua-de-ovelha (Plantago lagopus) (19-04-2020)Charuteira (Nicotiana glauca) (19-04-2020)Cornichão (Lotus sp.) (19-04-2020)Trevo-betuminoso (Bituminaria bituminosa) (19-04-2020)Arenária (Spergularia rubra) (19-04-2020)Esteva (Cistus ladanifer) (26-03-2020)Flor-de-ouro (Bellardia trixago) (22-03-2020)Fumária-dos-campos (Fumaria agraria) (22-03-2020)Ervilhaca-dos-campos (Lathyrus ochrus) (22-03-2020)Calcitrapa (Centranthus calcitrapae) (22-03-2020)Borragem (Borago officinalis) (22-03-2020)

 

Entre esta área mais verde e a zona urbanizada propriamente dita podem ser observadas centenas de espécies de invertebrados... até mesmo dentro de casa. Alguns destes animais serão mais agradáveis à vista do que outros, mas todos têm o seu papel nos ecossistemas que nos rodeiam. 

Mosquito (Nephrotoma sp.) (13-02-2021)Besouro-tigre-verde (Cicindela campestris) (13-02-2021)Aranha-tenaz (Dysdera crocata) (13-02-2021)Barata-americana (Periplaneta americana) (09-08-2020)Formiga-carrilheira (Messor barbarus) (01-05-2020)Mosca-abelha (Villa sp.) (01-05-2020)Gafanhoto‑de‑cabeça‑cónica (Pyrgomorpha conica) (01-05-2020)Borboleta-das-sardinheiras (Cacyreus marshalli) (01-05-2020)Mosca (Lomatia sp.) (30-04-2020)Besouro-tigre (Cicindela maroccana) (30-04-2020)Longicórnio (Pseudovadonia livida) (30-04-2020)Gorgulho (Mycterus curculioides) Santa Marta (25-04-2020)Escaravelho (Rhagonycha fulva) (24-04-2020)Mosca (Bombylella atra) (24-04-2020)Aranha (Mangora acalypha) (24-04-2020)Mariposa (Acontia lucida) (24-04-2020)Grilo (Eumodicogryllus bordigalensis) (24-04-2020)Percevejo-do-funcho (Graphosoma italicum) (24-04-2020)
Escaravelho (Hymenoplia sp.) (24-04-2020)Centopeia-castanha (Lithobius forficatus) (24-04-2020)
Escaravelho (Stenopterus mauritanicus) (24-04-2020)Escaravelho (Cardiophorus signatus) (24-04-2020)Saltão-verde-maior (Tettigonia viridissima) (23-04-2020)Mariposa (Coscinia chrysocephala) (23-04-2020)Longicórnio (Calamobius filum) (23-04-2020)Mosca (Empis tessellata) (23-04-2020)Pirilampo-lusitânico (Luciola lusitanica) (23-04-2020)Formiga-carpinteira (Camponotus sp.) (23-04-2020)Besouro-tigre (Lophyra flexuosa flexuosa) (23-04-2020)Caracol (Oestophora barbella) (23-04-2020)Escaravelho (Anthaxia parallela) (23-04-2020)Percevejo (Gonocerus insidiator) (23-04-2020)Bicha-cadela (Forficula auricularia) (20-04-2020)Tatuzinho-comum (Armadillidium vulgare) (20-04-2020)Caracoleta (Cornu aspersum) (20-04-2020)Ralo-das-vinhas (Gryllotalpa vineae) (19-04-2020)Aranha-caranguejo (Xysticus sp.) (19-04-2020)Mosca (Tachina magnicornis) (19-04-2020)Abelha-carpinteira-europeia (Xylocopa violacea) (19-04-2020)Percevejo (Eurygaster austriaca) (19-04-2020)Libélula-de-nervuras-vermelhas (Sympetrum fonscolombii) (18-04-2020)Percevejo (Coreus marginatus) (18-04-2020)Mosca-das-flores (Sphaerophoria scripta) (18-04-2020)Aranha-florícola-de-tubérculos (Thomisus onustus) (18-04-2020)Douradinha-do-arco (Thymelicus acteon) (18-04-2020)Aranha-Caranguejo-de-Napoleão (Synema globosum) (18-04-2020)Escaravelho (Oedemera simplex) (11-04-2020)Percevejo-da-tília (Pyrrhocoris apterus) (18-04-2020)Milípede-português (Ommatoiulus moreleti) (18-04-2020)Bicho-de-conta (Porcellionides sexfasciatus) (18-04-2020)Percevejo (Closterotomus norwegicus) (18-04-2020)Caracol-das-tascas (Theba pisana) (18-04-2020)Mosca-de-banheiro (Clogmia albipunctata) (13-04-2020)Percevejo (Enoplops scapha) (11-04-2020)Percevejo (Centrocoris variegatus) (11-04-2020)Mosca-das-flores (Sphaerophoria scripta) (11-04-2020)Percevejo-mediterrânico (Carpocoris mediterraneus) (11-04-2020)Mariposa-mede-palmos (Eupithecia centaureata) (11-04-2020)Mosquito (subfamília Dolichopodinae) (11-04-2020)Jaquetão-das-flores-mediterrânico (Oxythyrea funesta) (11-04-2020)Mariposa-pluma (Crombrugghia laetus) (10-04-2020)Mariposa (Udea ferrugalis)(10-04-2020)Longicórnio (Agapanthia suturalis) (10-04-2020)Aranha-lince (Oxyopes sp.) (03-04-2020)Azul-comum (Polyommatus icarus) Santa Marta (03-04-2020)Besouro-do-cesto (Lachnaia tristigma) Santa Marta (03-04-2020)Cramera (Aricia cramera) (03-04-2020)Abelhão-terrestre (Bombus terrestris) (03-04-2020)Semente-de-lima (Oxycarenus lavaterae) (03-04-2020)Mosca-verde (Lucilia sp.) (26-03-2020)Bicho-de-conta (Armadillo officinalis) (26-03-2020)Abelha-melífera-ibérica (Apis mellifera iberiensis) (26-03-2020)Longicórnio (Agapanthia cardui) (22-03-2020)Borboleta-cauda-de-andorinha (Papilio machaon) (24-03-2020)Carochinha (Chrysolina bankii) (24-03-2020)Mariposa-mede-palmos (família Geometridae) (24-03-2020)Lagarta de mariposa (subfamília Arctiinae) (23-03-2020)Rubi (Callophrys rubi) (23-03-2020)Maravilha (Colias croceus) (23-03-2020)Ariana (Pararge aegeria) (22-03-2020)Longicórnio (Agapanthia cardui) (22-03-2020)Y-de-prata (Autographa gamma) (22-03-2020)Escaravelho (Oedemera flavipes) (22-03-2020)Mosca (Chrysotoxum sp.) (22-03-2020)Almirante-vermelho (Vanessa atalanta) (22-03-2020)Gorgulho (Lixus pulverulentus) (22-03-2020)Mosca (Conophorus sp.) (22-03-2020)Processionária-do-pinheiro (Thaumetopoea pityocampa) (01-09-2019)

