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bicho do mato

Aqui fala-se de natureza, aves, bichos em geral e do que mais me passar pela cabeça

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Aqui fala-se de natureza, aves, bichos em geral e do que mais me passar pela cabeça

13
Nov20

As aves e os seus habitats - Zonas intermarés: o lodo

Um habitat pode ser composto por um conjunto de diferentes biótopos, que não são mais do que áreas geográficas onde as condições ambientais são constantes ou cíclicas. Na verdade, grande parte dos habitats que existem no nosso país estão sujeitos a fenómenos periódicos que, de alguma forma, alteram as suas características.

Entre eles, as zonas intermarés serão, possivelmente, aqueles que apresentam a mais radical alteração de condições, num menor ciclo temporal. Margens ribeirinhas, praias, lagoas costeiras, sapais... consoante a geografia e geologia do terreno, as áreas deixadas a descoberto pela baixa-mar podem apresentar características muito diferentes. No entanto, há algo em comum em todos estes locais: o vai-e-vem regular das marés e o ritmo de vida que elas impõem às aves que ali se alimentam. Hoje vamos falar de um biótopo muito específico: as zonas de lodo.

Pisco-de-peito-azul (Luscinia svecica) Sado - Gâmbia (25-01-2020) (3).JPG

Pisco-de-peito-azul (Luscinia svecica) Herdade da Gâmbia, Setúbal (25-01-2020)

 

Quando a maré retrocede, revelando paulatinamente os lodos repletos de pedaços de conchas e algas, as aves começam a mostrar-se, abandonando os locais onde repousam durante a preia-mar. 

Fuselo (Limosa lapponica) Seixal (11-10-2020)

Milherango (Limosa limosa) Lisboa (29-01-2016)

 

Surgem vindas das salinas circundantes, dos pequenos mouchões dos sapais ou da vegetação marginal dos rios e começam a distribuir-se pelas margens crescentes onde se vão alimentar, acompanhando o refluxo das águas.

Perna-verde-comum (Tringa nebularia) Seixal (10-03-2019)Borrelho-grande-de-coleira (Charadrius hiaticula) Barreiro (05-01-2019)
Maçarico-galego (Numenius phaeopus) VN Milfontes (20-10-2018)Pilrito-pequeno (Calidris minuta) Parque Tejo, Lisboa (04-02-2018)

 

Várias espécies de límicolas percorrem os lodos húmidos em busca dos pequenos invertebrados dos quais se alimentam, chegando até a dar origem a bandos mistos com centenas ou mesmo milhares de indivíduos. Garças prospectam as águas rasas em busca de peixes incautos, flamingos filtram o lodo dentro de água, capturando os pequenos crustáceos que lhes dão a sua famosa cor, colhereiros "varrem" em busca de invertebrados e pequenos peixes. Podemos até encontrar passeriformes, como o pisco-de-peito-azul, nas zonas mais próximas da vegetação.

Colhereiro (Platalea leucorodia) Parque Tejo, Lisboa (04-02-2018)Flamingo-rosado (Phoenicopterus roseus) Seixal (03-04-2017)
Garça-branca-pequena (Egretta garzetta) Montijo (18-03-2017)Garça-real (Ardea cinerea) Parque Tejo, Lisboa (12-12-2015)

 

A questão da competição pelo alimento entre estas aves foi resolvida ao longo das eras, pela selecção natural. A diversidade de características físicas e comportamentais permite que coexistam num mesmo espaço.

Pilrito-de-bico-comprido (Calidris ferruginea) Seixal (01-11-2020)Íbis-preta (Plegadis falcinellus) Seixal (28-09-2020)
Frango-d'água (Rallus aquaticus) Sesimbra (13-06-2018)Maçarico-das-rochas (Actitis hypoleucos) Seixal (07-01-2018)
Tarambola-cinzenta (Pluvialis squatarola) Amora (22-10-2017)Perna-vermelha-bastardo (Tringa erythropus) Vila Franca de Xira (27-08-2017)
Pilrito-comum (Calidris alpina) Península da Carrasqueira (01-05-2017)Perna-vermelha-comum (Tringa totanus) Seixal (05-02-2017)

 

Algumas possuem bicos longos, para procurar alimento que esteja enterrado mais fundo, outras têm bicos curtos para capturar pequenos animais que existem mais à superfície. Há as que têm patas mais longas e bicos como lanças afiadas, para poderem trespassar os peixes nas águas rasas e há os que desenvolveram bicos poderosos o suficiente para quebrar as cascas dos bivalves. Cada espécie está perfeitamente adaptada à forma como vive e se alimenta.