 

Até nos sítios mais insuspeitos podemos encontrar pequenas maravilhas, basta andarmos com atenção à natureza que nos rodeia. Da próxima vez que sair para um "passeio higiénico", esteja atento(a). 

20
Fev21

Dinossauros modernos

Os dinossauros foram um grupo de répteis pré-históricos que dominaram o planeta por mais de 140 milhões de anos. Apesar de terem desenvolvido as mais variadas formas e tamanhos, todos tinham em comum uma característica que ajudou a garantir um maior sucesso sobre os restantes répteis que existiam na altura: os seus membros posteriores eram direitos, perpendiculares ao corpo. Esta característica pode ser observada ainda hoje nos seus mais próximos parentes vivos... as aves.

No entanto, apesar de não serem descendentes directos dos dinossauros (note-se as patas traseiras paralelas ao corpo), os crocodilos e os lagartos são os animais que mais facilmente nos trazem à mente os titãs de outrora. Ao ver um destes bichos "escarrapachados" ao sol, é quase impossível impedir que a nossa imaginação viaje mais de 65 milhões de anos no passado...

Os lagartos pertencem à subordem Sauria, compreendida na ordem Squamata (que também engloba as serpentes), uma das quatro ordens da classe Reptilia. Entre os aspectos essenciais que os distinguem das serpentes contam-se a existência de pálpebras e de ouvido externo, o facto de a sua muda de pele ocorrer por farrapos e não toda de uma vez, bem como a capacidade de autotomia (faculdade de libertar a cauda, utilizada geralmente como defesa contra predadores). E sim, entre estes aspectos não considerei a presença de patas... lá chegaremos.

Sardão (Timon lepidus)Sardão (Timon lepidus) Almada (02-07-2020)

Os nossos lagartos são essencialmente carnívoros e alimentam-se de uma grande variedade de animais, desde pequenos artrópodes como formigas ou aranhas, a micromamíferos, aves ou até outros répteis.

Se por um lado estes animais são exímios predadores, são também eles predados por uma série de outras espécies. A águia-cobreira (Circaetus gallicus) é uma especialista em capturar répteis, mas também algumas rapinas nocturnas se contam entre as aves que se alimentam destes bichos. Pássaros como o melro-azul (Monticola solitarius) e o melro-das rochas (Monticola saxatilis) são também considerados especialistas em capturar pequenas lagartixas. Mas a lista de predadores não se fica por aqui. As espécies maiores de lagartos tendem a caçar as mais pequenas e algumas serpentes baseiam mesmo a sua dieta nestes pequenos répteis quadrúpedes. Alguns juvenis chegam até a ser devorados por artrópodes como aranhas ou escolopendras. No entanto, um dos seus maiores predadores é o gato doméstico... o nosso "gatinho" de casa é um exímio caçador de lagartos e até de algumas serpentes, entre outros pequenos animais. Vários estudos, como este, realizado na Austrália, demonstram que os gatos têm um enorme impacto na biodiversidade das zonas onde ocorrem, sejam eles assilvestrados ou apenas animais de estimação aos quais lhes é permito sair de casa. Claro que, entre todas as ameaças a que estão sujeitos, a maior será de origem humana, com as alterações que causamos aos seus habitats.

Ainda assim, várias espécies de lagartos vão sobrevivendo no nosso país...

 

Lagartixa-de-dedos-denteados (Acanthodactylus erythrurus)Lagartixa-de-dedos-denteados (Acanthodactylus erythrurus) Seixal (11-04-2020)

Este é o lagarto mais rápido da europa. Conhecido como lagartixa-da-areia ou lagartixa-de-dedos-denteados, é possível vê-lo em zonas abertas a acelerar pela areia atrás de uma presa, chegando a saltar para capturá-la em pleno ar. O seu "focinho" robusto dá-lhe, aos meus olhos, um ar primitivo e faz dele um dos meus dois lagartos preferidos, entre todos os que já pude observar. Ocorre na Península Ibérica e no norte de África, sendo que em Portugal a sua distribuição está limitada a umas poucas manchas dispersas pelo país.

 

Lagartixa-do-mato-ibérica (Psammodromus occidentalis)Lagartixa-do-mato-ibérica (Psammodromus occidentalis) Seixal (19-05-2020)

Até meados de 2020 nunca tinha observado esta espécie, mas afinal até tinha uma pequena população relativamente perto de casa. A lagartixa-do-mato-ibérica vive em zonas abertas com vegetação arbustiva esparsa e alimenta-se de pequenos invertebrados. É endémica da zona ocidental da Península Ibérica, ou seja, só existe em Portugal e na zona oeste de Espanha.

 

Cobra-de-pernas-tridáctila (Chalcides striatus)Cobra-de-pernas-tridáctila (Chalcides striatus) Seixal (06-05-2020)

Ao contrário do que o seu nome parece indicar, a cobra-de-pernas-tridáctila é, na verdade, um lagarto. Ainda assim, os seus membros com três dedos são essencialmente inúteis na locomoção, pois, tal como as verdadeiras cobras, ele serpenteia quando se move. E foi exactamente o hábito de serpentear velozmente por entre as ervas que lhe granjeou um dos nomes pelos quais é conhecido: fura-pastos.

Este interessante réptil alimenta-se de pequenos invertebrados e vive em zonas abertas com alguma humidade, como prados e lameiros. Tem a curiosidade de ser ovovivíparo (os juvenis desenvolvem-se dentro de um ovo no interior do corpo da progenitora e nascem já completamente desenvolvidos).

Ocorre na Península Ibérica e no sul de França.

 

Lagarto-de-água (Lacerta schreiberi)Lagarto-de-água (Lacerta schreiberi) Rio Caima - Oliveira de Azeméis (22-02-2020)

Este é, para mim, um dos lagartos mais bonitos que temos por cá. O lagarto-de-água é um excelente nadador e ocorre em habitats húmidos como margens de  ribeiros, tanques e lameiros de montanha. Alimenta-se de pequenos invertebrados e de fruta (principalmente de amoras). É endémico da Península Ibérica.

 

Lagartixa-do-Noroeste (Podarcis guadarramae)Lagartixa-do-noroeste (Podarcis guadarramae) Leomil - Moimenta da Beira (28-04-2019)

Esta pequena lagartixa é também ela um endemismo ibérico. Em Portugal ocorre na zona norte e centro. Alimenta-se de artrópodes e está bem adaptada a ambientes urbanos, sendo fácil observá-la a apanhar sol no topo de um qualquer muro velho.

 

Lagartixa-de-bocage (Podarcis bocagei)Lagartixa-de-bocage (Podarcis bocagei) Pitões da Junias - Montalegre (11-05-2018)

O verde forte no dorso dos machos desta espécie destaca-se até no meio da vegetação. Sendo também um endemismo ibérico, a distribuição da lagartixa-de-bocage em Portugal é limitada ao noroeste do território. É um pequeno lagarto bastante adaptável, sendo possível encontrá-la em terrenos abertos, clareiras, jardins e até em zonas urbanas. Alimenta-se de artrópodes.

 

Licranço (Anguis fragilis)Licranço (Anguis fragilis) Donões - Montalegre (11-05-2018)

Este animal é a razão pela qual não incluí a presença de membros nas características distintivas entre lagartos e cobras. Também conhecido como cobra-de-vidro, o licranço é um lagarto totalmente desprovido de patas, que se alimenta de invertebrados que encontra nas zonas relativamente húmidas onde vive. Ocorre em grande parte da Europa, estando a sua distribuição no nosso país limitada a norte do rio Tejo. Apesar da crença popular, o licranço é um animal completamente inofensivo para o ser humano.

 

Lagartixa-verde (Podarcis virescens)Lagartixa-verde (Podarcis virescens) Seixal (25-04-2018)

Dentro das lagartixas do género Podarcis, esta é a que tem a maior área de distribuição, estando bem distribuída a sul do rio Tejo, ainda que, para norte, a sua zona de ocorrência prolonga-se apenas pelo litoral até à zona de Espinho. Também esta espécie só existe na Península Ibérica.

É possível vê-la todo o ano, nos dias quentes ou amenos em pedras, muros, jardins ou até paredes de habitações, sendo a lagartixa que mais está presente no nosso dia-a-dia. Alimenta-se de artrópodes.

 

Lagartixa-do-mato (Psammodromus algirus)Lagartixa-do-mato (Psammodromus algirus) Espaço interpretativo da Lagoa Pequena - Sesimbra (16-04-2016)

Lagartixa robusta, de tamanho médio, que se alimenta de invertebrados e até de outros pequenos lagartos. Faz justiça ao nome, pois é geralmente encontrada em silvados, florestas, clareiras e matos em geral. Na época nupcial, o macho desenvolve uma coloração laranja na zona da cabeça que o torna inconfundível.

É uma lagartixa ágil, veloz e feroz. Quando ameaçada, podemos até ouvi-la a emitir rangidos. Alimenta-se de invertebrados e de outros lagartos.

Ocorre desde o sul de França até ao norte de África. Em Portugal pode ser encontrada por todo o território, sendo menos frequente no litoral noroeste.