Guincho-comum (Chroicocephalus ridibundus) Seixal (10-03-2019)Narceja-comum (Gallinago gallinago) Sesimbra (01-11-2016)
Maçarico-real (Numenius arquata) Amora (15-08-2016)Pernilongo (Himantopus himantopus) Seixal (20-03-2016)
Maçarico-bique-bique (Tringa ochropus) Vila Franca de Xira (28-02-2016)Rola-do-mar (Arenaria interpres) Amora (28-01-2016)

 

Embora as espécies límicolas estejam geralmente em larga maioria, podemos também ali encontrar algumas gaivotas, rapinas, garças, patos e gansos. 

Ganso-bravo (Anser anser) Vila Franca de Xira (05-11-2017)Marrequinha (Anas crecca) Vila Franca de Xira (10-04-2016)

 

E de vez em quando, muito de vez em quando, surge uma daquelas aves especiais que todos os observadores gostam de encontrar. Uma raridade vinda de paragens longínquas que encontrou abrigo num qualquer lodaçal deste recanto à beira-mar plantado. Como aquela garça americana que descobriu guarida numa vala algures num sapal algarvio, ou o pequeno maçarico que escolheu o rio Sado para passar o inverno, por exemplo. 

Goraz-coroado (Nyctanassa violacea) Faro (04-06-2020)Maçarico-sovela (Xenus cinereus) Setúbal (09-11-2019)

 

Uma multiplicidade de formas, cores, sons e comportamentos... nestas zonas de aspecto escuro e monótono, mas ricas em alimento, a diversidade biológica é rainha. No entanto, passadas cerca de 6 horas, a maré virou e iniciou o seu avanço inexorável em direcção às margens, empurrando à sua frente esta miríade de aves que novamente ganharão os céus e se dirigirão aos seus locais de repouso. Mais um ciclo que se completa, numa dança interminável, ao ritmo das marés.

04
Out17

Passaporte, por favor!

Em 1995, com a aplicação pioneira do acordo de Schengen, Portugal abriu as suas fronteiras aos cidadãos da UE (na altura apenas à França, Espanha, Bélgica, Holanda, Luxemburgo e Alemanha), tendo deixado de existir controlo sobre as suas movimentações dentro deste espaço.

 

Já as aves não se deixam limitar por essas mesquinhices humanas e as suas movimentações são naturalmente livres e obedecem apenas às condições naturais e aos padrões migratórios "imprimidos" nos seus instintos. Sendo que o conhecimento desses padrões é um precioso auxiliar para os projectos de conservação, um dos métodos mais utilizados para o efeito é a anilhagem científica.

De onde vêm as aves que invernam em Portugal? Por onde passaram? E as estivais, para onde migram? Para o ano voltam aos mesmos locais? Estas e outras perguntas podem ser respondidas com recurso à leitura (e respectivo reporte) de uns poucos dígitos inscritos numa(s) pequena(s) anilha(s). Quase como colocar carimbos num passaporte... 


No caso específico destas anilhas metálicas, é pouco frequente a sua leitura sem que a ave tenha sido recapturada ou mesmo encontrada morta. No entanto, uns breves segundos de sorte permitiram-me ler os 7 algarismos suficientes para reportar esta observação ao respectivo projecto.

Este belo exemplar foi anilhado no ano de 2016 em França pelos colaboradores do Centro de Pesquisas para a Biologia das Populações de Aves (CRBPO) do Museu Nacional de História Natural em Paris e, aparentemente, escolheu o Sapal de Corroios para passar o inverno.

Pisco-de-peito-azul (Luscinia svecica)

Pisco-de-peito-azul (Luscinia svecica) Seixal (27-10-2016)

 

[EN]

Passport, please!

In 1995, with the pioneering implementation of the Schengen Agreement, Portugal opened its borders to EU citizens (at that time only to France, Spain, Belgium, the Netherlands, Luxembourg and Germany) and since then it has no longer been necessary to carry a travel passport within this space.

Birds, however, are not limited by these human pettinesses and their movements are naturally free and obey only the natural conditions and the migratory patterns "imprinted" on their instincts. Since the knowledge of these patterns is a valuable aid to conservation projects, one of the most commonly used methods for this purpose is the scientific ringing.


Where do the birds that winter in Portugal come from? And the summer birds, where do they migrate to? Next year will they return to the same places? These and other questions can be answered by reading (and reporting) a few digits inscribed on a small ring. Almost like putting stamps on a passport...

In the specific case of these metal rings, their reading is infrequent without recapturing the bird or even finding it dead. However, a few seconds of luck allowed me to read the 7 figures and report this observation to the respective project.

This beautiful specimen was ringed in France (2016) by collaborators from the Research Center for the Biology of Bird Populations (CRBPO) of the National Museum of Natural History in Paris and apparently chose the "Corroios Marsh" to spend the winter.

Bluethroad (Luscinia svecica) Seixal - Portugal (27-10-2016)

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