 

Sardão (Timon lepidus)Sardão (Timon lepidus) Almada (02-07-2020)

Este é o meu lagarto autóctone preferido. A sua cor verde, manchada de preto e com ocelos azuis, bem como o facto de ser o maior lagarto da Europa, tornam-no inconfundível. Pode ser encontrado em zonas rochosas, dunas, hortas e até em parques urbanos, assim tenha as condições que necessita para se abrigar. Troncos velhos, buracos entre raízes ou montes de pedras são alguns dos seus esconderijos preferidos, que o macho, por ser territorial, guarda ferozmente. Ver este grande lagarto a apanhar sol numa manhã de primavera é uma visão que não deixa ninguém indiferente.

Distribui-se por todo o país e pode ser também encontrado em França, Espanha e Itália.

É omnívoro, alimentando-se de invertebrados, aves, ovos, pequenos mamíferos, fruta e até de outros lagartos.

 

Osga-comum (Tarentola mauritanica)Osga-comum (Tarentola mauritanica) Almada (30-04-2019)

Esta é a mais comum das duas espécies de osgas que ocorrem em Portugal continental. A sua má reputação precede-a, mas na verdade a osga-comum é um animal completamente inofensivo e até bastante útil ao Homem. Estes pequenos lagartos alimentam-se de moscas, mosquitos, borboletas (traças incluídas), aranhas e de variados outros invertebrados. Chegam mesmo a comer lagartos juvenis. Os dedos das osgas possuem umas escamas especiais que lhes conferem a capacidade de aderir facilmente aos mais diversos materiais, pelo que é comum vê-las a trepar paredes, tectos e às vezes até os vidros das janelas nas nossas casas.

Estes animais de aspecto estranho pertencem à subordem Sauria, como os restante lagartos, mas estão colocados sob a infraordem Gekkota. Isto significa que estes bichos que tantas pessoas acham horríveis e nojentos, são na verdade "primos" dos famosos Gekkos, tão adorados e por quem tanta gente paga muito dinheiro nas lojas de animais...

A osga-comum distribui-se por toda a bacia mediterrânica, tendo nos últimos anos vindo a expandir para norte no nosso país.

 

Camaleão (Chamaeleo chamaeleon)Camaleão (Chamaeleo chamaeleon) Quinta do Marim - Olhão (23-05-2020)

Pertencente à família Chamaeleonidae, também ela dentro da subordem Sauria, o inconfundível camaleão tem características únicas que o distinguem de todos os outros lagartos da nossa fauna. A lendária faculdade de adaptar a sua cor ao ambiente circundante e a capacidade de mover os olhos de forma independente, são provavelmente as mais distintivas. Para além disso, por ser arborícola, a sua cauda é preênsil e as suas patas evoluíram para uma disposição dos dedos ( três dedos oponíveis a outros dois) que lhes permite agarrarem-se com maior facilidade aos ramos das árvores e arbustos. Alimentam-se de artrópodes que capturam com a sua língua proctáctil (pode ser lançada quase um metro para a frente), coberta por um muco aderente.

Este animal está distribuído desde norte de África até ao sul da Península Ibérica, passando pelas ilhas mediterrânicas. A leste, chega ao médio oriente. No nosso país ocorre apenas no Algarve, tendo chegado há uns séculos, vindo de África.

 

- - -

 

Apesar de terem um aspecto razoavelmente semelhante a estes, as salamandra e os tritões não são lagartos. Na verdade nem são répteis, são antes anfíbios (classe Amphibia) pertencentes à família Salamandridae, que conta com sete espécies em Portugal continental. Estes animais passam por estágios larvares e são essencialmente aquáticos, embora algumas espécies possuam também uma fase terrestre.

Esta família, por ser mais difícil de observar devido aos seus hábitos e à sua ecologia, tem sido uma dor de cabeça para mim. Um dos meus grandes objectivos para os próximos tempos é mesmo observar a endémica salamandra-lusitânica (Chioglossa lusitanica). A seu tempo...

 

Tritão-marmorado (Triturus marmoratus)Tritão-marmorado (Triturus marmoratus) Leomil - Moimenta da Beira (27-04-2019)

Na sua fase terreste, o tritão-marmorado é essencialmente nocturno e pode ser encontrado em prados, lameiros, florestas e até jardins, enquanto que, na fase aquática, habita lagos, tanques e cursos de água. Alimenta-se de larvas de outros anfíbios e invertebrados como lesmas, caracóis, minhocas e larvas de insectos.

É um anfíbio de dimensões razoáveis, de cor esverdeada com manchas escuras. Ocorre na Península Ibérica e no oeste de França, sendo que em Portugal pode ser encontrado a norte do rio Tejo.

 

Tritão-de-Ventre-Laranja (Lissotriton boscai)Tritão-de-ventre-laranja (Lissotriton boscai) Oliveira de Azeméis (21-02-2020)

O tritão-de-ventre-laranja é um pequeno animal de ventre alaranjado, pontilhado de negro. O seu dorso é de cor variável, tedencialmente esverdeado. É crepuscular e nocturno e alimenta-se de invertebrados aquáticos, lesmas e minhocas. Pode ser encontrado em zonas rurais e parques urbanos.

Endémico da Península Ibérica, distribui-se por todo o território nacional e zona oeste de Espanha.

 

Tritão-palmado (Lissotriton helveticus)Tritão-palmado (Lissotriton helveticus) Oliveira de Azeméis (13-09-2019)

Este bicho de coloração variável, com manchas escuras ao longo do corpo, é o tritão mais pequeno dos que ocorrem em Portugal. De hábitos crepusculares e nocturnos, pode ser encontrado (geralmente na primavera e no outono) em florestas e áreas agrícolas, escondido debaixo de troncos ou pedras. A sua fase aquática é passada em lagos ou tanques. 

Ocorre na zona oeste da Europa, chegando até à Alemanha. Por cá, é frequente a norte do Douro e muito localizado a sul deste rio.

 

Larva de Salamandra-de-fogo (Salamandra salamandra) Seixal (13-02-2021)Larva de Salamandra-de-fogo (Salamandra salamandra) Leomil - Moimenta da Beira (27-04-2019)

Quando era puto, no Alentejo, via-as com frequência nas noites chuvosas. Eram chamadas de "salamanteigas" e consideradas venenosas... de facto, a sua coloração negra, manchada de um amarelo forte, denuncia a neuro-toxina que este animal esconde sob a sua pele lisa. No entanto, apesar de me dedicar à observação da natureza há já uns anos, nunca mais vi uma adulta (provavelmente devido aos seus hábitos)... ainda assim, tenho observado as suas larvas às dezenas, nas poças temporárias criadas pela chuva.

A salamandra-de-pintas-amarelas ou salamandra-de-fogo é, tal como os anteriores, um anfíbio crepuscular e nocturno. Mas, ao contrário dos tritões, esta salamandra é estritamente terrestre (em adulta), indo à água apenas para depositar as suas larvas. Esta espécie é vivípara (dá à luz as crias que se desenvolveram no interior do seu corpo).

Alimenta-se de uma grande variedade de invertebrados e ocorre na maioria do território europeu.

 

Tão fascinantes para uns como repulsivos para outros, estes répteis e anfíbios de aspecto pré-histórico não deixam ninguém indiferente. Mas são dos animais mais sensiveis às alterações climáticas e à poluição, e devem ser protegidos, pois, como todos os outros seres autóctones, eles são extremamente importantes para a manutenção dos nossos ecossistemas saudáveis.

Pessoalmente, ainda tenho muito a percorrer, mas hei de conseguir observar todas as espécies presentes no nosso país... nesta minha caça aos falsos dinossauros modernos.

09
Fev21

SPEA - Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves

Fundada em 25 de Novembro de 1993, a SPEA começou por ser uma pequena associação dedicada à observação e ao estudo das aves. Desde então cresceu bastante e hoje é uma das maiores organizações não-governamentais de ambiente do país, tendo já dinamizado vários projectos LIFE, entre outros projectos de conservação.

A SPEA, parceiro português da BirdLife International, leva a cabo também vários projectos de monitorização de aves, nomeadamente censos como o CAC - Censo de Aves Comuns, as contagens RAM ou o Atlas de Aves Nidificantes, entre outros.

Tal como para a maioria de nós, este ano e o anterior têm sido especialmente duros para esta organização. Tendo o prazer de conhecer de perto alguns destes projectos e algumas das pessoas que ali trabalham, venho lançar-vos um apelo:

Associem-se a quem tanto faz pela Natureza que nos acolhe a todos e contribuam activamente para um futuro mais sustentável. Caso tenham interesse, podem saber como fazê-lo aqui.

Torne-se Sócio

 

Aqueles que não tenham interesse ou possibilidade de se associar, têm outras formas de contribuir, como a consignação de 0,5% do seu IRS.

Esta forma não tem quaisquer custos para o contribuinte, nem implica uma redução no reembolso do IRS. Simplesmente, 0,5% do IRS devido ao estado é entregue à instituição escolhida por nós. Quem não conhece este procedimento pode tirar dúvidas neste excelente artigo.

Consignação IRS

 

Contribuam e ajudem a dar voz à Natureza.

 

09
Jan21

Almas emplumadas

Noite. Tempo de frio e breu, palco de malfeitorias e mistérios... reino de assombrações e horror. Como a humanidade sempre temeu aquilo que se esconde no escuro, não descansámos enquanto não encontrámos forma de o conquistar... criámos lâmpadas e candeeiros, munimo-nos de faróis e lanternas. Dentro de casa e até nas ruas, iluminámos a escuridão nocturna. Perdemos o medo, esquecemos os terrores...

Bem, quase todos... ainda hoje as criaturas que fazem a sua vida a coberto das trevas são mal vistas, mal compreendidas e injustificadamente temidas. Já aqui tive oportunidade de mostrar um pouco do mundo das borboletas nocturnas e de fazer referência aos morcegos (tema a que voltarei em breve), mas hoje falamos de aves.

Bufo-pequeno (Asio otus)Bufo-pequeno (Asio otus) Castro Verde (24-05-2020) / Vocalização: https://www.xeno-canto.org/552302

 

Tantas vezes associadas a bruxarias, ao azar ou a maus augúrios, as corujas devem ser dos animais sobre os quais mais mitos recaem. Por exempo, alguns povos africanos acreditam que estas aves trazem doenças às suas crianças, enquanto que no médio-oriente há quem acredite que estes bichos representam as almas dos que morreram e não foram vingados... diz-se mesmo que o seu avistamento prediz a morte de alguém. E até na Europa, principalmente até ao princípio do séc. 19, é possível encontrar esta associação aos espíritos, às bruxas e à morte. 

Coruja-do-nabal (Asio flammeus)Coruja-do-nabal (Asio flammeus) Vila Franca de Xira (28-12-2020) / Vocalização: https://www.xeno-canto.org/557487

 

Ainda assim, nem todos os mitos que rodeiam esta aves são macabros... na Grécia antiga, os mochos era vistos como um símbolo de justiça e sabedoria, sendo associados à deusa Athena e tendo a sua imagem sido adoptada por exércitos e até cunhada em moeda. Na Índia, no Japão e no Brasil, por exemplo, existem culturas que vêem estes animais como augúrios de boa sorte e fortuna. 

Mocho-galego (Athene noctua)Mocho-galego (Athene noctua) Ferreira do Alentejo (08-07-2020) / Vocalização: https://www.xeno-canto.org/584232

 

Também no nosso Portugal existe bastante folclore ligado a estes animais. Até na obra de um dos maiores nomes da nossa cultura podemos encontrar referências a uma destas belas aves:

“Pia, pia, pia
O mocho,
Que pertencia
A um coxo.
Zangou-se o coxo
Um dia,
E meteu o mocho
Na pia, pia, pia.”

Esta quadra do grande Fernando Pessoa, juntamente com outras estórias, pode ser encontrada num trabalho realizado pela associação ALDEIA, intitulado "As Rapinas Nocturnas na Cultura Popular Portuguesa - pequenas histórias".

Bufo-real (Bubo bubo)Bufo-real (Bubo bubo) Sintra (11-07-2020) / Vocalização: https://www.xeno-canto.org/603079

 

Mas o que têm estes animais de especial, para que sejam tema de tantas superstições? O que os torna um alvo tão apetecível para a capacidade inventiva da ignorância humana? Bem, o facto de serem aves essencialmente nocturnas será certamente um dos principais motivos... os seus olhos grandes, adaptados a ver no escuro, assombram-nos e o seu voo silencioso parece-nos fantasmagórico. Além disso, o facto de algumas espécies de mochos e corujas colonizarem edifícios abandonados, celeiros ou torres de igrejas excita a nossa imaginação supersticiosa. E o que dizer das suas vocalizações lúgubres, transportadas pelo frio escuro da noite? Quem não se arrepiaria ao escutá-las?

Mocho-pequeno-de-orelhas (Otus scops)Mocho-pequeno-de-orelhas (Otus scops) Penamacor (18-06-2017) / Vocalização: https://www.xeno-canto.org/548633

 

Mas então, afastando-nos um pouco das mitologias, porque é que estas aves apresentam estas características e comportamentos tão específicos?

Algumas espécies, como os mochos e as corujas-das-torres desenvolveram a capacidade de caçar em meios mais urbanizados. As actividades humanas atraem ratos e os ratos atraem estas aves. Portanto, celeiros e outras infraestruturas agrícolas são excelentes zonas de caça e, uma vez que se adaptaram à vida nestas zonas, onde arranjariam melhor protecção para descansar e até procriar do que em edificações abandonadas ou pouco visitadas? Dificilmente esta situação derivaria de ligação a espíritos ou bruxarias, mas antes de uma simples adaptação evolutiva... estes bichos aprenderam a usar-nos.

Quanto aos sons que emitem, as rapinas nocturnas não são (de longe) as únicas aves com vocalizações estranhas aos nossos ouvidos. Mas será que seriam assim tão assustadoras se escutadas durante o dia? O "miado" do mocho, ou o "uhh uhh" do bufo em pleno dia não têm o mesmo efeito em nós do que os mesmos sons ouvidos de noite... na verdade, é a nossa predisposição para o medo do escuro que nos causa os arrepios. As corujas vocalizam pelas mesmas razões que as outras aves. Não são almas a gritar no vazio... são avisos, chamamentos, marcação de território. Comunicação.

Mas e o voo silencioso? Nenhuma outra ave faz aquilo... só podem ser espíritos maléficos! Bem... não, nem por isso. A realidade é bastante mais interessante e complexa. A evolução levou a que estas aves desenvolvessem uma série de características e até estruturas específicas que ajudam a eliminar o som da turbulência do ar criada pelo bater das asas. Estes membros superiores são maiores em proporção com o peso do corpo, relativamente à maioria das outras aves. Isto permite-lhes um voo mais lento e menor número de batimentos de asa. Além do mais, as penas de voo (rémiges) possuem umas estruturas serrilhadas nos bordos que ajudam a quebrar a massa de ar que gera a turbulência. As diversas e menores correntes de ar assim criadas são depois amortecidas pelas penas que são mais aveludadas do que nos outros grupos de aves. Apesar de ainda haver muito para ser compreendido, existem já alguns estudos publicados com informação muito interessante sobre este assunto.

Quanto à razão que levou estes animais a desenvolverem este tipo de voo ao longo das eras, existem duas hipóteses principais em equação. A teoria da "caça furtiva" indicia que esta característica se deve à necessidade de aproximação sem que as presas se apercebam da sua presença. Já a teoria da "detecção de presas" indica que o voo silencioso serve essencialmente para ajudar as corujas a detectarem as suas presas através da audição. Estes animais têm uma audição extremamente apurada, que é auxiliada pelo seu característico disco facial, actuando quase como uma antena parabólica.

A investigadora da Universidade da Califórnia, Krista Le Piane, tem vindo a estudar estas duas hipóteses, na tentativa de compreender qual delas, se é que alguma, explica a evolução desta característica específica. Ao que parece, as espécies que caçam insectos ou peixes têm menos estruturas insonorizantes, por comparação com as que caçam mamíferos. O mesmo acontece em relação às espécies que caçam exclusivamente de noite, por comparação com as que também caçam de dia. A sua equipa de investigação tem percebido que estas evidências corroboram ambas as hipóteses, dependendo de cada espécie.

Tudo isto é bastante mais interessante do que as explicações esotéricas, diria eu...

Coruja-das-torres (Tyto alba)Coruja-das-torres (Tyto alba) VFX (28-12-2020) / Vocalização: https://www.xeno-canto.org/611761

 

Já os seus olhos, grandes em relação ao tamanho da ave, são outra fantástica adaptação. Embora o seu funcionamento geral seja semelhante aos nossos próprios olhos, existem algumas diferenças que ajudam a tornar possível a visão nocturna. Estes orgãos não são globos oculares, como os nossos, mas sim estruturas tubulares... daí que as corujas não consigam mover os olhos. Tal como nós, as corujas possuem dois tipos de receptores, que captam a luz que passa pelas pupilas. Os receptores cónicos permitem ver a cores, mas apenas funcionam bem quando há muita luz. Já os cilíndricos só permitem uma visão monocromática, mas são muito eficientes mesmo em baixas condições de luminosidade.

Ao contrário de nós, as corujas possuem uma muito maior quantidade de cilindros do que de cones, o que implica que não têm uma grande capacidade de distinguir cores, mas conseguem aproveitar bastante melhor as menores quantidades de luz. É essencialmente isto que, associado ao facto do seus enormes olhos captarem melhor a luz, lhes permite ver no "escuro". Estas aves possuem ainda uma outra estrutura, uma espécie de "espelho", chamada de tapetum lucidum. Quando a luz passa pelos receptores, incide neste espelho e é reflectida de volta para eles. Isto dá-lhes a uma segunda hipótese de aproveitarem cada pedacinho de luz disponível. 

Coruja-do-mato (Strix aluco)Coruja-do-mato (Strix aluco) Setúbal (26-12-2020) / Vocalização: https://www.xeno-canto.org/599710

 

Mas as corujas não são as únicas aves que podemos encontrar pela noite fora...

Os misteriosos Noitibós (ocorrem duas espécies no nosso país) são outro grupo de aves que, devido aos seus hábitos, tende a escapar ao conhecimento comum e, portanto, a dar origem a mitos. A aura de mistério é tão forte em volta destes bichos que foi até homenageada pelos cientistas quando atribuiram um nome à ordem à qual pertencem: Caprimulgiformes.

Caprimulgus, em latim, pode ser traduzido por ordenha-cabras. Isto é algo que nos parece estranho, mas não mais do que isso. Já na América um dos nomes pelos quais estas aves são conhecidas é "goatsuckers" ou, traduzindo... chupa-cabras. Terá ligação com o outro famoso mito? Não consegui averiguar.

A lenda por trás deste nome terá, ao que parece, origens anteriores aos tempos de Aristóteles. Estas aves seriam possivelmente atraídas pelos insectos que frequentavam os terreiros onde as cabras dormiam. Devido ao seu hábito de poisar em terreno limpo (provavelmente junto ao gado) e ao seu perfil baixo e longilíneo, de cabeça meio levantada, seria fácil ao homem antigo assumir que lhes estavam a sugar o leite. Mais, tendo abatido algum e constatado que possuem um bico minúsculo e uma enorme boca, que outra conclusão se poderia tirar que não a de que aquela boca seria própria para mamar nas tetas das cabras? Possivelmente nunca se pensou que serviria para ingerir insectos... isso seria parvo.

Deixo-vos um interessante artigo sobre o folclore acerca destes bichos.

Noitibó-de-nuca-vermelha (Caprimulgus ruficollis)Noitibó-de-nuca-vermelha (Caprimulgus ruficollis) Vila nova de Milfontes (18-08-2019) / Vocalização: https://www.xeno-canto.org/567036

 

Então e nos dias de hoje, em que poucos de nós possuem cabras, o que há a temer em relação a estas curiosas aves? Na realidade nada, mas... a escuridão silenciosa da noite não cessa de nos pregar partidas.

Raramente são vistas de dia, altura na qual estão a descansar, muito por culpa da sua plumagem críptica. E durante a noite? Bem... são mais vezes escutados do que vistos. As vocalizações destas aves são, aos nossos ouvidos, completamente alienígenas. Aquele som não pode vir de uma ave... é impossível! E aquele bater palmas a ecoar na noite, poderá vir de algo que não de uma qualquer alma penada? Poderá vir do voo de exibição de um noitibó, do hábito de bater com as asas uma na outra, fazendo o som de "bater palmas"? Nah, isso não faria sentido...

Quando são efectivamente vistos, encontramo-los poisados numa qualquer estrada de terra batida, ou vemos a sua forma rápida, esguia e escura a passar em voo, com os seus grandes olhos a brilhar perante os faróis do automóvel e uns pontos iluminados na cauda e nas asas. E se, ao mesmo tempo, os ouvirmos a vocalizar e até a bater palmas... Cruzes canhoto! Almas penadas! Emissários do Mafarrico! Vade retro!

Noitibó-cinzento (Caprimulgus europaeus)Noitibó-cinzento (Caprimulgus europaeus) Almada (16-07-2020) / Vocalização: https://www.xeno-canto.org/611749

 

A melhor forma de abandonarmos os nossos medos, por primitivos e irracionais que sejam, é através do conhecimento. Observando e estudando um pouco sobre o mundo que nos rodeia podemos compreender aquilo que nos assusta, que nos causa apreensão ou repulsa. Todas estas aves nocturnas têm pouco de obscurantismo. São antes animais fantásticos, possuidores de magníficas adaptações evolutivas e é, na verdade, um verdadeiro privilégio conseguir observá-los.

 

Nada na vida deve ser temido, somente compreendido. Agora é hora de compreender mais para temer menos.

Marie Curie

01
Jan21

2020 aos olhos de um naturalista

Há cerca de um ano atrás era reportado o primeiro caso de uma doença que viria a mudar as vidas de todos nós. Os meses seguintes foram um corrupio de estudos científicos, noticiários sensacionalistas, pânico social, açambarcamento de papel higiénico, teimosias negacionistas e jogos políticos. Veio o distanciamento social, foram introduzidas as máscaras e o álcool-gel, chegou o confinamento... a nossa sanidade mental e a nossa resistência à depressão foram testadas ao limite. Quando finalmente pudemos sair de casa, fomos trabalhar e visitar a família, fomos à praia e aos restaurantes, mas sempre limitados por restrições antes impensáveis. Nada de abraços e beijinhos, pois o distanciamento é para manter, higienizar as mãos N vezes ao dia e usar papeis para tocar nos objectos, pois o "bicho" anda aí e é invisível... e assim o "novo normal" instalou-se nas nossas vidas e nas nossas mentes. Hoje, as omnipresentes máscaras têm a dupla função de nos proteger e de disfarçar a profunda frustração que apenas os nossos olhos teimam em denunciar.

Poucos haveria entre nós que não estivessem ansiosos que o anno horribilis terminasse... afinal, todos sentimos que foram 12 meses perdidos em que nada ou quase nada pudemos fazer. Ou não será bem assim?

Bem, os profissionais de saúde e os cientistas tiveram, infelizmente, um ano cheio. A eles devemos sincera gratidão pelo que trabalharam e pelo que sacrificaram pelo bem de outrem. O comum "Zé", no entanto, ficou por casa... trabalhou quando possível, viu séries, fez pão caseiro, leu livros e falou com família e amigos pela net. Pouco mais lhe foi permitido fazer. Os famosos "passeios higiénicos" foram permitindo o arejamento das cabeças e foi durante o confinamento que se começou a notar uma curiosa tendência: o medo dos espaços fechados trouxe muito mais gente para a natureza.

Mas... e aqueles que já antes passavam os seus tempos livres na natureza? Bem, não posso falar pelos outros, mas eu aproveitei o máximo que pude.

https://www.inaturalist.org/

https://www.inaturalist.org/stats/2020/draposo79#sharing

Durante os meses de confinamento, acabei por passar muito tempo "em casa" com pouco para fazer, uma vez que as minhas funções profissionais não se adequam ao teletrabalho. Como as deslocações estavam proibidas, comecei a aproveitar os passeios higiénicos para explorar todo e qualquer espaço natural em redor de casa. Apesar da maior perturbação devido à presença de mais pessoas, acabei por descobrir uns recantos interessantíssimos, tal como descrevi aqui. Com o desconfinamento, voltei a poder fazer as minhas saídas mais longas e a explorar um pouco outras zonas do país.

Ainda que tenha sido obrigado a cancelar alguns projectos, como uma exploração ao Planalto do Barroso na primavera, 2020 acabou por ser um dos meus melhores anos a nível ornitológico... logrei observar 259 espécies de aves. Quanto à minha faceta naturalista mais genérica, tal como o gráfico acima indica, no total efectuei registos fotográficos de 865 espécies, entre animais, plantas e fungos. Esta forma de passar os tempos livres (chamem-lhe hobbie, passatempo, pancada, nerdice, ou o que quiserem) acabou, em grande medida, por me ajudar a suportar um ano terrivelmente difícil de digerir a tantos outros níveis.

Como corolário para tudo isto, tive o privilégio de passar penúltimo dia do ano numa incursão assaz proveitosa por terras alentejanas, recheada de fantásticas observações. Uma excelente maneira de terminar o ano...

Bufo-pequeno (Asio otus) Castro Verde (30-12-2020)Corvo (Corvus corax) Castro Verde (30-12-2020)
Cisne-mudo (Cygnus olor) Castro Verde (30-12-2020)Grifo (Gyps fulvus) Castro Verde (30-12-2020)
Bufo-pequeno (Asio otus) Castro Verde (30-12-2020)Águia-real (Aquila chrysaetos) Castro Verde (30-12-2020)
Milhafre-real (Milvus milvus) Castro Verde (30-12-2020)Abetarda (Otis tarda) Castro Verde (30-12-2020)
Bufo-pequeno (Asio otus) Castro Verde (30-12-2020)Sisão (Tetrax tetrax) Castro Verde (30-12-2020)
Águia-imperial-ibérica (Aquila adalberti) Castro Verde (30-12-2020)Cortiçol-de-barriga-preta (Pterocles orientalis) Castro Verde (30-12-2020)

 

Neste ano que agora entra, aventurem-se, explorem a natureza, usufruam dela, mas acima de tudo respeitem-na e protejam-na. 2020 deu-nos a prova de que, quando as coisas correm mal no nosso mundinho de cimento e vidro, é ela que nos acolhe...

Castro Verde (30-12-2020)

Bom 2021!

 

 

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